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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

E fui pro Recife, para ser tão somente sertão



Colegas de todas as origens

No início deste mês de dezembro, fiz uma breve incursão à capital pernambucana, cidade onde vivi dos dez aos vinte anos de idade. Fui encontrar os antigos colegas do Colégio Nóbrega, escola onde estudei durante sete anos. A visita às terras do Leão do Norte é sempre uma oportunidade de interagir tanto com as pessoas, amigos que lá deixei, quanto com a própria cidade. É uma oportunidade de observar e desfrutar das transformações pelas quais passamos, nós e a cidade, sem nunca perder, felizmente, as nossas identidades.

Já tive oportunidade de falar aqui nas Saudações Caetés sobre as impressões que tive quando cheguei ao Recife, ainda menino. Naquela época, uma das coisas que mais chamava a minha atenção eram os letreiros de neon instalados nas fachadas dos prédios. À noite, no centro da cidade, os prédios localizados na beira do Rio Capibaribe lançavam suas luzes coloridas sobre suas águas, multiplicando as cores e marcando minha memória até os dias de hoje. Com o passar dos anos tive ótimas oportunidades de conhecer a Veneza Brasileira tanto pela terra quanto pela água. Como timoneiro da equipe de remo do Sport Clube do Recife, naveguei não apenas pelo eixo principal do Capibaribe, do qual conhecia as curvas e bancos de areia, como também tive oportunidade de conhecer afluentes, mangues e canais. Naquele estuário, formado por vários rios, algumas vezes chegávamos ao ponto de nos conduzirmos de um rio para outro através de um emaranhado de canais, navegáveis apenas com a maré cheia. Ao longo do tempo em que lá vivi, tive a oportunidade de ver as obras de dragagem e retificação do leito do Capibaribe que contribuíram para livrar Recife das suas frequentes enchentes. Vi pontes serem demolidas, outras sendo construídas.

Hoje, como um simples visitante, falar das alterações pelas quais passou Recife ao longo dos anos é uma tarefa extensa e até cansativa, mas uma transformação que não apenas me impressiona como também me encanta naquela cidade é a recuperação da parte antiga da cidade, na área do cais do porto. No meu tempo, o bairro do Recife Velho era conhecido pelos seus prostíbulos. Ao atravessarmos a ponte Maurício de Nassau, o prédio que abrigava o "Chantecler" impressionava pelas suas características arquitetônicas enquanto que, mais adiante, o "Black Tie" chamava a atenção pelo seu grande letreiro. Hoje a coisa mudou, os prostíbulos foram fechados, lá na beira do cais a Praça do Marco Zero virou ponto turístico, a Rua do Bom Jesus deixou de ser endereço de pensões baratas e tornou-se um ponto de encontro agradável muito bem frequentado. As mudanças foram tantas que até o bairro deixou de ser Velho para receber o título de Antigo.

Foi nessa cidade de cultura efervescente onde comecei a sentir a força das minhas raízes culturais do sertão nordestino. Lembro-me de uma noite, quando já cursava a universidade, saímos, eu e meu primo Alberto, para nos encontramos com uns colegas no Bar Canal, lá na Avenida Agamenon Magalhães. Uma noitada repleta de muita conversa jogada fora e cerveja de goela a dentro que poderia ser uma entre tantas se não fosse o fato de sermos todos do interior de diversas cidades do sertão. Lembro-me bem que estávamos à mesma mesa estudantes de Alagoas, de Pernambuco e da Paraíba. A conversa rolava solta com cada um de nós contando causos e usando sem a menor cerimônia um linguajar que era comum a todos. Mas o que me chamou a atenção naquela ocasião não foi apenas o falar, mas sim todos os referenciais culturais daqueles rapazes que, apesar de serem de diversos estados, mantinham uma unidade bem clara nos seus valores.

Hoje, visitar as terras mamelucas do Leão do Norte, percorrer suas ruas e pontes e reencontrar velhos amigos do tempo do colégio é uma tarefa que me dá um profundo e irrecusável prazer. É gostoso apreciar a cidade fazendo uma gostosa comparação entre o passado e o presente, andar à noite pelo Marco Zero, pela Rua do Bom Jesus e chegar até a antiga Alfândega. A cidade, como se fosse um ser vivo mudou, como uma lagarta que se transforma em borboleta. Da mesma maneira, nós também passamos por transformações, uns quilos aqui, uma cor de cabelo ali... Sobre os aspectos físicos é melhor não comentar, porque o prazer é sentir que apesar das mudanças que fisicamente experimentamos, tanto pessoas como cidades, trazemos uma essência que permanece, pois é inerente à cultura de cada um e isso é o que une as pessoas entre si e estas às cidades.

No mesmo dia em que, às margens do Capibaribe, eu confraternizava com os velhos amigos de colégio, lá na beira da Cachoeira de Paulo Afonso, estava se formando a primeira turma do curso de Direito do Campus VIII da Universidade do Estado da Bahia. Como só soube da notícia duas semanas depois, só agora posso cumprimentar os meus ex-colegas de curso. Enquanto isso, deslizando mansamente, o Capibaribe continua se encontrando com o Beberibe, para juntos formarem o mar.

A todos os meus amigos uma boa semana e um bom natal.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 21/12/2010)

Falando sobre os lugares de Recife, lembro sempre de Alceu Valença, grande artista que exalta sua terra e encanta multidões. Uma de suas músicas por mim preferidas é, coincidentemente, "Pelas ruas que andei" aqui interpretada por músicos que representam uma nova geração da música popular brasileira, Nós4.


domingo, 2 de setembro de 2012

Mirinda, Mirindão e refrigerante



(escrito em 08/12/2009)

Colegas de todos os paladares.

Quando em 1973 fui estudar no Recife, não passava de um menino matuto e besta, que saia das bancas do Instituto Sagrada Família, escola que tinha no máximo duzentos alunos, em Santana do Ipanema, interior de Alagoas, para estudar no Colégio Nóbrega, uma escola que tinha milhares de alunos desde o Jardim da Infância até o antigo Segundo Grau, hoje ensino médio. Após sete anos estudando neste histórico colégio completei o ensino médio em 1979, de modo que, no último final de semana, fui a capital pernambucana me encontrar com velhos colegas de colégio e comemorar os trinta anos de conclusão daquele período escolar.

Santana do Ipanema tinha àquela época em torno de 30.000 habitantes, enquanto que Recife já abrigava milhões de almas, prédios altos, multidões nas ruas, tráfego intenso, semáforos e televisão (em preto e branco, diga-se de passagem), cuja programação começava no início das tardes. À noite, as luzes dos anúncios luminosos refletiam nas águas do Capibaribe formando imagens dignas de um caleidoscópio gigante. Chegando a cidade, cruzando o Distrito Industrial do Curado, as indústrias ali instaladas anunciavam o peso econômico da cidade e algumas indústrias me chamavam particularmente a atenção como a indústrias de pilhas Ray-O-Vac, as amarelinhas, e a fábrica de sorvetes da Maguary. A primeira por ter uma pilha enorme bem na frente da fábrica e a segunda pela lembrança do sabor dos seus deliciosos sorvetes.

Espalhadas por vários pontos da cidade havia outro tipo de indústria que atraia muito a minha atenção, eram as fábricas de refrigerantes. No Recife existiam várias delas como a Coca-Cola, Crush, Clipper, Fratelli Vita e Mirinda. A Coca-Cola tinha uma fábrica na Jaqueira onde uma grande vidraça permitia que os transeuntes pudessem ver a máquina onde as garrafas passavam para receber o refrigerante e suas respectivas tampinhas. Uma outra, acho que era a Clipper, tinha a fábrica de frente para a Avenida Cruz Cabugá, onde o espetáculo da linha de produção também podia se apreciado por todos. Quando fui morar na capital das terras mamelucas já conhecia todas aquelas marcas de refrigerantes, exceto uma, a Mirinda.

De lá para cá muita coisa mudou. A fábrica de sovertes Maguary foi incorporada pela Kibon que por sua vez foi incorporada pela multinacional Unilever enquanto que a indústria de refrigerantes passou por profundas modificações. As pequenas fábricas de refrigerantes foram compradas pelas multinacionais, as garrafas de vidro foram substituídas pelas latas e pelos vasilhames de plástico e, como que simbolizando o crescimento dessas indústrias, surgiram as garrafas de tamanho família, 1 litro, 2 litros, litrão, litraço e outras coisas mais. No entanto, lá na distante Santana do Ipanema, já havia, há muitos anos, uma Mirindão, só que não era uma bebida e sim uma mulher.

Mirindão era louca e mendigava pelas ruas de Santana e, infelizmente, vivia sendo atormentada pelos moleques que insistiam em apelidá-la. Nunca soube qual o seu verdadeiro nome, mas, segundo uns velhos amigos do bairro da Maniçoba, ela detestava a alcunha de Mirindão. Todos os dias, na ida, ou na vinda da escola, quando a molecada avistava a pobre coitada começava o jogo de gritar o seu apelido.

 - Mirindão - gritava um.

 - Mirindão - gritava outro.

A coitada se aperreava, gritava um monte de palavrões, atirava pedras e nada fazia os meninos pararem. Finalmente, como último recurso contra os gritos da molecada, posicionava-se bem de frente para os meninos e levantando a saia com as duas mãos; gritava:

 - Olhe aqui o mirindão.

Era o que os meninos queriam. Após apreciarem o "click" paravam a gritaria e saiam sorrindo e satisfeitos para os seus destinos.

A fábrica da Mirinda fechou antes que eu tivesse oportunidade de provar o seu produto, logo, eu nunca provei Mirinda. Também nunca conheci pessoalmente Mirindão, mas, a bem da verdade, desde que provei a fruta pela primeira vez nunca mais deixei de gostar de refrigerante.

No último sábado, após um passeio com minha filha Janaína no Parque da Jaqueira, perto da antiga fábrica da Coca-Cola, paramos num mirante às margens do Rio Capibaribe para apreciar a vegetação de mangue que agora delineia todo o percurso do velho rio. Falei para ela das modificações da paisagem urbana da cidade e disse-lhe que, quando fui morar naquela cidade, os mangues eram indesejados porque, entre outras coisas, impediam que as pessoas vissem o reflexo das luzes nas águas do rio. Nos novos tempos o conceito de beleza urbana mudou e o verde das plantas é extremamente valorizado.

À noite, durante o encontro em que comemorávamos os trinta anos da conclusão do nosso período colegial, curiosamente, comentávamos sobre nossos filhos que estão nos dias de hoje completando esta fase das suas formações. O tempo passou e um novo ciclo se formou, mas, apesar do efeito que o tempo provocou sobre a cor, ou a quantidade dos nossos cabelos, o prazer de viver cultivando boas amizades é cada vez melhor, como uma fruta que amadurece no pé.

Colegas, aproveitando a oportunidade para desejar a todos uma ótima semana, gostaria de felicitar Janaína que hoje está completando mais um aniversário e também minha filha Juliana que ao concluir o seu ensino médio completa um ciclo que um dia comecei e também concluí.

Saúde, luz e paz.

Virgílio Agra.

PS: Dentre as marcas e nomes que marcaram os meus tempos de Recife, um deles foi o das Casas José Araújo, "onde quem manda é o freguês". Só a título de lembrete, vai aqui uma antiga propaganda dessa loja que transformou-se num grande sucesso carnavalesco, uma colaboração do meu compadre Evaldo, grande folião do incomparável carnaval de Olinda.


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Uma questão de tempo e de cor.


(Escrito em 15/12/2008)
Colegas de todas as idades

Em 1973, após concluir o 4º ano primário, deixei o interior de Alagoas para estudar na capital pernambucana. Dez anos depois, quando deixei para trás as terras do Leão do Norte, eu já era um adulto, tendo lá vivido toda a minha adolescência.

No último sábado, dia 13, voltei ao Recife para participar, pela primeira vez, de um encontro dos antigos colegas do Colégio Nóbrega. Vinte nove anos haviam se passado sem que eu tivesse visto a maioria absoluta dos meus colegas.

Não vou me dar o trabalho de tentar descrever os sentimentos que me acompanharam no percurso, tanto na viagem de Maceió a Recife, quanto da casa da minha irmã, onde eu me hospedava, até o local do encontro, porque estes eram tantos que só enumerá-los já seria uma tarefa árdua, mas com certeza foram momentos de muita ansiedade para mim. Além de ansioso eu também estava preocupado, pois, após tantos anos, será que eu seria capaz de reconhecer meus antigos colegas de colégio? E mais, será que eles me reconheceriam?

Chegando ao Empório Marítimo, bar aprazível localizado às margens do rio Capibaribe, fui me aproximando do local e avistei muitas pessoas em grupos diversos. Ia passando pela calçada e olhando para as mesas, tentando achar algum rosto familiar. De repente, numa mesa, uma turma começou a gritar e chamar pelo meu nome. Olhei e vi uma mesa com um grupo de pessoas que não reconheci, mas, para minha salvação, eles me reconheceram e aí não havia dúvida, parti para o abraço! Foi uma tarde e um início de noite ótimo. Velhas histórias, muito barulho, muitas notícias e fortes abraços.

Quando vi a cara dos meus colegas, imaginei logo, como será que está a minha? Com certeza eu estava com cara de felicidade, sentindo aquele gosto gostoso de retorno a um meio que me era tão valioso. Mas as medidas das cinturas e a cor dos cabelos daqueles que ainda os tinham, era um indício forte do lapso de tempo que nos separou. Mas nada se comparava ao prazer de poder estar ali, entre eles, relembrando velhas histórias e ouvindo novas.

Dentre os presentes estava Jaime Vasconcelos, o meu primeiro amigo quando ingressei no colégio. Das histórias que ouvi, foi a dele a que mais me impressionou. Tentando ajudar um amigo que queria adotar uma criança, numa cidade do interior pernambucano, ele procurou o Conselho Tutelar. Já no primeiro contato, foi informado que havia uma criança com as características desejadas e ele então foi levado até ela. Encontrando a garotinha nos braços de outra menina maior, pensou tratar-se de um gesto de solidariedade entre as crianças que compartilhavam aquele ambiente, no entanto, foi informado que a garotinha que ele pretendia adotar era parte de uma família de cinco crianças, cujos pais perderam a guarda dos filhos, estando todos eles abrigados no órgão de tutela. Percebendo que a adoção da garotinha significaria a fragmentação daquela já desafortunada família, Jaime tomou a decisão mais corajosa que já vi na minha vida. Sendo pai de dois filhos, adotou os cinco irmãos.

É colegas, Jaime adotou os cinco. CINCO.

Quantas surpresas a vida nos reserva. Viajei cerca de trezentos quilômetros para encontrar velhos amigos, ansioso para ver seus rostos, ouvir suas histórias, tomar umas e outras e dar umas boas risadas, mas a melhor de todas as histórias não teve nenhuma relação com a formação escolar ou carreira profissional, mas sim com a capacidade humana de amor e doação.

Hoje gostaria de cumprimentar a todos os colegas da turma A de 1979 do Colégio Nóbrega, porque eles são muito mais do que colegas de uma antiga turma de colégio, eles são o laço que eu tenho com as terras pernambucanas e, em particular, gostaria de saudar o meu amigo Jaime Vasconcelos pela sua vida que é um exemplo para todos nós.

O encontro foi gratificante e eu pude voltar para casa com a certeza de ter restabelecido laços que eram tão significativos pra mim, mas ficou uma dúvida: Porque será que os meus colegas perderam os cabelos ou estes mudaram de cor para a tonalidade branca, enquanto que a parcela feminina da Turma A, sob as mesmas circunstâncias, ostentava belos penteados das mais diversas cores, exceto a branca? É um mistério... é um mistério.

Desejo a todos uma ótima semana e hoje, excepcionalmente, mando a todos minhas saudações mamelucas.

Saúde e paz,

Virgílio Agra.

OBS: Nada melhor que uma música de Capiba para representar minha ligação com Recife, aqui na voz do grande Alceu Valença


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