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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O fogueteiro e o andor de Senhora Santana


Altar da Igreja Matriz de Senhora Santana - 1964

Colegas de todas as orientações religiosas,

Aconteceu nos tempos em que eu era menino, usando calças curtas e cabelo raspado na máquina zero, sobrando apenas um tufo de cabelo no cocuruto. Era dia da padroeira de Santana do Ipanema, e as ruas da cidade estavam tomadas por uma multidão acompanhando a procissão. Nos tempos em que não havia trio elétrico, nem paradas de orgulho de qualquer coisa, eram a fé do povo, o carisma do Padre Cirilo e o andor ornamentado por Dona Glacira que atraíam gente de toda a região daquele sertão alagoano. Era muita gente e, como eu era pequeno, tenho certeza de que tinha alguém segurando minha mão. A bem da verdade, não me lembro de quem era a mão, mas sou capaz de apostar de olho fechado que era a mão de mamãe, porque, zelosa como era e ainda hoje é, não acredito que ela delegaria esse encargo para “Seu Ninguém”. Eu me lembro bem das pessoas acotovelando-se para chegar perto da santa, algumas tentando apenas tocar no seu andor, enquanto outras faziam questão de carregá-lo, revezando-se continuamente no cumprimento de tamanha honraria. Apesar da aglomeração e do aparente caos, havia um preceito coletivo que garantia o direito de cada um carregar a imagem de Senhora Santana durante um trecho do seu longo cortejo.

Papai nunca gostou muito de multidão e, por uma questão de prudência, preferia acompanhar a procissão guardando certa distância daquela aglomeração em torno da santa. Hoje, depois de tantos anos, eu acho que faria a mesma coisa, mas, naquele dia, minha vontade era exatamente o oposto. Eu queria acompanhar a procissão ao lado da santa, admirando a charola e vendo o revezamento frenético dos homens que a carregavam. Quando eu disse o que queria, minha mãe deu a resposta mais previsível do mundo:

- Não.

Mas aquele dia de julho de um ano qualquer da década de 60 foi diferente de tantos outros. Eu estava determinado a fazer o que queria e passei a insistir. Não sei se por ficar incomodado com a minha insistência, ou por achar que aquela oportunidade poderia ser um bom treino para minha vida futura, papai decidiu que eu poderia sozinho acompanhar a procissão. Sabendo que ela terminaria na praça em frente à Igreja Matriz, antes que me deixasse partir falou:

- Vá e quando a procissão terminar, a gente espera você em frente ao Ferrageiro.

Referia-se à sua loja que ficava exatamente em frente à igreja, do outro lado da praça. Acatei sua ordem e rapidinho me embrenhei na multidão, subindo e descendo as ladeiras da cidade. Apesar de aquela decisão não ter tido a concordância do lado materno dessa história, acho que papai sabia que eu já conhecia o traçado de todas as ruas do bairro, como também que aquela situação seria importante não apenas como uma experiência para mim, como também para eles.

Naquele tempo, um elemento que não podia faltar nas procissões era o fogueteiro. Esse profissional ia acompanhando a procissão e, de tempos em tempos, soltava um foguete, cujo estouro servia para avisar a população tanto do início como da aproximação do cortejo. Apesar de eu já entender essa dinâmica, confesso que nunca tinha visto alguém soltar um foguete. Após percorrer uma rua ou duas de olho fixo no andor, minha atenção foi atraída pelos “papoucos” dos foguetes. Comecei a prestar atenção nas suas trajetórias até que consegui chegar perto do fogueteiro. Conversando com meu velho amigo do tempo da escola primária, Luiz Euclides, ele, além de lembrar-se do homem, lembrava também do seu nome:

- Era Seu Zuza, um senhor de cor clara, cabelos agastados, grande e gordo.

Na verdade ninguém chegava perto demais, Seu Zuza e o ajudante garantiam uma verdadeira clareira naquela floresta humana. Vi vários foguetes subindo chiando em direção ao céu, vi um deles explodir antes de ganhar altura e vi os “cotocos” de dedos na mão de Seu Zuza, observações suficientes para satisfazerem a minha curiosidade e despertarem a minha prudência.

Acho que aquele dia foi importante para um bocado de gente. Foi importante para o povo do sertão que, por devoção ou fé, reverenciava a santa padroeira. Foi importante para papai que colocou pela primeira vez à prova aquilo que viria a ser a minha independência. Foi importante para mim que pude corresponder à sua expectativa e foi importante para minha mãe que naquele dia acompanhou a procissão rezando com mais fervor. Após tantos anos, isso pode parecer para alguns apenas uma história besta de menino, mas, na verdade, aquela situação foi para a história da minha vida uma dentre tantas lições que aprendi com meu pai, a quem agradeço não apenas pelas suas lições, mas também pelo seu exemplo.

No último mês de agosto, papai completou 78 anos. Desejei dar uma passadinha no sertão para lhe dar um abraço, mas minhas férias tinham acabado e eu já havia retornado ao meu trabalho. Queria estar junto dele, relembrar velhas histórias e, quem sabe, ouvir novas, que pudessem um dia ser recontadas, transmitindo memórias, lições e registrando para a posteridade os diversos personagens que compõem a história do sertão, mas lembro-me que, diante de uma ocasião semelhante, ele foi taxativo:

- Primeiro vem a obrigação, depois a devoção.

É por conta de lições como essas, que tenho que me contentar em compensar a distância que nos separa escrevendo meus causos, lembrando o tempo em que eu andava pelas ruas segurando nas mãos de papai e mamãe. Tanto eu, como eles gostaríamos de estar mais próximos uns dos outros, mas sabemos que mais importante do que o tempo que passamos juntos é aquilo que vivemos quando estamos juntos.

Meus colegas, mais uma vez gostaria de desejar a todos uma boa semana e, ao mesmo tempo em que homenageio meu pai pelos seus 78 anos, peço as orações de todos em prol da minha mãe, que hoje estará se submetendo a uma cirurgia delicada.

Saúde, luz e paz!

Virgílio Agra

(Escrito em 17/10/2011)

Além da sua significância para a religiosidade Católica, as procissões tanto recebem influência da cultura popular, como também a influenciam. Um bom exemplo disso é a música Procissão, composta por Gilberto Gil e aqui interpretada pelo grande Luiz Gonzaga.


segunda-feira, 4 de março de 2013

Picolé, frio, gelado e doce



Santana do Ipanema - 1966


Colegas de todas as sobremesas

O que significa para cada um de vocês a palavra Maringá? Se eu perguntasse para alguém com idade de ser meu pai, muito provavelmente, ouviria citações à música do médico mineiro, natural de Uberaba, Joubert de Carvalho, composta em 1932. Se eu perguntasse a Carlos Weigert, engenheiro paranaense hoje morando em terras caetés, ou a Rommel Vanderley, engenheiro caeté hoje morando em terras paranaenses, com certeza ouviria que Maringá é uma cidade do noroeste do Paraná. Quantas alternativas são possíveis para esta pergunta eu não sei, mas podem ficar certos todos vocês, Maringá, para mim, é o nome de uma sorveteria que havia em Santana do Ipanema nos tempos que eu era menino.

Diante das sorveterias que temos atualmente, acredito que eu teria certa dificuldade em explicar para alguém, com menos de 30 anos de idade, como funcionava um desses estabelecimentos nos idos da década de 60 e 70. Se o exemplo tomado vier lá das bandas do sertão, aí então a dificuldade passa a ser dobrada. Hoje em dia a gente chega numa sorveteria "selfi sérvice", escolhe se vai usar copinho ou casquinha, empunha aquela colher especial, abre os freezers e tem tanta opção de sabor de sorvete para escolher que às vezes dá até agonia. Atualmente, uma boa sorveteria da capital alagoana ostenta com orgulho um cardápio com mais de 70 sabores, um verdadeiro tormento para os indecisos. Depois de montado o sorvete, o indivíduo passa por uma bateria de opções de coberturas que vai desde farelo de biscoito até chocolate quente. Para completar o trajeto, uma parada obrigatória na estação balança que quantifica na hora o dano feito tanto no orçamento quanto na dieta.

No tempo em que eu usava calças curtas e tinha a cabeça raspada sobrando apenas um tufo de cabelo na testa o negócio era bem diferente. No centro de Santana do Ipanema, bem de frente à praça, havia um prédio com um salão grande. No alto da sua fachada, pintado na parede estava escrito: SORVETERIA MARINGÁ. Porém, o produto mais vendido da casa era mesmo o picolé. Quando eu pegava um trocado entrava na Maringá, me dirigia a um balcão mais alto do que eu e fazia a tradicional pergunta:

 - Tem picolé de que?

O atendente dizia de cor todas as opções daquele dia, ficando bem claro que este número dificilmente ultrapassava a cifra de meia dúzia de sabores. Considerando-se que coco, morango e chocolate nunca saiam do cardápio verbal as demais opções não se constituíam em qualquer empecilho ao processo decisório. O picolé era um produto muito barato e custava apenas alguns centavos. Já o sorvete, além de ser um pouco mais caro, o seu consumo, para mim, era um pouco mais complicado, pois papai nos proibia de comer a casquinha, alegando que aquilo era sujo. Sujo para se comer, mas não era sujo para conter o sorvete que se comia. Dá para entender? Conhecendo a qualidade das casquinhas de hoje faz vergonha admitir que eu comia as similares daquela época, pois além de não terem gosto de nada a consistência era bem parecida com papel, mas não importava, quando o dinheiro dava e eu podia comer escondido...

Apesar da Sorveteria Maringá ser muito bem localizada, acredito que a maior parte das vendas se dava através de meninos que vendiam os picolés, subindo e descendo as ladeiras de Santana gritando todos, prestem bem atenção, todos gritando a mesma coisa:

 - "ÓÓÓÓi o picolé fri, gelado e doce e gostoso e saboroso que dá gosto na ponta da língua. Olha aêêêê. Picoléééé da Maringáááá olha aêêêê."

Gente, os anos se passavam e os vendedores mirins não mudavam o grito do picolé em uma vírgula sequer. A única inovação que tive oportunidade de presenciar no mercado foi quando surgiu uma nova sorveteria.

Jonas Guedes já era comerciante na cidade, era um cara brincalhão e gostava de tirar onda com todo mundo. Certo dia, não sei porque, resolveu abrir uma outra sorveteria também no centro da cidade. Comprou maquinário, conseguiu um ponto e no dia em que foi abrir o letreiro com o nome do estabelecimento eu estava passando pela rua e fiquei parado admirando o trabalho do letrista. O sujeito começou a riscar as letras e surgiu a palavra SORVETERIA. Em seguida o "artista" sacou do pincel e preencheu as letras, deu todo o acabamento e tornou bem visível a primeira palavra que identificava o produto oferecido pela casa. Ou seja, picolé. Em seguida começou a abrir as outras letras e no início surgiu a letra "A", em seguida a letra "L", continuando o trabalho surgiu os contornos da letra "P". Aí então o "artista" parou, quando percebeu que a parede estava no fim e que, se ele continuasse o trabalho, iria pintar a parede do vizinho. Ou o sujeito errou os cálculos ou não sabia calcular, o certo é que a maior parte do serviço já estava pronto e não tinha como remendar. A cagada foi tão grande que, qualquer que fosse a solução, seria necessário refazer todo o trabalho com sérios prejuízos tanto para Jota Guedes como para o pintor. Apesar de ter tido a honra de ser testemunha ocular desse "fato histórico" eu, apenas uma criança, não tive acesso aos termos do acordo entre Jonas e o pintor. Só sei que o coitado subiu novamente na escada e com muito jeito conseguiu abrir uma letra "I" bem no canto da parede sem invadir o espaço aéreo do vizinho. O nome que deveria estar escrito era "SORVETERIA ALPES", mas, desse dia em diante, quando passava um menino vendendo picolé com uma caixa de isopor pendurada no ombro, gritando, às vezes o script era assim:

 - "ÓÓÓÓi o picolé fri, gelado e doce e gostoso e saboroso que dá gosto na ponta da língua. Olha aêêêê. Picoléééé da Alpíííí olha aêêêê."

E assim colegas, desejo a todos um a boa semana e espero que no próximo final de semana aproveitem para tomar um bom sorvete, com calda, cobertura e uma boa companhia.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(escrito em 10/01/2011)

sábado, 19 de janeiro de 2013

E haja bolacha!


Da esquerda para a direita:
Bolacha mimosa, bolacha sete-capas doce, biscoito da frança e tareco.

Colegas de todos os lugares

Que a grande rede é apenas um meio de manter contato com todos vocês, isso é óbvio. Que as Saudações Caetés é uma desculpa para contar causos e lembranças dos tempos passados, isso não é nenhum segredo. Que receber notícias de todos é um prazer enorme, isso é fácil de deduzir. Mas perceber que minhas lembranças fazem meus amigos remexerem os fundos dos seus próprios baús, isso é, para mim, recompensador, estimulante, etc. etc. etc.

Quando da última edição das Saudações, quando falei sobre as bolachas, um troço tão besta que em todo canto se acha, fui agradavelmente surpreendido com vários comentários recebidos que, de tão interessantes, não pude tirar da minha cabeça a idéia de dividi-los com vocês.

Lá das bandas da Cidade Maravilhosa, o meu irmão e caeté honorário Ivan Varella, como um bom carioca, primeiro tirou uma onda com minha cara quando disse:

 - Fiquei encantado com o relato das bolachas e imaginando você pela primeira vez na feira de São Cristóvão e como se diz por aqui devia ser "um pinto no lixo".

Mas, como os velhos tempos falaram mais alto, continuou:

 - Quanto às latas coloridas lembro bem, pois estas ficavam em exposição nas mercearias e depois nos supermercados, esta é uma das lembranças da minha infância, pois levávamos a quantidade que queríamos e hoje somos obrigados a comprar até mais do que iremos consumir.

Também das plagas cariocas, com os devidos pintos no lixo, mas com raízes mineiras, recebi um comentário da minha amiga do coração, Penha Faber que contou:

 - Lá nas Minas Gerais, quando eu era menina pequena não de Barbacena, mas de Leopoldina rsrs, também ficava alucinada pra ir à casa de minha tia "Bilanda" (Yolanda), porque ao chegar lá meu tio Tatá pegava sua bicicleta maravilhosa (era considerada a rival da minha tia rsrsrs) e ia toda tarde buscar os meus casadinhos e pães com creme em cima.
   Quantas vezes meu pai chegou em casa com aquelas latas quadradas de 20 quilos, cheinha de biscoitos, talvez por isso eu fiquei igual pinto no lixo, quando entro hoje nas seções de biscoitos.
   Acho que bem lá no fundinho resolvi optar por fazer pães, bolos etc. etc. para suprir, quem sabe? Toda aquela vontade de menina rsrsrs.


E também saído das terras mineiras, lá das bandas de Almenara, na beira do Rio Jequitinhonha, o meu compadre e caeté honorário Natanael Almeida, hoje residente na capital cearense, se banhando nas águas onde se banhou Iracema, comentou:

 - Moço, você me fez recordar de uma parte da minha infância, onde a meninada adorava Q-suco com bolacha, mesmo que as mães lamentassem: "Isso não alimenta direito."
   Estávamos mais preocupados com a "farra".
   Às favas o tal poder alimentício.


E é da beira do mar, lá das terras caiçaras de Peruíbe-SP, que minha prima Camila Fuzikawa, apaixonada por gatos, filha do grande santanense F. Nepomuceno e Elza, uma menina filha da terra do sol nascente, mandou um comentário que dizia mais ou menos assim:

 - Nesse seu relato, lembrei-me de uma casa do norte que tinha aqui no bairro da Estação, que vendia os tais mata-fome, que nunca tive o prazer (ou não) de experimentar. Minha mãe costumava brincar, dizendo que o mata-fome era capaz de matar até quem o comia... eu achava que era devido ao tamanho da bolacha, ou da limpeza do ambiente... no caso a falta dela.
   E, apesar de meu pai ser nordestino, ele não morria de saudades das comidinhas típicas vendidas nessas casas, então eu nem conhecia as iguarias lá vendidas.
   Mas os sete-capas vim a conhecer no ano passado, quando uma colega de trabalho passou a comprar de vez em quando nos nossos cafés da manhã, pois lembrava de sua infância. Ô treco ruim! Ninguém gostava, mas todo mundo acabava comendo "de raiva" como diziam, e acabamos pondo o apelido de hóstia quadrada, que sacrilégio.
   Tem coisas que nos remetem à infância, e nem são tão gostosos assim. Vale o valor sentimental das bolachinhas de R$ 1,00.

Pois bem queridos colegas, todas as histórias que um dia aqui contei, foram frutos de relatos que ouvi no passado. O que estamos vendo hoje, é que os leitores das Saudações começam a ser os protagonistas dos novos causos. Usar a escrita da grande rede é apenas uma forma de preencher a lacuna criada pela distância física que tenho de vocês. Saber que as Saudações Caetés mexem com as suas lembranças é a prova de que os nossos sentimentos de fraternidade são capazes de romper a barreira do tempo e do espaço. Muitos causos ainda estão para ser contados.

Caros colegas, lembrando a Camila que bolacha sete-capas de um real só pode ser muito ruim, desejo a todos uma ótima semana. Despeço-me com a frase da minha amiga Penha: Deus é pai e é maior, o bem vencerá, tenho fé que vai melhorar muito mais.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 12/12/2010)

PS: Muito mais do que um alimento popular, as bolachas representam realmente uma parte importante da culinária e cultura nordestina. Além das influências no falar, as bolachas inspiram poetas e estão presentes até na música regional. Um grande exemplo desta influência é a música “Tareco e mariola”, composta em 1993 por Petrúcio Amorim um cabra bom lá das bandas de Caruaru. Evocando nomes de plantas nativas do sertão nordestino como o “velame” e a “macambira” e comidas como o “mugunzá” e o “tareco”, Petrúcio elaborou uma música que exalta altivez do seu povo.
A propósito, “tareco” para quem não sabe, é um biscoito doce, feito em padaria e muito bom para acompanhar uma boa xícara de café quente.


domingo, 6 de janeiro de 2013

Que nem bolacha, em todo canto se acha



Colegas de todos os paladares

A semana que terminou, começou como uma semana qualquer, com aqueles ares de normalidade. No início da noite de terça-feira minha esposa foi me buscar no meu trabalho e, enquanto retornávamos para casa, aproveitamos para passar numa padaria para comprar uns pães, uma dessas atividades corriqueiras na vida dos pobres mortais. Tomamos o caminho do bairro da Pajuçara e fomos direto à Padaria Alteza, onde compramos os tais pães e uma preciosidade somente lá encontrada e em muitos lugares imitada, as Bolachas Mimosas. Sabe aqueles produtos que têm a capacidade de nos fazer lembrar de alguém? Pois bem, essas bolachas sempre me lembram meu pai. Como sou do interior, lembro-me que, sempre que papai vinha à capital comprava um saco dessas bolachas às quais muito apreciávamos.

A bolacha faz parte do hábito alimentar do nordestino desde épocas bem remotas. Quando Sua Majestade Imperial, o Imperador Dom Pedro II visitou o sertão nordestino, subindo o Rio São Francisco para conhecer a Cachoeira de Paulo Afonso, o mesmo escreveu no seu diário que, durante a ceia ocorrida em uma das fazendas onde ele pernoitou, comeu apenas bolachas porque não havia pães. Como estes últimos se estragavam com mais facilidade as bolachas tinham a preferência da população dos rincões mais distantes do país.

Tia Albertina conta que nos idos de 1930 ela foi morar no Sítio Caboré, na casa da minha bisavó Maria Rodrigues Gaia, Vovó "Dindinha". Naquela época, Tio "Badé" era solteiro, morava com os pais e cabia a ele a missão de ir semanalmente à feira em Olho D'Água das Flores. Quando Tio "Badé" partia, ela ficava ansiosa pela sua chegada.

 - “Porque ele trazia cocada e bolachão. Essas coisas que menino gosta”.

Quando eu era menino, o grande sucesso eram as Bolachas Sete Capas, mas eu também comi muitas vezes um bolachão que a gente chamava de "Mata Fome". O tal biscoito tinha um cheiro que a meninada dizia ser cheiro de xixi que era provocado pelo uso de amoníaco na sua fabricação. Mas, com cheiro ou sem cheiro, o produto era barato e por isso muito comercializado. Quando os biscoitos industrializados começaram a chegar ao sertão, vinham inicialmente embalados em latas coloridas, muito bonitas e, posteriormente, em embalagem de um papelão especial. Vinham do Recife e eram fabricados na Confeitaria Confiança, que eu ainda cheguei a conhecer na Rua da Imperatriz. Mas, foi o surgimento dos biscoitos Cream Cracker, Maria e Maizena que colocaram na defensiva a produção local das padarias. O proprietário de uma panificadora próxima à minha casa falou com saudosismo do tempo em que ele só vendia as bolachas que ele mesmo produzia. Convém ressaltar que a autêntica bolacha ficava exposta à venda num balaio, a granel, e o cliente pedia a quantidade desejada que era então pesada na hora. Neste ponto, vale o elogio à Padaria Alteza, lá da Pajuçara, que se mantém original, tanto no que diz respeito à qualidade do produto como na forma de comercialização.

Num período mais recente da minha vida, quando vivi quase um ano em terras cariocas, pude perceber a importância que tem a bolacha como elemento marcante da cultura nordestina. Na maior parte do Brasil o produto é chamado de biscoito, mas no nordeste é bolacha. Em terras gauchas, onde também se adota idêntica nomenclatura para o produto, a pronúncia usada é BOLACHA, assim com a letra "O" com som aberto. No nordeste nós dizemos "BULACHA", pronunciando a letra "O" com o som ultra-fechado, de modo que a 4ª vogal adota o som da vogal seguinte, ou seja, o som da letra "U".

No nordeste existe até um ditado que diz: "Aquilo é como bolacha, em todo canto se acha". Durante o meu exílio na cidade maravilhosa, quando eu ia às padarias do bairro onde morava, além dos pães, é lógico, e de bolos muito bem feitos, eu achava uma variedade tão grande de torradas que eu ficava admirado com a imaginação do padeiro. Porém, uma bolachinha sequer, lá não se achava. Digo, haviam aqueles biscoitos industrializados, com sal, sem sal, light, diet, com fibras, com sabor de cebola, queijo, alho, etc. etc. O produto vinha naquelas embalagens de plástico nas mais variadas cores e com aquela fitinha com a indicação de "puxe para abrir" que mais parece uma carteira de cigarros. Mas, BOLACHAS, dessas feitas nas padarias, só achei quando visitei o enclave nordestino da feira de São Cristóvão.

E foi nesta semana, que começou com este simples caeté comprando bolachas para comer com uma xícara de café, que terminou com uma histórica operação policial. Lá pras bandas das terras cariocas, a tropa de elite da vida real entrou na Vila Cruzeiro e Complexo do Alemão, para dar umas boas e merecidas "bolachas" no crime organizado.

Meus caros amigos, espero sinceramente que os acontecimentos recentes no Rio de Janeiro não se limitem a uma operação policial. Espero que a ação tenha continuidade com a prestação aos cidadãos dos serviços necessários ao usufruto de uma vida digna a todos. Mas, diante das imagens divulgadas pela grande imprensa, não posso deixar de me preocupar com a segurança de todos os amigos que deixei naquela bela cidade. Espero que a semana que se inicia seja para todos de volta a mais perfeita normalidade.

Saúde, luz e paz... Muita paz

Virgílio Agra

PS: Há uns dias atrás fui a Padaria Alteza para comprar as Bolachas Mimosas e encontrei um novo estabelecimento, todo reformado com um “desaine” moderno. Procurei as bolachas e não vi o seu balaio, só as encontrei previamente embaladas em sacos plásticos, com aquela etiqueta colante com um código de barras. Para não dar a viagem perdida comprei um pacotinho, provei e pude constatar que o seu sabor não passou por qualquer reforma, mas o seu encanto, infelizmente, perdeu-se com a modernidade.

(Escrito em 29/11/2010)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Quando bandido era bandido e artista era artista


Cine Alvorada – 1967

Colegas de todas as perguntas.

Desde os meus tempos de criança em Santana, lá na beira do Panema, no sertão alagoano, eu gostava muito de ir ao cinema. Quando fui estudar na Veneza brasileira, passei a morar no bairro da Boa Vista no mesmo quarteirão em que funcionava o Cine Veneza e muito próximo a várias salas de exibição como os cinemas São Luiz, Moderno, Art Palácio e outros. Naquela época, o cinema era uma diversão muito barata, de modo que o meu gosto por este lazer e a proximidade me permitia ir ao cinema, praticamente, todos os finais de semana. Quando cheguei aos meus 16 para 17 anos descobri que no Teatro do Parque, bem ali na Rua do Hospício, passavam filmes que o regime militar não liberava para o circuito comercial de cinemas, podendo ser exibidos em “salas especiais”. Passei a freqüentar essas sessões o que me permitiu assistir excelentes produções. Também nessa mesma época, o Art Palácio incluiu na sua programação uma sessão de arte todos os sábados que eu passei a freqüentar. O tempo passou, surgiu o videocassete e o DVD, as antigas salas de cinema passaram a exibir filmes de kung-fu e pornografia, depois fecharam e finalmente foram convertidas em igrejas evangélicas.

À semana passada resolvemos, eu e minha esposa, fazer um programa que há tempos não realizávamos, fomos assistir um filme na telona. Em cartaz, o "Tropa de Elite, osso duro de roer, 2". O excelente filme de José Padilha, estrelado por Wagner Moura, um menino nascido lá pras bandas da cidade de Rodelas, na beira do Velho Chico, lá no sertão baiano. Achei o filme excelente, me permitam repetir, mas algumas das suas cenas, ao provocarem aplausos na platéia, fizeram o meu pensamento fazer um breve regresso aos tempos em que, ainda menino, assistia as matinês de domingo no cinema de Seu Tibúrcio Soares, o Cine Alvorada, lá em Santana do Ipanema.

Ainda alcancei o tempo em que se assistia em preto e branco os filmes de Tarzan, Carlitos e as chanchadas da Atlântida e Vera Cruz com Grande Otelo, Costinha, Cantinflas e Mazzaropi. O filme podia ser em tons de cinza, mas a emoção era muito viva. Lembro-me do dia em que o Lions Clube Santanense organizou com fins beneficentes uma exibição de um filme de Tarzan, inédito na cidade. O filme era de "Censura Livre", mas como a exibição era à noite eu só pude assistir porque fui com meus pais. O evento foi o máximo.  Apesar do preço do ingresso ser um pouco mais caro que aquele de uma exibição normal, o cinema lotou, com gente assistindo o filme em pé.

Quando eu tinha uns oito a nove anos de idade o cinema anunciou uma única apresentação do filme de sucesso internacional, "Dio, come ti amo!". A divulgação se dava naquela época através do maior veículo de comunicação de massas da cidade, o carro de som de Francisco Soares. A cidade inteira foi assistir ao filme, menos eu. Mamãe não deixou de jeito nenhum, porque o filme ia ser à noite, iria ter muita gente, eu poderia me perder, me machucar, sumir, desaparecer, errar o caminho de casa, etc, etc, etc. Fui dormir triste naquela noite, todo mundo podia assistir o filme, menos eu. No dia seguinte, no entanto, minhas esperanças renovaram-se quando através dos alto-falantes do carro de som, Chico Soares anunciou:

 - Ontem duas mil pessoas assistiram "Dio, come ti amo!", devido ao grande sucesso da apresentação e atendendo a pedidos, o Cine Alvorada fará uma reapresentação deste grande sucesso. Não percam, somente hoje às oito horas da noite "Dio, come ti amo!" no Cine Alvorada.

Naquela época o cinema já havia mudado de dono e Seu Geraldo, o novo proprietário, morava vizinho à minha casa. Conversando com seu filho, descobri rapidamente que as "duas mil pessoas" não passavam de uma jogada de marketing de Chico Soares. A estimativa real era que o público tinha atingido a cifra de mil espectadores, pois o cinema tinha na realidade capacidade para setecentas pessoas sentadas, um número muito bom para uma sala de exibição numa pequena cidade do sertão alagoano. Mas, o melhor de tudo foi que, desta vez, mamãe me deixou assistir o filme. Foi uma noite inesquecível, o cinema lotou mais uma vez e eu confesso que até os dias de hoje me emociono com a música tema do filme, interpretada por Gigliola Cinquetti.

A transição do preto-e-branco para o colorido foi marcada fortemente pelos filmes americanos de faroeste. Os enredos "água-com-açúcar", combinando cores e uma boa trilha sonora fazia com que a meninada assistisse os filmes de "có-bói" sem nem ao menos piscar os olhos. A história nos envolvia de maneira tal que, quando parecia que tudo ia dar errado, chegávamos à beira do desespero. Aí então aparecia o "artista" em cima do seu cavalo, atirando com um revolver cujas balas nunca se acabavam e nunca erravam o alvo, e a meninada então explodia em aplausos para aquele herói vingador, a encarnação do próprio bem contra o mal, representado sempre por índios ou mexicanos. Acho engraçado lembrar que sempre chamávamos o herói de “artista”, a expressão mocinho, só conheci anos depois.

Minha paixão pela sétima arte era tamanha que quando o filme terminava, as luzes se acendiam e as portas de saída eram abertas, eu só saía da sala quando via na tela a famosa frase "THE END". Do lado de fora, a meninada invariavelmente cumpria o ritual de comparar as fotos do cartaz do filme com as cenas exibidas, mas antes de voltar para casa eu tinha uma tarefa a fazer, do outro lado da praça, na Padaria Royal, de Seu Raimundo, tinha que comprar pão crioulo quentinho para o café da noite. Era minha obrigação de domingo que eu tinha que cumprir. Em seguida, eu subiria a pé, mas feliz, as ladeiras de Santana.

Dentre as coisas boas que o tempo proporciona, uma delas é a possibilidade de observar as transformações pelas quais o mundo passa, de modo que é impossível um freqüentador dos cinemas na década de 70 e 80 entrar numa sala de exibição de hoje sem realizar mentalmente uma comparação entre o passado e o presente. As salas de cinema antigamente eram grandes, hoje são pequenas. As pipocas eram vendidas nuns saquinhos de papel que ficavam embebidos com a manteiga que se colocava sobre elas, hoje são vendidas em grandes caixas de um papelão especial bem mais adequado para conter o alimento. Antigamente não se entrava nos cinemas com refrigerantes, hoje os mesmos são vendidos em copos enormes com capacidade até 1 litro. Assisti muitos filmes, sentado em cadeiras com assento de madeira, hoje as poltronas são todas acolchoadas. Apesar dessas mudanças, umas para melhor outras não, uma coisa felizmente não mudou, a capacidade do cinema de extrair da plateia aplausos, risos ou lágrimas incontidas, fruto da emoção causada pelo seu encanto. Mas o tempo passou e dentre as coisas boas que ele levou, foi à época onde, tanto na tela como na vida, era fácil distinguir o bem do mal, onde era fácil saber quem era o bandido e quem era o “artista”.

O "Tropa de Elite 2" de José Padilha é genial não apenas pelos aplausos que suas cenas levantam da platéia ou pelas emoções que nela produz, mas sim por nos levar a refletir, não sobre o mundo da fantasia, mas sobre o mundo real, com uma pergunta "osso duro de roer": Onde está e quem representa o mal? Se ligue, essa pergunta "também vai pegar você".

A todos os meus amigos, desejo uma boa semana e bons dentes para roer os ossos do dia-a-dia, por mais duros que eles sejam.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra.
(escrito em 08/11/2010)

OBS: Para aqueles que quiserem relembrar, ou para aqueles que não conheceram, segue abaixo o trecho final do filme “Dio, come ti amo”, com a interpretação emocionante de Gigliola Cinquetti.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Otília e o Xagado


Otília - 1973
Foto gentilmente cedida por Olivan Medeiros

(escrito em 22/11/2009)

Colegas de todas as cores.

Quando garoto costumava ir com meus pais a Poço das Trincheiras, a terra natal da minha mãe. Distante apenas 12 quilômetros de Santana do Ipanema, a pequena cidade está situada à margem do Rio Ipanema um pouco acima no curso do rio.

Íamos, regularmente nas datas comemorativas como Festa de Reis, Dia de São Sebastião, o padroeiro do lugar, e Dia de Finados, quando reverenciávamos as várias gerações dos nossos antepassados que viveram e lá morreram. Mas, na maioria das vezes, íamos simplesmente para visitar os parentes já idosos como minhas tias-bisavós, pelas quais dedicávamos uma atenção especial porque foram elas que criaram o meu avô Gaspar. Seus nomes eram Maria Francisca e Francisca, mas eram conhecidas como Mamãezinha e Madrinha Yayá, respectivamente. Além destas, visitávamos sempre outra tia, irmã da minha avó, chamada Donatila, a qual chamávamos de Titila.

Quando eu era menino, Titila já era viúva e tinha duas filhas: Tarcísia e Nanci. Da primeira lembro-me bem, mas de Nanci, infelizmente, guardo poucas lembranças. Lembro também que na casa da minha tia havia uma empregada chamada Otília, uma mulher mestiça, de corpo esguio, cabelo pixaim e a pele escurecida, não necessariamente negra, mas sim com as características que compõem o biótipo, próprio do povo sertanejo, tão bem descrito pelo grande Euclides da Cunha.

Não sei exatamente onde Otília nascera, mas é sabido que ela chegou ao Poço das Trincheiras ainda menina, proveniente de uma comunidade próxima e que era filha de Dona Generosa. Sendo mulher, pobre e analfabeta, vivendo numa comunidade que se orgulhava de uma ascendência holandesa, no início do século passado, não coube a Otília outro ofício senão o de empregada doméstica. Trabalhou em casas de várias pessoas como Mamãezinha, Tia Adelaide e finalmente Titila.

Otília era meio alvoroçada do juízo, mas o coração era tão grande que não sei como cabia no peito e foi uma presença marcante na história da nossa família. Conta minha mãe que nos seus tempos de menina havia uma porca grande que, não se sabe por que, era chamada de “Generosa”, o mesmo nome da mãe de Otília. Um belo dia chegou a hora de “Generosa” virar toucinho e, quando Otília viu a porca morta, abraçou-se com ela e chorava dizendo:

 - Minha mãezinha! Mataram minha mãezinha.

Ela era bastante religiosa, mas com sua espontaneidade não escapava de cometer alguns deslizes. Certa ocasião ela estava assando castanhas de caju usando a técnica milenar de jogá-las no fogo para que o óleo causticante que envolve a amêndoa pudesse ser eliminado. As castanhas estavam estourando, lançando umas labaredas de fogo alimentadas pelo óleo, até que uma pequena gota foi arremessada bem no olho de Otília. Felizmente não provocou maiores danos, mas a dor foi tão grande que ela no desespero apelando para os céus gritou:

 - Valei-me Nossa Senhora do C... da Peste!

Mamãe conta que nos seus tempos de menina, quando não havia certas comodidades como televisão e muito menos energia elétrica, Otília reunia a criançada para contar "histórias de Trancoso". Mas ela não contava uma história simplesmente, dava sim um verdadeiro espetáculo, porque ela teatralizava toda a narrativa. Fazia as vozes dos personagens, gesticulava, alterava sua fisionomia, levantava-se e gritava de modo tal que prendia a atenção de todas aquelas crianças. Um belo dia, quando o repertório esgotava-se, ela contava novamente as mesmas histórias que já havia contado anteriormente.

Na sua teatralidade espontânea alterava o enredo das histórias, criava novos personagens, novas situações e a meninada... adorava. Mamãe diz que eram muitas histórias, mas uma delas parece ter sido a favorita das crianças, pois elas sempre pediam para Otília contar, era a história do Xagado. Não me perguntem como era essa história, pois nem minha mãe, que a ouviu inúmeras vezes, consegue lembrar. Motivo: Cada vez que Otília contava a história, contava de um jeito diferente.
Às vezes, uma criança maior lembrava-se da versão anterior e tentava corrigir a contadora, mas ela argumentava logo:

 - Você num sabe como era não! É do jeito que eu tô contando.

Mas aquela figura que tanto se empolgava para contar histórias, sabia também expressar carinho e afeto com o seu jeito simples e sincero de falar. Ainda me lembro, que quando era menino, Otília olhava para mim e com sua voz grave dizia para minha mãe:

 - Vige minha "rimã" (irmã), como é bonitinho "Vrigilinho". Hein, hein! Que benza Deus.

Onde quer que estivéssemos, a presença de Otília era motivo de alegria, pois ela logo tornava-se o centro das atenções. Quando já rapaz, lembro-me de um dia em que estávamos eu, minha mãe e minhas tias tirando a palha de umas espigas de milho verde, na casa da minha avó e Otília resolveu contar uma história de um "trovão de estralo". Não houve quem não prestasse atenção e nem quem conseguisse ficar sério com o jeito dela contar. Otília era em essência uma verdadeira artista popular e trabalhava como empregada doméstica na casa da minha tia Donatila.

Otília nunca se casou, nunca teve filhos e muitos foram os anos em que serviu à casa de Titila. Minhas primas tornaram-se professoras e foram morar na capital. Com as filhas morando longe e os sobrinhos e sobrinhas também, minha tia percebeu que ela e Otília tinham apenas a companhia uma da outra e a relação entre ambas foi cada vez mais se estreitando. Com o passar dos anos Otília passou a ocupar um dos quartos da área social da casa e este era o quarto vizinho ao de minha tia. Lembro-me que as vezes as duas brigavam uma com a outra, mas nunca nada sério, apenas teimosia. Curiosamente, uma tratava a outra pelo mesmo apelido carinhoso: Tilinha.

Um dia Otília estava sentada numa cadeira e aquele seu coração enorme simplesmente parou. E foi assim, sem gestos, falas ou qualquer teatralidade que ela se foi. Minhas primas acolheram Titila e cuidaram dela até que um dia esta também partiu. Partiu para encontrar-se com Tilinha, e lá no céu, quando a encontrou, muito provavelmente estava contando a história do Xagado para os anjos e querubins.

Lembrando que a semana que passou foi comemorado o Dia da Consciência Negra, gostaria aqui de prestar minha sincera homenagem a esta mulher mestiça, meio branca, meio negra que fez a alegria de tantas crianças e que, com sua simplicidade e inocência infantil, conquistou o carinho e o respeito de toda a família a qual tanto serviu. Hoje, eu não consigo pensar em Otília como uma criada. Ela é uma figura que faz parte não apenas da história da minha família, mas é parte dela própria, não podendo jamais ser separada ou mesmo esquecida.

Na semana passada contei a história do Festival Universitário de Música do DCE-UFAL, e que eu havia comprado o LP com as músicas do III FUM. Gostaria de me desculpar por um detalhe: tenho o disco até o dia de hoje e este foi um presente da minha namorada à época e hoje minha esposa Eliane. Com dedicatória e tudo. Ou eu corrigia este detalhe, ou então...

Antecipando aos meus colegas que na próxima semana provavelmente não enviarei minhas saudações, gostaria de desejar a todos uma ótima quinzena.

Saúde, luz e paz.

Virgílio Agra.

domingo, 11 de março de 2012

Fazendo a feira

Santana do Ipanema - Pátio da feira em 1948

(escrito em 10/05/2009)


Colegas de todas as feiras livres

Por que será que a gente diz que foi "fazer a feira"? Ninguém faz uma feira... pelo menos não, sozinho. O que cada um de nós é capaz de fazer, no máximo, é compras na feira. As feiras surgem com naturalidade e sobrevivem com tamanha persistência que desafiam o tempo e as legislações. Na cidade de Paulo Afonso, no sertão baiano, onde morei por quase 20 anos, em certa época a prefeitura abriu um conjunto de novas ruas com um largo para abrigar a feira da cidade, a intenção era remover a feira do local onde era realizada, em ruas estreitas, para um local mais amplo. O máximo que conseguiu, foi criar uma nova feira que passou a ser denominada de Feira Grande e a antiga feira, que existe até os dias de hoje, passou a ser denominada de Feirinha.

Hoje, morando na capital das terras caetés, costumo "fazer feira" na Feirinha da Jatiúca. Como o próprio nome já diz, trata-se de uma feira pequena, uma feira de bairro, e todas as vezes que para lá me dirijo não consigo deixar de me lembrar da minha época de criança, na minha cidade natal, quando ia com minha mãe "fazer a feira". Em Santana do Ipanema a feira acontecia, como até hoje, nos dias de sábado. Porém, como os feirantes já começavam a instalar suas toldas às sextas-feiras, o moradores da cidade, se antecipavam e "faziam a feira" nas sextas à noite, enquanto os moradores da zona rural lotavam as ruas centrais da cidade aos sábados.

Lembro-me que minha mãe me levava todas as sextas, não para passear, mas para carregar as compras, esta era uma das minhas atribuições na divisão dos afazeres domésticos. Meu pai nos levava de carro, e lá chegando, entrávamos naquele burburinho de bancas, gente e mercadorias. A primeira parada era no açougue. Considerando-se as atuais exigências dos órgãos de saúde pública, eu fico a me perguntar como eu, e toda a minha geração, conseguiu sobreviver consumindo a carne que era transportada e comercializada naquele lugar. Naquela época, toda pessoa que ia "fazer a feira", obrigatoriamente, levava cestas e sacolas para ir colocando os produtos comprados. Dentre esses equipamentos obrigatórios, lembro-me que levávamos sempre um pequeno balde de plástico que era usado exclusivamente para colocar a carne. Lembro-me que algumas pessoas usavam aqueles carrinhos com rodinhas próprios para transportar as compras, mas mamãe preferia usar umas cestas de palha de ouricuri e umas sacolas de cipó muito usadas naquela época. Será que essa preferência tinha alguma coisa a ver pelo fato de que quem carregava as sacolas era eu?

Em frente ao açougue havia um galpão coberto, usado para o comércio de farinha e cereais, era o Mercado da Farinha. Convém lembrar que no Nordeste Brasileiro quando alguém fala em farinha subentende-se estar se referindo àquela feita de mandioca, caso a pessoa queira referir-se a outro tipo qualquer, de trigo, por exemplo, tem que falar expressamente, senão poderá ser mal entendido. Interessante é observar que o gosto pelo produto varia muito de um lugar para outro. Enquanto lá na região norte os amazônicos gostam de uma farinha grossa e um pouco amarelada, lá no sertão de Alagoas ela tinha que ser alva e bem fininha, sendo que, independentemente de onde fosse produzida, era chamada de Farinha de Sergipe. Visando garantir a boa qualidade da farinha que consumíamos, meus pais preferiam comprar o produto através de encomendas feitas a pessoas que a produziam ou comercializavam na região, de modo que não me lembro de um dia ter feito compras no Mercado da Farinha.

Saindo do açougue começava uma longa romaria, primeiro na Feira das Verduras, que ocorria numa área mais plana no entorno do mercado, em seguida começava um sobe e desce pela rua onde se instalava a Feira das Frutas. É de se frisar o aspecto do subir e descer, porque a cidade foi construída nas encostas das serras que formavam o Vale do Rio Ipanema e as ladeiras de Santana são umas das características da cidade.

Minha mãe, sempre zelosa, procurava as frutas e verduras melhores e com o menor preço, então ia e vinha, subia e descia, pesquisando, escolhendo e pechinchando. O problema é que eu tinha que acompanhá-la e, conforme as compras iam se efetivando, as cestas, de palha, cipó ou nylon, iam ficando cada vez mais pesadas e eu ia fazendo, semanalmente, um misto de musculação com exercícios aeróbicos.

Terminadas as compras, algumas vezes retornávamos para casa de carro com papai, mas outras vezes minha mãe mandava que eu fosse logo para casa levando uma parte das compras e então eu partia, fazendo algumas paradas para descansar e trocar as sacolas de uma mão para a outra até chegar em casa. Com o tempo eu comecei a criar um desafio para mim mesmo, quanto tempo eu aguentaria sem parar, nem trocar as cestas de mão. Quando finalmente consegui cumprir todo o percurso, sem parada nenhuma, passei a admirar as marcas das alças que ficaram impressas nos meus dedos.

Hoje, "fazendo a feira" na Feirinha da Jatiúca, observo quantas diferenças existem entre aqueles tempos e o de hoje. Nos dias de pouco movimento alguns clientes param os carros em frente às bancas e são atendidos num verdadeiro "drive thru". As barracas são equipadas com balanças eletrônicas, máquinas de calcular e ainda disponibilizam "carrinhos de supermercado" para os clientes levarem suas compras até os seus automóveis. Já existem feirantes que prestam o atendimento "delivery", recebendo os pedidos dos clientes por telefone, fazendo as entregas através de "motoboys" e aceitando até ligação a cobrar. O coco seco é quebrado e raspado na hora, e se o cliente quiser, já leva a macaxeira descascada para casa. Até agora só não vi o pagamento com cartão de crédito, mas com certeza é apenas uma questão de tempo.

As feiras de hoje são práticas, cheias de comodidades e estrangeirismos, onde encontram-se frutas que as vezes são importadas, as vezes têm nomes esquisitos como kiwi e manga tommy athikins mas, apesar da praticidade, tenho saudades da feira de Santana do Ipanema, das frutas que vinham da Serra do Poço: manga rosa e manga espada, bananas maçã, prata, anã e pão, laranjas de vários tipos, caju e jaca.

Após tantos anos, sinto o quanto foi importante para mim ter subido e descido as ladeiras da Feira das Frutas acompanhando minha mãe, carregando as cestas e sacolas que marcavam o couro das mãos. É engraçado lembrar que as marcas nas mãos desapareciam em poucos minutos, mas as lições que ela me passou estão comigo até hoje. Hoje, minha mãe "faz a feira" na Feira Grande de Paulo Afonso enquanto eu "faço a feira" na Feirinha da Jatiúca. Agora eu acompanho outra mãe, a mãe das minhas filhas, mas hoje, os tempos são outros.

Espero que todos tenham uma ótima semana.

Desejo que todos possam gozar de boa saúde, muita paz e um carinho de mãe,

Virgílio Agra.

PS - 1: Para o conhecimento de todos, informo que atualmente os cartões de crédito já são aceitos na Feirinha da Jatiúca.


PS - 2: Já que o assunto é a feira-livre nordestina, que tal ouvir a versão dessa história em forma de musica, composta por Sivuca e Glorinha Gadelha, na interpretação com sotaque nordestino do Clã Brasil.


domingo, 4 de dezembro de 2011

Fogão a gás


(Escrito em 09/02/2009)

Colegas de todos os níveis tecnológicos.

Imaginem vocês, se um dia aparecesse alguém anunciando que inventou um sistema no qual, o produto resultante da queima da gasolina nos motores dos automóveis poderia ser armazenado e usado novamente para abastecer outros veículos. Como poderia a gasolina queimar e depois queimar de novo? Qual seria a sua reação?

Imaginem agora como era a vida no sertão nordestino nos meados do século passado, numa época em que as viagens eram feitas a pé ou a cavalo, as cargas eram transportadas em carros de bois ou em tropas de burros e conduzidas por almocreves (tropeiros) por estradas que hoje seriam classificadas, nada mais nada menos, como simples trilhas. Nas poucas linhas férreas existentes, o transporte cabia às Marias-Fumaça alimentadas a lenha e água. Os produtos que chegavam de fora desse mundo à parte limitavam-se àqueles que não podiam ser produzidos na região, como tecidos finos, querosene, sal e alguns poucos mais. As pessoas viviam com aquilo que a terra podia produzir e na mesa das gentes da caatinga costumava-se dizer:

- A única coisa comprada na minha mesa é o sal.

Pois o feijão, a farinha e o milho; o leite, o queijo, a coalhada e a manteiga; a carne e os ovos; a macaxeira, a batata e o inhame; o café e a rapadura para adoçar eram todos produzidos no lugar. As famílias mais pobres cozinhavam num fogão de "trempe", onde três pedras grandes apoiavam uma panela de barro, deixando um espaço para colocar a lenha por baixo. Nas casas das famílias mais abastadas, onde, além das panelas de barro, havia as panelas de ferro ou de cobre, havia um fogão feito de barro onde, da lenha queimada, só sobravam cinzas e brasas.

Cozinhar num fogão de lenha pode ser muito romântico, mas não é nada fácil. A lenha precisa ser rachada para caber nas bocas dos fogões, na época do inverno a umidade e o frio tornam difícil a sua queima e, para completar, produzem muita fumaça que arde nos olhos e torna a cozinha um lugar bastante insalubre.

Manter o fogo acesso naquela época era um trabalho sem fim. Uma caixa de fósforos era artigo de luxo. Caso o fogo apagasse, alguém precisaria ir à casa de um vizinho para buscar brasas, às vezes caminhando longas distâncias. O mensageiro tinha que ir e voltar rápido, para que a comida pudesse ser preparada. Não é a toa que, até hoje, costuma-se dizer que um visitante que entrou e saiu rapidamente "veio buscar fogo".

Foi num cenário como este que por volta dos anos 50, talvez 60, lá para aquelas bandas, chegaram uns homens do governo dizendo que iriam ensinar ao povo um jeito de como a lenha poderia render mais, ocupar menos espaço e produzir menos fumaça. Eles estavam tratando da produção do carvão vegetal. Tratava-se então de um grande avanço tecnológico para a época e o lugar. Porém, quando explicaram que para produzir o carvão, a lenha deveria ser colocada em um forno onde em seguida seria ateado fogo, a descrença foi geral. A grande pergunta era:

- Como pode a lenha queimar e depois queimar de novo?

A experiência deu certo e, sob certos aspectos, houve uma melhora na qualidade de vida do homem do campo.

À semana passada, conversando com um colega de trabalho e também conterrâneo meu, o mesmo contou que um seu tio mora numa fazenda em pleno sertão alagoano usufruindo de energia elétrica, TV, telefonia celular e internet. Com certeza grandes conquistas tecnológicas do nosso tempo e todas acessíveis naquele lugar.

Naquela conversa com o colega veio à memória a imagem da minha avó. Vovó Lindalva nasceu no início do século passado. Apesar de ter tido os olhos ardidos na fumaça do fogão de lenha, pôde viver o bastante para ver televisão e conhecer uma série de avanços tecnológicos do final do século passado. Apesar dela afirmar com muita segurança que o mundo não alcançaria o ano 2000, pôde assistir a passagem do século e só partiu para outra dimensão três anos depois. Lembrei-me do tempo em que ela fazia uns bolinhos de milho fritos no óleo e depois polvilhados com açúcar e canela que a gente adorava e chamava de “Bololó”. Ela sempre reclamava dizendo que o nome certo não era aquele, mas ninguém levava a sério e todo mundo acabava comendo e rindo. Quando Vovô Gaspar era vivo e eles moravam na Fazenda Esperança, nos tempos de fartura do leite, eles faziam coalhada e juntavam nata para fazer manteiga batida à mão. Pronta a coalhada a mesma era cozida no fogão de carvão e em seguida mexida num tacho com a manteiga, produzindo então o chamado Queijo de Manteiga ou Queijo de Fogo, do qual eu tenho ótimas lembranças.

Certo dia, conversando com Vovó, falávamos sobre os avanços da medicina e as maravilhas da tecnologia humana como a televisão e o telefone; sobre as grandes obras de engenharia e até da chegada do homem à lua quando, de repente, ela disse com aquele jeito de avó, um jeito manso e sábio:

- É meu filho, Deus deu muita inteligência ao homem, mas para mim a coisa mais importante que o homem já inventou foi o fogão a gás.

É colegas, como já dizia o grande Einstein: "Tudo é relativo". Para quem vive na era do cyber espaço, notebook e vídeo conferência, o comentário de Vovó Lindalva pode soar como um absurdo, mas se nos colocarmos no seu lugar... Pensem bem! A coisa até que faz sentido.

Desejo a todos uma ótima semana, na qual possamos refletir sobre o valor de todas as dádivas que recebemos a cada dia, como a vida, a saúde, a família, os amigos, o trabalho... Aproveitando a oportunidade gostaria de repassar a toda a família caeté um abraço enviado por Nathalie Gazaneo, apesar dela ter dito que minhas histórias são de pescador... Sei não... Sei não...

Saúde e paz,

Virgílio Agra
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