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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O descarrego do encarregado


Usina Apolônio Sales
Fronteira Alagoas - Bahia

Colegas de todas as ambições

Na era da informação, globalização e estresse o sucesso é cada vez mais visto como uma meta obrigatória a todo ser vivente. Mas o que é o sucesso? Como não tenho nenhuma formação que me permita apresentar aqui a definição definitiva, acho melhor vocês procurarem um cara do tipo do Max Gehringer, a quem cito não por ironia ou desdém, mas por uma sincera admiração. No entanto, eu me permito comentar que para muita gente neste mundo o sucesso está associado ao resultado de uma equação onde não podem faltar duas importantes variáveis: o dinheiro e o poder.

Refletindo sobre recentes acontecimentos da minha vida, detalhes, deixa para lá, lembrei-me de um rapaz que conheci no tempo em que compus os quadros da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, CHESF, lá pras bandas da Cachoeira de Paulo Afonso. Joel Torquato era Operador de Usina na mesma unidade da CHESF em que trabalhei. Como o trabalho de operador era exercido em ambiente de periculosidade, essa categoria tinha direito a uma aposentadoria especial, de modo que quando comecei a minha carreira, Torquato estava encerrando a sua. Não tivemos oportunidade de trabalharmos juntos, mas isso não impediu de conhecê-lo socialmente nem de conhecer algumas de suas histórias.

Trabalhar numa usina hidrelétrica é uma experiência semelhante a viver numa terra de gigantes. Tudo lá dentro é enorme e tanto as forças que movimentam suas máquinas, como a energia que lá é produzida tem dimensões titânicas. A usina trabalha vinte e quatro horas por dia e as equipes de operação se revezam continuamente no seu controle. Os candidatos a operadores, naturalmente, são submetidos a um treinamento prévio antes de ingressar na carreira. Uma vez efetivado no cargo, o indivíduo é classificado como Operador I e, de acordo com o seu desempenho e com as oportunidades, o mesmo poderá galgar novas classificações que significam maior remuneração e também mais responsabilidade. Dentro desse contexto, cada equipe de operadores é composta por vários elementos, sendo que aquele que é mais experiente exerce o comando da equipe e é denominado de Encarregado de Turno. No comando da unidade de geração como um todo, tem também a figura do Encarregado da Usina, cargo que também é exercido por um operador, a quem cumpre responder por toda a operação perante o serviço de engenharia da empresa.

Quando fui trabalhar na Usina Apolônio Sales, o meu treinamento foi aplicado por Guabiraba, cabra nascido e criado dentro do sistema CHESF e conhecedor profundo de todas as minúcias do funcionamento daquela usina. Pouco tempo após a minha efetivação na empresa, Guabiraba aposentou-se, mas, além das grandes lições que me deixou, tem também uma história do tempo em que ele foi o Encarregado da Usina.

Contam os meus antigos colegas da Operação que, certo dia, diante da aposentadoria de alguns antigos operadores, a fila andou e Guabiraba anunciou para Torquato que ele seria, a partir de então, o novo encarregado do seu turno. Para tomar aquela decisão o chefe levou em consideração tanto o tempo quanto a experiência que o operador acumulara ao longo de muitos anos de serviço. Com certeza, a decisão foi tomada baseada em fatores inquestionáveis, pois Torquato conhecia muito bem aquele gigante de concreto e aço. O problema é que nesta tomada de decisão não foi levado em consideração uma variável extremamente importante, a ambição do indivíduo. Por favor, não estou aqui falando em ganância, mas sim no desejo legítimo de se ter ou possuir alguma coisa. Joel Torquato tinha de fato todos os requisitos técnicos necessários ao exercício do comando de um turno, mas ele sabia que o desfrute daquela posição implicava em responsabilidades bem maiores e este encargo ele simplesmente não almejava. Não se sabe o porquê dele não ter recusado de imediato, mas o certo é que Torquato aceitou, ou seria melhor dizer, acatou a missão.

Eu tenho a absoluta certeza que cada um de nós conhece pelo menos uma pessoa capaz de "vender a própria mãe" só para usufruir do binômio "dinheiro - poder". O problema é que Joel simplesmente não se enquadra nessa categoria de pessoas. Dinheiro para garantir o sustento digno da sua família ela já obtinha honestamente no exercício do seu ofício. No tempo em que ele ingressou nos quadros da CHESF a companhia proporcionava casa aos seus funcionários e, graças a essa regalia, ela já usufruía de uma boa casa, numa rua tranquila e arborizada em frente a um lago. A função de Encarregado de Turno conferia-lhe uma prerrogativa hierárquica, podendo também servir de meio para atingir alguma promoção, mas ele simplesmente estava satisfeito com aquilo que já obtivera.

Os turnos se passaram e o Encarregado da Usina começou a se preocupar com o desempenho do novo Encarregado de Turno. Dedicado e detalhista como era, eu fico só imaginando o estado de espírito em que se encontrava o meu treinador. Dia vai, dia vem e Guabiraba ficava cada vez mais irrequieto, parecendo mais uma galinha quando quer por. Torquato por sua vez ia cumprindo turno após turno, arranjando um jeito de driblar as situações de estresse que porventura aparecessem. É lógico que essa situação não poderia continuar, mas, como um grande ser humano, Guabiraba sentia-se imensamente constrangido em ter que destituir o colega. O tempo continuou passando e diante da persistência do quadro ele tomou a decisão e resolveu ter uma conversa com o rapaz. Puxou ele para um lado, começou a falar sobre a usina, sobre o trabalho, arrodeou, fez mil voltas enquanto procurava coragem para comunicar ao colega sua decisão. O tempo todo ele ficava imaginando qual seria a reação de Torquato quando a destituição fosse informada. Respirou, criou coragem e finalmente deu seu veredito: a partir daquele dia ele não seria mais o encarregado daquele turno. Ouvindo aquelas palavras Torquato olhou para ele e disse:

 - Muito obrigado Guabiraba, você tirou um grande peso das minhas costas.

Resposta inesperada, alívio para ambas as partes.

Daí em diante o tempo seguiu sua marcha e, finalmente, Torquato alcançou sua merecida aposentadoria. Hoje, ainda desfrutando de bastante vigor físico, dedica-se a duas paixões, a família e o motociclismo, enquanto continua morando naquela mesma casa em frente ao lago.

A propósito, segundo Max Gehringer, embasado num livro escrito há 2.300 anos, "sucesso é o sono gostoso, se a fartura do rico não o deixa dormir ele estará acumulando ao mesmo tempo a sua riqueza e a sua desgraça".

Numa era onde o sucesso é tratado não como um prêmio, mas sim como obrigação, encaminho a todos um abraço forte, muita energia e o desejo de que cada um obtenha, na devida medida, muito sucesso.
Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 15/11/2011)


Falando em Max Gehringer, ouça o que ele tem a dizer sobre o tema “sucesso”.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Durma com um barulho desses


Complexo das Usinas Paulo Afonso III, I e II.
Foto de Mário Roberto Batista.

Colegas de todos os "grilos".

Quem assistiu ao filme "O Último Imperador", talvez se lembre de uma parte da história onde o personagem principal, o imperador da China Pu Yi, ainda criança, recebeu um estojo que continha um grilo. Se na vida real o imperador ganhou um grilo, ou não, eu não sei, pois eu não estava lá, mas a cena faz sentido por conta da significância desse inseto para os chineses que admiravam tanto o seu canto a ponto de criarem os bichinhos em gaiolas, do mesmo jeito que aqui tem gente que cria passarinho. Hoje em dia, quando viajo ao sertão e tenho uma rara oportunidade de passar uma noite na zona rural, acho gostoso dormir ouvindo o canto dos grilos, mas tenho que reconhecer que um bichinho desses dentro de um quarto fechado é uma companhia nada recomendável para uma boa noite de sono. O certo é que a interação que os povos têm com os elementos da natureza variam muito de local para local, mas uma coisa é certa, o canto de um grilo é inconfundível em qualquer lugar do mundo.

Vocês se lembram que eu falei um dia desses sobre um ex-Operador de Instalações da Companhia Hidroelétrica do São Francisco - CHESF, chamado Reginaldo Barros? Pois bem, Reginaldo tem um rol de presepadas que aprontou com os colegas que, sozinhas, davam para publicar um livro.

Como o serviço de geração de energia é contínuo, 24 horas por dia, é natural que algumas funções também precisem funcionar de maneira ininterrupta. Ou seja, do mesmo jeito que os Operadores trabalham se revezando em turnos, mantendo as máquinas e o sistema elétrico funcionando, o setor de segurança patrimonial também tem que trabalhar continuamente para  garantir a integridade física das pessoas e dos equipamentos. Enquanto que durante o dia há uma movimentação constante de técnicos das áreas de manutenção e administração, à noite os únicos postos de trabalho que se mantêm ativos são a Operação e a Segurança.

Não é necessário uma pessoa ter trabalhado em regime de plantão para saber que, quando chega o turno da noite o cansaço chega também, mas as características do trabalho exigem que o indivíduo fique alerta, pois existem rotinas que precisam ser cumpridas ao longo do período, mas, a bem da verdade, existem aqueles que, por motivos os mais diversos, não conseguem resistir.

Quando fui trabalhar na Usina Apolônio Sales, havia um carro de plantão para atender as demandas do serviço de operação e éramos nós os operadores quem o dirigia, mas em tempos anteriores havia um motorista profissional que, por conta do serviço, também tinha que ficar de plantão. Certo dia, Reginaldo percebeu que o motorista durante a noite sempre dava um "cochilo" e, para garantir maior conforto, o rapaz dormia dentro do carro. Percebendo a manobra dele, Reginaldo, inteligente como era, arquitetou um plano para pregar-lhe uma peça. O resultado foi de uma maestria que entrou para os anais da Usina.

Usando de muita habilidade e paciência, Reginaldo conseguiu capturar uma porção de grilos, os colegas falaram que devia ter sido mais de vinte grilos. Discretamente, levou os bichos para a usina dentro de uma caixa e, quando foi de noitinha, soltou os insetos dentro do carro de plantão. O grilo, apesar de ter um canto muito estridente, é por sua natureza um animal muito tímido, então, quando foram soltos, todos eles procuraram imediatamente um lugarzinho para se esconder. Uns foram para debaixo dos tapetes, outros para debaixo dos bancos, alguns por alguma pequena abertura entraram no painel do carro enquanto outros se acomodaram na primeira reentrância que encontraram. Como a viatura ficava com os vidros fechados todos os animais, sem alternativa de fuga, tiveram que encontrar abrigo dentro do carro.

Naquela noite, no pátio da usina, tudo corria dentro da maior normalidade. Vendo que tudo estava calmo, o motorista aproximou-se do veículo, abriu a porta e a luz interna acendeu. O banco do carro parecia que convidava o rapaz a sentar-se e, o convite sendo aceito, tudo caminhava para mais uma noite de sonhos. O banco foi ajustado para dar mais conforto, a porta foi fechada, a luz interna apagou-se e, naquela penumbra, o motorista fechou os olhos. De repente ele ouviu um barulhinho.

 - Triiii, triiii, triiii, triiii, triiii...

 - Ai meu Deus, "parece" que tem "um" grilo aqui dentro.

Quando o rapaz se mexeu dentro do carro e acendeu a luz interna, os grilos com a sua conhecida cautela se calaram e, logicamente, cada um procurou o seu refúgio. Após uma breve busca e, nada encontrando, o homem apagou a luz e voltou a se acomodar. Com a escuridão e o silêncio da noite os grilos voltaram à atividade.

 - Triiii, triiii, triiii, triiii...

 - Vou pegar esse grilo!

A porta foi aberta, a luz interna foi acesa, os grilos voltaram a se esconder e o motorista começou a remexer o interior do carro. Rapidamente encontrou um grilinho que imediatamente foi despejado das suas acomodações. Satisfeito, o sujeito sentou novamente e relaxou. Quando estava quase dormindo...

 - Triiii, triiii, triiii, triiii...

 - Minha Nossa, tem outro grilo.

Reiniciou-se a operação de caça ao inseto até que, após alguns minutos, ocorreu a captura de um novo grilo que foi expulso sumariamente do ambiente.

E assim correu a noite toda. O motorista se acomodava, com o silêncio e a escuridão os grilos cantavam, a luz interna do veículo era acesa, o carro era revirado e um novo grilo era despejado. Nesta noite, com certeza, o rapaz não conseguir sequer pregar o olho, mas na manhã seguinte todo mundo da usina estava rindo por causa de mais uma das astúcias de Reginaldo.

Lembrando que na década de 70, na gíria, "grilo" era uma palavra que significava problemas, gostaria de desejar a todos os meus amigos uma vida sem "grilos", porém me permitam desejar que em cada um de vocês pouse um grilo, pois na tradição chinesa um evento desses significa boa sorte.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra.

(Escrito em 29/03/2011)

PS: Para aqueles que não assistiram “O último imperador”, de Bernardo Bertolucci, segue aqui um pequeno flash dessa magnífica obra do cinema. Para aqueles que tiveram o prazer de assisti-lo, segue uma palhinha só para recordar.


domingo, 14 de abril de 2013

Pimenta na sopa dos outros é história


A Usina Apolônio Sales
é uma das componentes do complexo hidrelétrico de Paulo Afonso.

Colegas de todos os paladares

Numa dessas voltas que esse mundo dá, tive a oportunidade de trabalhar durante alguns poucos anos da minha vida na Companhia Hidro Elétrica do São Francisco - CHESF, empresa estatal responsável pela geração de energia para todos os estados do Nordeste, exceto o Maranhão. O meu ingresso se deu, como manda a legislação, através de concurso público e desse modo passei a compor o quadro dos Operadores de Instalação da companhia. Trata-se por Instalação, uma usina ou uma subestação e o trabalho de um Operador consiste em acompanhar o funcionamento dessas unidades e intervir sempre que necessário.

Nos tempos em que compus os quadros da CHESF trabalhei na Usina Apolônio Sales - UAS, usina localizada à margem esquerda do Rio São Francisco, no estado de Alagoas. A UAS contava, já naquela época, com um bom sistema de automação, no entanto fazia parte da rotina de trabalho dos operadores, a realização de inspeções constantes das suas instalações. Nestas ocasiões eu me sentia como se estivesse numa terra de gigantes, pois tudo era enorme. Havia pontos que, não importava quantas vezes eu inspecionasse, sempre me provocava admiração. Um desses locais era o chamado Poço da Turbina, lá o Operador ficava num local onde abaixo dele a força do rio girava a turbina e acima da sua cabeça girava um imenso gerador. Ligando uma peça a outra, um eixo vertical de diâmetro tão grande que um homem não conseguiria abraçá-lo. Os parafusos que uniam essas peças gigantescas tinham porcas tão grandes que um adulto não conseguiria segurar duas delas em uma única mão. O barulho era enorme e circulava um ar tão quente que mais parecia uma sauna.

O sistema de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica é algo simplesmente grandioso e, até hoje, considero que a oportunidade de ter feito parte deste todo, foi a satisfação de um antigo fascínio que alimentei desde os tempos de criança. Muitas vezes eu ficava admirado pelo fato de que o trabalho que eu executava lá no sertão da Bahia influenciava pessoas que estavam a milhares de quilômetros de distância. Naquele serviço, máquinas e pessoas tinham que trabalhar em perfeita sincronia e ninguém podia fazer nada sem que fizesse parte de uma manobra previamente estudada.

As recordações que guardo não são compostas, naturalmente, apenas pelas máquinas e grandes estruturas de concreto. O convívio com os colegas, tanto técnicos como engenheiros, me marcaram de tal maneira que precisaria escrever muitas Saudações para que eu pudesse registrar as boas lembranças que guardo até os dias de hoje. 

O quadro de pessoal lotado numa usina é basicamente dividido entre operadores e mantenedores. O pessoal de manutenção trabalha normalmente de segunda à sexta-feira no horário comercial, enquanto os operadores trabalham em regime de turno corrido de seis horas, revezando-se continuamente todos os dias do ano, ininterruptamente. Mas nem sempre foi assim, houve época em que os operadores trabalhavam num turno de 24 horas, até que, gradativamente, este sistema foi sendo alterado até chegar à configuração atual.

No tempo em que os turnos eram longos, de 24 ou 12 horas, a companhia fornecia as refeições para toda a equipe. Nos horários das refeições os Operadores se revezavam e, em duplas, iam se alimentar enquanto os outros tomavam conta do serviço. Nesta época trabalhou como operador um rapaz chamado Reginaldo Barros. Eu tive oportunidade de conhecê-lo socialmente, mas quando comecei a trabalhar na CHESF ele já estava aposentado. Reginaldo foi um bom operador e deixou boas lembranças, mas a sua característica mais marcante era o seu bom humor. O cara era um gozador nato, não perdia uma única oportunidade de pregar uma peça em alguém. Os colegas contavam que naquela época, à noite, era servida uma sopa. Certo dia, Reginaldo foi jantar e, sem que o parceiro percebesse, jogou pimenta em um prato. Em seguida, perguntou se poderia servir ao colega que, ingenuamente, aceitou. Com calma e "zelo" colocou a sopa no prato e ao terminar perguntou:

 - Você quer pimenta?

O coitado sem perceber nada respondeu que sim e Reginaldo colocou umas gotas do condimento, mexeu a sopa e passou o prato. Em seguida colocou sopa para ele próprio e também colocou algumas gotas da mesma pimenta. Quando começaram a comer o colega começou a sentir a boca queimando e disse:

 - Vixe Maria, que pimenta forte!

Romildo sem se abalar continuou a tomar a sopa e ainda colocou umas gotas de pimenta a mais. O colega já suando, a boca ardendo, vendo que o outro colocara mais pimenta só dizia:

 - Danou-se. O homem parece um sabiá.

Falava isso em alusão ao pássaro bastante encontrado no sertão e que tem o hábito de comer as frutinhas maduras das pimenteiras. Eu tenho a impressão que o sujeito tomou a sopa toda para mostrar que era durão, mas quando o mistério foi esclarecido todos deram boas risadas e as astúcias de Reginaldo entraram para a história.

Enquanto isso, nos dias atuais, uma notícia veiculada num telejornal do estado Caeté anunciou o impacto causado na capital pela presença da empresa de construção civil mais sexy do mundo. Vejam como a repórter anunciou a matéria:

 - "Boom da construção civil provoca falta de corretores de imóveis em Maceió".

Pois bem meus amigos, parece que neste carnaval as passistas de bundas e peitos turbinados enfrentaram uma séria concorrência. A todos, espero que tenham tido um bom feriado, que retornem às atividades do dia-a-dia sem ressaca e muitas felicitações às mulheres pelo seu dia.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 08/03/2011)

Em 1950 Luiz Gonzaga foi convidado para animar a festa de inauguração da Usina Paulo Afonso I, após o show, pediram-lhe que compusesse uma música exaltando essa grande obra da engenharia nacional. Atendendo o pedido, Luiz compôs a música "Paulo Afonso" que segue aqui:


terça-feira, 25 de setembro de 2012

O frevo de Taquaritinga



(escrito em 07/03/2010)

Colegas de todos os lugares.

Nos tempos em que labutava no comércio, na cidade de Paulo Afonso, a capital da energia, lá no sertão baiano, conheci um cidadão, que todos conhecem até os dias de hoje, chamado de Zé da Ema.

Homem de baixa estatura, gordinho, cabelos penteados para trás e um bigode vistoso, Seu Zé da Ema era, e ainda é mestre de obras e eu o conheci à medida que ele ia à loja do meu pai para comprar materiais para as suas construções. Devido a um problema numa das pernas, quando caminhava o seu corpo balançava de um lado para o outro num movimento bem característico. Apesar de ter certa idade, sempre se mostrou bastante comunicativo e quando chegava ao balcão da loja brincava com os vendedores, cumprimentava todo mundo, sendo sua presença querida e muito agradável para todos. Apesar do seu espírito comunicativo nunca tive oportunidade, nem a liberdade, de perguntar-lhe a origem do seu singular apelido.

Houve uma época em que um dos filhos de Zé da Ema, chamado Marcos, trabalhou para meu pai. Após a saída de Marcos dos quadros da empresa, sempre que Seu Zé chegava ao balcão os vendedores sempre perguntavam pelo antigo colega. Numa dessas ocasiões um dos "meninos" perguntou:

 - Seu Zé? Cadê Marcos?

 - Tá em Taquaritinga.

Referia-se Zé da Ema à cidade de Taquaritinga do Norte, localizada no agreste meridional de Pernambuco, a cerca de 200 quilômetros de distância da capital Recife.

Logo em seguida outro balconista perguntou:

 - Seu Zé? Cadê Marcos?

 - Tá em Taquaritinga - respondeu mais uma vez.

O que Zé da Ema não esperava é que a partir daí o pessoal resolveu pregar-lhe uma peça e, cada um dos vendedores, um após o outro, dirigia-se a ele e fazia a mesma pergunta:

 - Seu Zé? Cadê Marcos?

E Zé da Ema já faltando paciência respondia para cada um:

 - Tá em Taquaritinga.

A partir desse dia Seu Zé da Ema nunca mais teve sossego, sempre que entrava na loja a turma começava a perguntar, de um por um, pelo paradeiro do seu filho sendo ele obrigado a dar sempre a mesma resposta a cada um deles:

 - Tá em Taquaritinga.

Com toda a sinceridade, acho que ele também gostava da brincadeira, tanto era que ele começou a inventar algumas respostas, antecipando-se às perguntas. Certa ocasião ao entrar na loja quando tentaram lhe fazer a tradicional pergunta, quando começavam a falar:

 - Seu Zé?

Ele sem dar tempo do sujeito terminar a pergunta respondia no ato:

 - Tá em Taquaritinga.

Outra ocasião ele entrou e um dos vendedores o cumprimentou e sapecou:

 - Seu Zé? Cadê Marcos?

Ele olhou para o rapaz e simplesmente fez um gesto mostrando a palma da mão, fazendo sinal que o aguardasse. Em seguida outro colega fez-lhe a mesma pergunta e ele repetiu o gesto. Conforme cada um dos funcionários da loja fazia a esperada pergunta ele simplesmente repetia o gesto, até que finalmente olhando em redor, perguntou:

 - Falta mais algum?

Diante da resposta negativa, dirigindo-se a cada um dos perguntadores, passou a apontar-lhes o dedo e sequencialmente foi repetindo:

 - Taquaritinga, Taquaritinga, Taquaritinga... Taquaritinga.

A brincadeira só acabou quando Marcos retornou da viagem. Acho que o pessoal gostava mesmo era de ouvir o nome da pequena cidade pernambucana.

Eis que, há uns quinze dias, assistindo ao Globo Rural, ouvi novamente falar da velha Taquaritinga. Para aqueles que pensam que notícia agrícola do nordeste brasileiro só é de seca, fome e sede, preparem-se. Localizada a cerca de 900 metros de altitude, a cidade pernambucana está produzindo um café orgânico de excelente qualidade voltado para o mercado internacional, especialmente, Estados Unidos, Japão e Noruega.

A arte de produzir café no sertão nordestino é bastante antiga. Percebendo que a planta do café era muito sensível ao calor e à luz do sol, os sertanejos plantavam os pés de café à sombra de outras árvores e preferencialmente em regiões mais altas onde o clima é sempre mais ameno, era o chamado café de sombra. O meu avô Virgílio tinha uns pezinhos de café no quintal para o seu próprio consumo, logo, não precisava comprar o produto para poder saborear uma xicrinha de café. O que eu não sabia, é que o café cultivado nessas condições é um café da variedade Arábica Típica e estas plantas são remanescentes das primeiras plantas de café que foram introduzidas no Brasil em 1727.

Como já foi dito, trata-se de um café especial, destinado ao mercado exportador. Desta forma, o café de Taquaritinga só pode ser saboreado em poucas cafeterias do Brasil, a exemplo de uma, situada em terras cariocas, cujo dono batiza cada café com o nome de um tipo de música que tenha exatamente cinco letras. Nesta cafeteria os cafés têm nomes de Valsa, Samba, Rumba e Conga. O café de sombra, lá das bandas de Taquaritinga, foi batizado pelo proprietário da cafeteria com o nome de Café Frevo, numa clara homenagem à típica música do carnaval pernambucano, mas, permitam-me uma pequena observação, acredito que o nome mais apropriado seria o de Café Forró, ritmo que representa com mais propriedade a região em que está inserida a pequena Taquaritinga do Norte.

Queridos colegas, aproveito a oportunidade para desejar a todos uma ótima semana de trabalho e em particular ao grande caeté Felipe Campos, o maior bebedor de café das Alagoas, que com certeza agora só vai ter sossego no dia em que puder tem um Frevo nos beiços e não nos pés.

Saúde, luz e paz.

Virgílio Agra.

PS: Falando em ema, lembrei-me do Canto da Ema, música composta por João do Valle, Aires Viana e Alventino Cavalcanti, interpretada e imortalizada na voz do paraibano Jackson do Pandeiro.

sábado, 15 de setembro de 2012

Água de juá


Juá, o fruto

(Escrito em 10/01/2010)

Colegas de todos os goles

Qual a sua cerveja favorita? No mundo globalizado onde existem várias opções deste produto, tanto nacionais como importadas, não deixa de ser pertinente uma pergunta como essa, mas em tempos passados, em vários pontos do interior deste grande país, cerveja era uma bebida tão exótica quanto o amazônico açaí, que atualmente está em moda nas grandes cidades e ainda é desconhecido nas cidades do interior.

Em dezembro fui a Paulo Afonso, passar o natal com meus pais e beber um pouco da água do Velho Chico. Casualmente, encontrei com Petrúcio, um velho amigo que trabalhou muitos anos na Companhia Hidro Elétrica do São Francisco e hoje goza da sua bem merecida aposentadoria.

Petrúcio é natural de Água Branca, cidade situada numa região de serras que compõe a parte oeste do estado de Alagoas, e está a 570 metros acima do nível do mar. Por conta da altitude toda a região serrana tem um clima diferenciado em relação ao sertão que a circunda, de modo que lá existe uma boa produção de frutas e cana-de-açúcar o que proporcionou, em tempos passados, o surgimento de muitos engenhos para a produção de rapadura.

Apesar do micro-clima das regiões de serras proporcionar condições para a produção de espécies cujo cultivo seria simplesmente impossível nas terras mais baixas e secas, não existem grandes diferenças na flora predominante em ambas as regiões. A vegetação do sertão é assim, composta de cactáceas como mandacaru, facheiro, xique-xique e coroa de frade, árvores para produção de madeira e lenha como catingueira, mulungu, caraibeira, baraúna, aroeira e pau d’arco, além de fruteiras nativas como umbuzeiro, quixabeira e juazeiro.

O juazeiro é uma árvore que, independentemente da intensidade da seca, mantém uma copa firme e suas folhas sempre estão verdes. Seus frutos são redondos, pequenos e produzidos fartamente. Normalmente são doces, mas sempre produzem na boca um leve amargor. O sabor amargo devesse ao fato do juazeiro ser rico em saponinas, uma substância de efeito detergente, antifúngica e antiinflamatória, com eficácia comprovada na higiene bucal. Atualmente as indústrias farmacêuticas e de cosméticos utilizam os seus princípios ativos na composição de diversos produtos. O sertanejo que secularmente já conhecia as propriedades terapêuticas da árvore, na falta dos cremes dentais, usava o pó da casca da árvore para escovar os dentes ou fazia infusão para bochechos ou gargarejos contra afecções da boca e garganta.

No encontro que tive com o amigo, após as tradicionais perguntas sobre como vai a família e coisa e tal, relembramos uma história que ele havia me contado há alguns anos atrás e não pudemos deixar de dar algumas risadas.

Contou-me Petrúcio que, quando ainda era rapaz, morava num sítio na zona rural de Água Branca. Certo dia, ele foi a um casamento na redondeza. Um casamento no sertão era festa boa. Mesmo não sendo rica, a família da noiva esmerava-se por receber bem os convidados. Receber bem significava uma mesa farta, com aquilo que o sertanejo tinha de melhor a oferecer: carne a vontade, galinha de capoeira gorda, um carneiro, buchada, feijão de corda, arroz e pirão. Para animar: um sanfoneiro, um salão para dança e uma rodada de cachaça para "esquentar a titela" (esquentar o peito). Após a cerimônia religiosa a festa começou até que, em dado momento, um dos padrinhos convidou a todos para conhecer uma novidade que ele trouxera da cidade para os convidados da festa. Uma vez dita a palavra NOVIDADE, todos se interessaram em acompanhar o homem que se dirigiu a um depósito que fazia parte das instalações da propriedade e encontrava-se fechado até então. Ao abrir a porta do tal depósito o homem caminhou na direção de uma estranha caixa de madeira cheia de garrafas que estava colocada num canto do salão. Tomando uma das garrafas na mão o homem explicou a todos que aquilo era uma bebida chamada CERVEJA e diante da admiração de todos tirou do bolso um abridor de garrafas e abriu a primeira delas. Considerando-se a temperatura em que se encontrava a bebida o resultado não pode ser outro, a cerveja espumou e começou a subir pelo gargalo da garrafa. Imediatamente o homem começou a colocar o líquido espumoso nos copos dos convidados. Aqueles que vertiam os copos imediatamente só bebiam espuma e aqueles que esperavam a espuma se desfazer descobriam que o líquido resumia-se a apenas alguns milímetros no fundo do copo. Decidido a impressionar a matutada em redor e mostrando ser um "profundo" conhecedor de cerveja, o portador daquela novidade começou então a balançar as garrafas antes abri-las. A partir de então, quando retirava as tampinhas, a garrafa dava um pequeno estouro, a espuma então subia com mais pressão e todos davam gritos de alegria e colocavam os copos para mais uma rodada de espuma. Petrúcio, no meio daquele povo todo, provou da bebida e com aquele jeito de quem tenta estabelecer uma comparação com um sabor já conhecido disse:

 - Oxente! Parece com água de juá.

Por incrível que pareça, eu que já tive oportunidade de me escovar com a raspa da casca do juazeiro posso confirmar, seu gosto amargo realmente lembra o sabor da cerveja.

Pois bem caros colegas, enquanto desejo a todos uma ótima semana de trabalho, espero que, entre as atribulações de cada um, possa sobrar um tempinho para tomar uma cervejinha gelada, da marca que melhor apetecer e com um pequeno colarinho para não perder a elegância. Mas atenção, se for dirigir não beba e se for beber me chame.

Saúde, luz e paz.

Virgílio Agra


Juazeiro, a árvore



O juazeiro é uma árvore tão marcante na cultura sertaneja que cidades importantes foram batizadas com o seu nome. Além disso, esta árvore também já foi inspiração para músicas como "Juazeiro" de Luiz Gonzaga.

Fruto dessa sinergia entre árvore, cidades e música surge um verdadeiro clássico da música nordestina, "Juazeiro Petrolina", composta em 1978 por Jorge de Altinho, gravada inicialmente pelo Trio Nordestino, e aqui interpretada por Elba Ramalho, natural de Conceição - PB e Geraldo Azevedo, da própria Petrolina.

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