quarta-feira, 8 de maio de 2013

Durma com um barulho desses


Complexo das Usinas Paulo Afonso III, I e II.
Foto de Mário Roberto Batista.

Colegas de todos os "grilos".

Quem assistiu ao filme "O Último Imperador", talvez se lembre de uma parte da história onde o personagem principal, o imperador da China Pu Yi, ainda criança, recebeu um estojo que continha um grilo. Se na vida real o imperador ganhou um grilo, ou não, eu não sei, pois eu não estava lá, mas a cena faz sentido por conta da significância desse inseto para os chineses que admiravam tanto o seu canto a ponto de criarem os bichinhos em gaiolas, do mesmo jeito que aqui tem gente que cria passarinho. Hoje em dia, quando viajo ao sertão e tenho uma rara oportunidade de passar uma noite na zona rural, acho gostoso dormir ouvindo o canto dos grilos, mas tenho que reconhecer que um bichinho desses dentro de um quarto fechado é uma companhia nada recomendável para uma boa noite de sono. O certo é que a interação que os povos têm com os elementos da natureza variam muito de local para local, mas uma coisa é certa, o canto de um grilo é inconfundível em qualquer lugar do mundo.

Vocês se lembram que eu falei um dia desses sobre um ex-Operador de Instalações da Companhia Hidroelétrica do São Francisco - CHESF, chamado Reginaldo Barros? Pois bem, Reginaldo tem um rol de presepadas que aprontou com os colegas que, sozinhas, davam para publicar um livro.

Como o serviço de geração de energia é contínuo, 24 horas por dia, é natural que algumas funções também precisem funcionar de maneira ininterrupta. Ou seja, do mesmo jeito que os Operadores trabalham se revezando em turnos, mantendo as máquinas e o sistema elétrico funcionando, o setor de segurança patrimonial também tem que trabalhar continuamente para  garantir a integridade física das pessoas e dos equipamentos. Enquanto que durante o dia há uma movimentação constante de técnicos das áreas de manutenção e administração, à noite os únicos postos de trabalho que se mantêm ativos são a Operação e a Segurança.

Não é necessário uma pessoa ter trabalhado em regime de plantão para saber que, quando chega o turno da noite o cansaço chega também, mas as características do trabalho exigem que o indivíduo fique alerta, pois existem rotinas que precisam ser cumpridas ao longo do período, mas, a bem da verdade, existem aqueles que, por motivos os mais diversos, não conseguem resistir.

Quando fui trabalhar na Usina Apolônio Sales, havia um carro de plantão para atender as demandas do serviço de operação e éramos nós os operadores quem o dirigia, mas em tempos anteriores havia um motorista profissional que, por conta do serviço, também tinha que ficar de plantão. Certo dia, Reginaldo percebeu que o motorista durante a noite sempre dava um "cochilo" e, para garantir maior conforto, o rapaz dormia dentro do carro. Percebendo a manobra dele, Reginaldo, inteligente como era, arquitetou um plano para pregar-lhe uma peça. O resultado foi de uma maestria que entrou para os anais da Usina.

Usando de muita habilidade e paciência, Reginaldo conseguiu capturar uma porção de grilos, os colegas falaram que devia ter sido mais de vinte grilos. Discretamente, levou os bichos para a usina dentro de uma caixa e, quando foi de noitinha, soltou os insetos dentro do carro de plantão. O grilo, apesar de ter um canto muito estridente, é por sua natureza um animal muito tímido, então, quando foram soltos, todos eles procuraram imediatamente um lugarzinho para se esconder. Uns foram para debaixo dos tapetes, outros para debaixo dos bancos, alguns por alguma pequena abertura entraram no painel do carro enquanto outros se acomodaram na primeira reentrância que encontraram. Como a viatura ficava com os vidros fechados todos os animais, sem alternativa de fuga, tiveram que encontrar abrigo dentro do carro.

Naquela noite, no pátio da usina, tudo corria dentro da maior normalidade. Vendo que tudo estava calmo, o motorista aproximou-se do veículo, abriu a porta e a luz interna acendeu. O banco do carro parecia que convidava o rapaz a sentar-se e, o convite sendo aceito, tudo caminhava para mais uma noite de sonhos. O banco foi ajustado para dar mais conforto, a porta foi fechada, a luz interna apagou-se e, naquela penumbra, o motorista fechou os olhos. De repente ele ouviu um barulhinho.

 - Triiii, triiii, triiii, triiii, triiii...

 - Ai meu Deus, "parece" que tem "um" grilo aqui dentro.

Quando o rapaz se mexeu dentro do carro e acendeu a luz interna, os grilos com a sua conhecida cautela se calaram e, logicamente, cada um procurou o seu refúgio. Após uma breve busca e, nada encontrando, o homem apagou a luz e voltou a se acomodar. Com a escuridão e o silêncio da noite os grilos voltaram à atividade.

 - Triiii, triiii, triiii, triiii...

 - Vou pegar esse grilo!

A porta foi aberta, a luz interna foi acesa, os grilos voltaram a se esconder e o motorista começou a remexer o interior do carro. Rapidamente encontrou um grilinho que imediatamente foi despejado das suas acomodações. Satisfeito, o sujeito sentou novamente e relaxou. Quando estava quase dormindo...

 - Triiii, triiii, triiii, triiii...

 - Minha Nossa, tem outro grilo.

Reiniciou-se a operação de caça ao inseto até que, após alguns minutos, ocorreu a captura de um novo grilo que foi expulso sumariamente do ambiente.

E assim correu a noite toda. O motorista se acomodava, com o silêncio e a escuridão os grilos cantavam, a luz interna do veículo era acesa, o carro era revirado e um novo grilo era despejado. Nesta noite, com certeza, o rapaz não conseguir sequer pregar o olho, mas na manhã seguinte todo mundo da usina estava rindo por causa de mais uma das astúcias de Reginaldo.

Lembrando que na década de 70, na gíria, "grilo" era uma palavra que significava problemas, gostaria de desejar a todos os meus amigos uma vida sem "grilos", porém me permitam desejar que em cada um de vocês pouse um grilo, pois na tradição chinesa um evento desses significa boa sorte.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra.

(Escrito em 29/03/2011)

PS: Para aqueles que não assistiram “O último imperador”, de Bernardo Bertolucci, segue aqui um pequeno flash dessa magnífica obra do cinema. Para aqueles que tiveram o prazer de assisti-lo, segue uma palhinha só para recordar.


domingo, 28 de abril de 2013

Sucesso


Luís Pedro e Neném

Colegas de todos os tipos de sucessos

Quando eu era menino, pensava que sucesso era algo que a gente conseguia quando fumava uma marca de cigarros, pois nas mercearias da minha cidade natal tinha uns cartazes onde se lia:

 "Vá com "roliúdi" ao sucesso"

Para minha sorte, e azar do meu avô, descobri rapidamente que sucesso era sinônimo de câncer de pulmão e decidi que esse tipo de sucesso não servia para mim.

Em tempos mais distantes, antes de inventarem a palavra globalização, lá no sertão nordestino, sucesso tinha um significado bem diferente. Era o termo usado para denominar tiro acidental e foi com um tiro acidental que aconteceu uma história que foi, mais ou menos, assim:

No final do ano de 1926, ou início de 1927, na fazenda do Coronel Ângelo da Gia, uns cangaceiros jogavam baralho quando um deles, chamado Luiz Pedro, manobrou seu rifle que, acidentalmente, disparou e matou Antônio Ferreira, o irmão mais velho de Lampião. Diante do acontecido uns foram avisar o Capitão, que estava num local distante, enquanto outros colegas aconselharam:

 - Luiz Pedro, corra que Lampião vai "lhe" matar.

Consciente de que o tiro não fora intencional, Luiz Pedro decidiu, corajosamente enfrentar o julgamento de Lampião.

Quando o chefe dos cangaceiros chegou, confirmou a morte do irmão e ouviu aqueles que aconselhavam matar sumariamente Luiz Pedro, enquanto outros o defendiam alegando que fora um sucesso. O Capitão então, voltando-se para Luiz teria dito:

 - Se você tivesse fugido eu ia "lhe" matar mas, como você ficou e eu já conheço você de muito tempo, vou deixar você viver.

Agradecido pelo voto de confiança do líder Luiz Pedro falou:

 - Seu Capitão... O senhor poupou minha vida. Eu juro acompanhá-lo até o fim. No dia em que o senhor morrer, eu morro também.

Os anos se passaram, até que, no amanhecer do dia 28 de julho de 1938, na fazenda Angico, no estado de Sergipe, uma volante alagoana emboscou o bando de Lampião.  Foi tiro para todo lado. Enquanto tentavam fugir entre as pedras e a caatinga fechada os cangaceiros respondiam ao fogo, mas nessa altura dos acontecimentos Lampião já estava morto e Maria Bonita, com uma bala na perna, não conseguia escapar. Luiz Pedro foi um daqueles que conseguiu romper o cerco quando ouviu o grito de Dona Maria.

- Compadre Luiz Pedro. Lembra da sua promessa a Lampião?

Quando ouviu o grito Luiz parou. Dá para imaginar quanta coisa passou na mente do cangaceiro? Ele tinha um compromisso e romper com a palavra dada era uma atitude inaceitável no código de honra do cangaço. A vida de bandido era dura, a morte podia chegar a qualquer momento, mas para aquele homem era melhor enfrentar a morte do que levar uma vida de vergonha. Numa tentativa de iniciar um contra-ataque, chamou alguns companheiros, lembrou que Lampião trazia no seu corpo uma espécie de bolsa com muito dinheiro, era o "papo de ema", mas ninguém aceitou voltar. Um deles até disse:

 - Luiz Pedro a coisa lá tá feia, se entrar é morte certa.

Nesse momento, ele disse aquelas que seriam suas últimas palavras:

 - Um pernambucano morre, mas não quebra um trato.

Tudo isso ocorreu de maneira muito rápida e foi rapidamente que ele teve que tomar a sua decisão. Decidiu voltar. Voltou e morreu vítima do último tiro disparado naquele combate.

Hoje, no tempo da internet e da globalização, do outro lado do mundo, na terra do sol nascente, diante de um grave acidente nuclear, 180 homens aceitaram trabalhar voluntariamente para tentar conter um grande vazamento de radiação. Nós sabemos, e eles também devem saber, que o futuro lhes é extremamente incerto, é por isso que aproveito a oportunidade para desejar a todos eles o mais completo sucesso.

A história esta repleta de eventos em que uma única pessoa, ou um pequeno número delas, aceita sacrificar a própria vida em prol de uma causa. Os valores em jogo podem até sofrer variações, mas em todos esses eventos o que me admira é a capacidade que essas pessoas têm de abrir mão do bem mais precioso que se tem, a própria vida, para salvar a vida de outros ou até mesmo sua própria honra. Não importa se a história contada seja de 300 soldados de Esparta, um cangaceiro do sertão nordestino ou 180 samurais dos tempos modernos, as atitudes de coragem de todos eles merecem o meu mais profundo respeito.

Aos meus amigos desejo uma ótima semana e que a vida reserve a todos o melhor significado da palavra sucesso.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

OBS: Luiz Pedro é um personagem bem conhecido da história do cangaço. Para redigir esta crônica usei informações obtidas em algumas obras do maior historiador do cangaço, o Dr. Antônio Amaury Corrêa de Araújo.

(Escrito em 21/03/2011)


Em setembro de 2012, num passeio à cidade de São Paulo, tive a oportunidade de fazer uma visita ao Dr. Antônio Amaury Corrêa de Araujo. Fica aqui o registro da ocasião e uma homenagem a este grande homem e pesquisador.




sábado, 20 de abril de 2013

O Urso Preto veio da barca de Noé



Na praça ao fundo era armado o palanque para a banda.
Na foto vêem-se os toneis pintados de branco, usados no balizamento da área da festa.
Ano 1969

Colegas de todos os carnavais.

Lembro-me que lá em Santana do Ipanema, quando eu era menino, na época carnavalesca a prefeitura montava um palco na praça, de frente para um largo e, com mais ou menos uma semana antes, uma banda tocava frevos todas as noites. Com alguns tonéis e cordas isolava-se uma área que à noite era tomada pela população que dançava ao ar livre procurando extravasar a alegria tão presente na alma do brasileiro. Não sei por que e até hoje não consegui entender, o evento era denominado de "Maratona".

Era um programa interessante, as famílias se dirigiam ao local e todos pulavam e dançavam sem distinções de classes. Meus pais me levavam para as Maratonas onde eu me misturava com a multidão, sempre junto de outros meninos da minha idade. Eu me divertia bastante e lembro que, para mim, o ponto alto da noite era quando aparecia o Bloco do Urso Preto. O bloco tinha como personagens principais um homem fantasiado de urso com uma corda amarrada na cintura, sendo conduzido por outro homem que era uma espécie de domador. O urso arremetia em direção à multidão como se fosse atacar e o domador então puxava a corda como se estivesse controlando "a fera". A meninada corria, alguns por medo e outros somente para fazer parte da folia. Eu achava o máximo "entrar na onda do Urso Preto", mas eu jamais imaginava que aquele bloco era uma das mais antigas tradições dos carnavais da minha cidade natal.

Contou-me Tia Ana que o Bloco do Urso Preto foi criado por Seu "Carôla", numa época em que eu não era nem nascido. Eu não conheci o fundador do bloco cujo nome de batismo era Coriolano, mas, provavelmente por conta de vício de linguagem, os matutos chamavam-no de "Cariolano" o que deve ter gerado o diminutivo "Carôla". Contam que ele tinha uma farmácia e, por conta disso, era denominado "farmacêutico". Naquela época, devido à carência e a falta de médicos na região, um "farmacêutico" era praticamente um "dotô". Da cidade ou do campo, bastava o cidadão chegar ao balcão da farmácia, contar o que sentia, o dono da farmácia passava o remédio e o cabra já se sentia melhor.

Nos dias de hoje, onde atrás do trio elétrico só não beija e é beijado quem já morreu e sambista boa é a que tem samba no pé e silicone nos peitos, o carnaval é o produto Made in Brazil mais conhecido no mundo todo, mas o que os foliões de hoje não sabem é que, nos meados do século passado, Santana do Ipanema já desenvolvera a tecnologia de exportação do carnaval.

O Bloco do Urso Preto, com Seu Carôla no comando e um amigo fantasiado, fazia tanto sucesso que, um belo dia, chegou um convite para uma apresentação na cidade de Mata Grande, lá nas serras do sertão alagoano. Convite recebido... Convite aceito. No dia da viagem embarcou num caminhão a agremiação completa: o urso, o domador, a bandinha e o resto do grupo que fazia a parte vocal, cantando a música do bloco. Chegando a Mata Grande a festa logo começou e, pelas ruas da cidade serrana, começaram a cantar a música que era sua marca registrada:

Mas como foi, mas como é
O urso preto veio da barca de Noé.
Mas como foi, mas como é
O urso preto veio da barca de Noé.

Todo mundo já dizia
Que esse urso não saía,
Esse urso anda na barca
Com prazer e alegria.

No carnaval Made in Sertão as famílias mais abastadas abriam suas portas para receberem os blocos de ruas que entravam nas casas e levavam a alegria para dentro dos lares. Era comum cantarem músicas exaltando os anfitriões e era regra o respeito pelo ambiente que os acolhia. E foi assim, subindo e descendo ladeira, entrando nas casas de pessoas amigas que o Urso Preto era acolhido na cidade e retribuía a todos com prazer e alegria. Por onde passava o bloco era recebido com comidas e bebidas, de modo que, enquanto cantavam e dançavam, os seus integrantes iam enchendo a pança com tudo aquilo que lhes era servido. A coisa andava muito bem até que, finalmente, o álcool começou a subir para as cabeças enquanto que as comidas seguiram o seu caminho em direção às profundezas intestinais. Foi nesse período em que o urso que, logicamente, também comia e bebia, aproximou-se de Seu Carôla e bem baixinho falou:

 - Seu Carôla eu quero cagar.

 - Sai pra lá urso - gritou o domador, empolgado com a festa e animado pelo efeito do álcool.

O bloco seguiu cantando em direção a outra casa numa folia que ficava cada vez mais animada. O urso fazendo sua encenação corria em direção aos grupos de pessoas, sendo imediatamente contido por um puxão na corda dado pelo zeloso domador, para alívio das crianças e mocinhas que corriam assustadas com tão horrenda criatura. Chegaram à casa seguinte e o urso mais uma vez aproximando-se do domador repetiu o apelo:

 - Seu Carôla eu quero cagar.

 - Sai pra lá urso - gritou mais uma vez o domador.

A alegria era total. A turma toda cantava, dançava e mais uma vez o urso se aproximou, repetiu o apelo e mais uma vez o domador repeliu a fera até que, em dado momento, começou a subir um cheiro podre na sala do anfitrião e a música foi parando, as pessoas foram se calando, uns começaram a engulhar e Seu Carôla perguntou:

 - Quem é o responsável por isso?

Foi nesse momento que a voz do urso foi ouvida:

 - Foi eu Seu Carôla.

 - Mas rapaz! Como é que você faz um negócio desses na casa do homem?

 - Eu falei Seu Carôla, mas o senhor não ouviu?

Aí, não teve mais jeito, a festa acabou e coube aos integrantes do bloco levar o seu personagem mais ilustre até um riacho próximo para se lavar, em seguida embarcar na carroceria do caminhão e fazer o caminho de volta para casa.

Caros amigos, numa semana em que um terremoto no Japão fez a imprensa esquecer uma guerra na Líbia eu não posso esquecer Leo Bulhões, menino talentoso que esta semana faz aniversário. A todos uma ótima semana com prazer e alegria.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

domingo, 14 de abril de 2013

Pimenta na sopa dos outros é história


A Usina Apolônio Sales
é uma das componentes do complexo hidrelétrico de Paulo Afonso.

Colegas de todos os paladares

Numa dessas voltas que esse mundo dá, tive a oportunidade de trabalhar durante alguns poucos anos da minha vida na Companhia Hidro Elétrica do São Francisco - CHESF, empresa estatal responsável pela geração de energia para todos os estados do Nordeste, exceto o Maranhão. O meu ingresso se deu, como manda a legislação, através de concurso público e desse modo passei a compor o quadro dos Operadores de Instalação da companhia. Trata-se por Instalação, uma usina ou uma subestação e o trabalho de um Operador consiste em acompanhar o funcionamento dessas unidades e intervir sempre que necessário.

Nos tempos em que compus os quadros da CHESF trabalhei na Usina Apolônio Sales - UAS, usina localizada à margem esquerda do Rio São Francisco, no estado de Alagoas. A UAS contava, já naquela época, com um bom sistema de automação, no entanto fazia parte da rotina de trabalho dos operadores, a realização de inspeções constantes das suas instalações. Nestas ocasiões eu me sentia como se estivesse numa terra de gigantes, pois tudo era enorme. Havia pontos que, não importava quantas vezes eu inspecionasse, sempre me provocava admiração. Um desses locais era o chamado Poço da Turbina, lá o Operador ficava num local onde abaixo dele a força do rio girava a turbina e acima da sua cabeça girava um imenso gerador. Ligando uma peça a outra, um eixo vertical de diâmetro tão grande que um homem não conseguiria abraçá-lo. Os parafusos que uniam essas peças gigantescas tinham porcas tão grandes que um adulto não conseguiria segurar duas delas em uma única mão. O barulho era enorme e circulava um ar tão quente que mais parecia uma sauna.

O sistema de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica é algo simplesmente grandioso e, até hoje, considero que a oportunidade de ter feito parte deste todo, foi a satisfação de um antigo fascínio que alimentei desde os tempos de criança. Muitas vezes eu ficava admirado pelo fato de que o trabalho que eu executava lá no sertão da Bahia influenciava pessoas que estavam a milhares de quilômetros de distância. Naquele serviço, máquinas e pessoas tinham que trabalhar em perfeita sincronia e ninguém podia fazer nada sem que fizesse parte de uma manobra previamente estudada.

As recordações que guardo não são compostas, naturalmente, apenas pelas máquinas e grandes estruturas de concreto. O convívio com os colegas, tanto técnicos como engenheiros, me marcaram de tal maneira que precisaria escrever muitas Saudações para que eu pudesse registrar as boas lembranças que guardo até os dias de hoje. 

O quadro de pessoal lotado numa usina é basicamente dividido entre operadores e mantenedores. O pessoal de manutenção trabalha normalmente de segunda à sexta-feira no horário comercial, enquanto os operadores trabalham em regime de turno corrido de seis horas, revezando-se continuamente todos os dias do ano, ininterruptamente. Mas nem sempre foi assim, houve época em que os operadores trabalhavam num turno de 24 horas, até que, gradativamente, este sistema foi sendo alterado até chegar à configuração atual.

No tempo em que os turnos eram longos, de 24 ou 12 horas, a companhia fornecia as refeições para toda a equipe. Nos horários das refeições os Operadores se revezavam e, em duplas, iam se alimentar enquanto os outros tomavam conta do serviço. Nesta época trabalhou como operador um rapaz chamado Reginaldo Barros. Eu tive oportunidade de conhecê-lo socialmente, mas quando comecei a trabalhar na CHESF ele já estava aposentado. Reginaldo foi um bom operador e deixou boas lembranças, mas a sua característica mais marcante era o seu bom humor. O cara era um gozador nato, não perdia uma única oportunidade de pregar uma peça em alguém. Os colegas contavam que naquela época, à noite, era servida uma sopa. Certo dia, Reginaldo foi jantar e, sem que o parceiro percebesse, jogou pimenta em um prato. Em seguida, perguntou se poderia servir ao colega que, ingenuamente, aceitou. Com calma e "zelo" colocou a sopa no prato e ao terminar perguntou:

 - Você quer pimenta?

O coitado sem perceber nada respondeu que sim e Reginaldo colocou umas gotas do condimento, mexeu a sopa e passou o prato. Em seguida colocou sopa para ele próprio e também colocou algumas gotas da mesma pimenta. Quando começaram a comer o colega começou a sentir a boca queimando e disse:

 - Vixe Maria, que pimenta forte!

Romildo sem se abalar continuou a tomar a sopa e ainda colocou umas gotas de pimenta a mais. O colega já suando, a boca ardendo, vendo que o outro colocara mais pimenta só dizia:

 - Danou-se. O homem parece um sabiá.

Falava isso em alusão ao pássaro bastante encontrado no sertão e que tem o hábito de comer as frutinhas maduras das pimenteiras. Eu tenho a impressão que o sujeito tomou a sopa toda para mostrar que era durão, mas quando o mistério foi esclarecido todos deram boas risadas e as astúcias de Reginaldo entraram para a história.

Enquanto isso, nos dias atuais, uma notícia veiculada num telejornal do estado Caeté anunciou o impacto causado na capital pela presença da empresa de construção civil mais sexy do mundo. Vejam como a repórter anunciou a matéria:

 - "Boom da construção civil provoca falta de corretores de imóveis em Maceió".

Pois bem meus amigos, parece que neste carnaval as passistas de bundas e peitos turbinados enfrentaram uma séria concorrência. A todos, espero que tenham tido um bom feriado, que retornem às atividades do dia-a-dia sem ressaca e muitas felicitações às mulheres pelo seu dia.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 08/03/2011)

Em 1950 Luiz Gonzaga foi convidado para animar a festa de inauguração da Usina Paulo Afonso I, após o show, pediram-lhe que compusesse uma música exaltando essa grande obra da engenharia nacional. Atendendo o pedido, Luiz compôs a música "Paulo Afonso" que segue aqui:


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Pontes, molas, corações e emoções



Colegas de todos os estados e de todos os estados de saúde.

Sabem aqueles dias em que parece que a bruxa está solta? Pois foi o que aconteceu lá em casa nas últimas semanas. Desde a última edição das Saudações Caetés, enquanto minha esposa fazia um cateterismo e em seguida uma angioplastia com a colocação de dois stents no coração, eu tive a experiência de conviver com uma pneumonia que me deixou quebrado que nem arroz de terceira. De imediato, quero deixar claro que estamos bem e eu já retornei ao meu trabalho normalmente.

Nos dias em que Eliane estava internada veio à minha memória um personagem que conheci há uns anos atrás em situação semelhante. Meu cunhado, seguindo uma tradição familiar, foi submetido a uma cirurgia de ponte de safena e nós o acompanhamos tentando prestar alguma assistência. Durante sua convalescença dividiu o quarto com um senhor, também com problemas cardíacos. Naquelas circunstâncias fomos puxando conversa uns com os outros e eu soube que o cidadão morava na cidade de Delmiro Gouveia, lá no sertão alagoano. Quando perguntei seu nome tive uma surpresa, pois eu já tinha ouvido falar dele por intermédio dos meus pais e Eliane já tinha trabalhado com um filho dele. Disse-lhe de quem eu era filho e ele imediatamente lembrou-se de meu pai, perguntou por ele e, a partir daí, a conversa passou a rolar solta.

Encontros como este são muito raros nas grandes cidades e, para algumas pessoas, isso é coisa de "província", empregando este termo para desqualificar os lugares onde isso acontece como se fosse um palavrão. No entanto, eu gosto muito desses encontros casuais. Naquela circunstância achei muito bom saber que tínhamos que compartilhar o espaço com pessoas que já eram conhecidas.

Seu Cantuária estava internado porque estava com a pressão arterial muito alta, se não me falha a memória sua pressão era 23 por 16. Eram valores tão altos que assombrava a todos nós, menos a ele próprio que não dava a mínima para o que estava acontecendo. Conversa vai, conversa vem, ele olhou para meu cunhado, disse que já tinha feito cirurgia semelhante e de forma muito despreocupada começou a contar como tinha sido a sua recuperação:

 - Eu já fiz essa mesma cirurgia que ele fez. Num se preocupe não que é besteira. Quando eu recebi alta do hospital o médico disse que eu não poderia dirigir e um filho meu foi me levar de carro até Delmiro, mas quando a gente chegou em Arapiraca eu peguei uma briga com ele, tomei a direção do carro e fui dirigindo eu mesmo. Com uma semana, mais ou menos, após minha chegada encontrei um primo meu, o "Urêia".

"Urêia" era serralheiro na cidade de Delmiro Gouveia e, nos tempos em que eu morava nas terras paulafonsinas o conheci como cliente da loja de meu pai, onde ele ia comprar materiais para a sua serralharia. Quando eu falei que conhecia o seu primo, Seu Cantuária se animou mais ainda com a conversa e então continuou:

 - Eu ia passando de moto quando "Urêia" me chamou.

 - Eita Cantuária! Domingo eu vou fazer uma buchada lá em casa e queria lhe convidar, mas você tá desse jeito... num vai poder ir.

 - O que? Num vou poder? Fique sabendo que eu vou sim e tem mais, vou comer da buchada sim sinhô. Eu sou homem pra perder uma buchada?

Apesar da preocupação com meu cunhado que estava com o peito todo costurado de um lado, eu não consegui deixar de rir com o relato desdenhoso de Seu Cantuária. Continuando sua história ele disse:

 - Com uns quinze dias que eu voltei a Delmiro eu tava era trabalhando que num sou homem de ficar parado.

 - O que o senhor faz? Perguntei.

 - Eu conserto caminhão.

Lá para as tantas eu perguntei por que ele estava internado novamente. Na minha pobre inocência, pensei que poderia levá-lo a refletir sobre a forma como conduzia sua própria vida.

 - Tô aqui por que meus filhos me trouxeram. Minha pressão tava alta, aí eu fui no médico e ele examinou. Perguntou um bocado de coisa, aí eu disse pra ele que deve ter sido porque eu tomei rum... Eu gosto mesmo é de tomar cachaça, mas, um dia desses, eu tomei rum e acho que foi isso me fez mal. Aí o médico perguntou se eu tinha tomado uma dose, aí eu disse pra ele que nada, eu tomei a garrafa quase toda, só sobrou tantinho assim.

Concluiu a narrativa gesticulando com a mão e, mostrando o polegar e o indicador, sugeriu o volume de bebida que ficara no fundo da garrafa.

De lá para cá meu cunhado recebeu alta e voltou às suas atividades normais. Quanto a Seu Cantuária, nunca mais tive notícias dele, mas de uma coisa eu tenho certeza, onde quer que ele esteja seu espontâneo será sempre sua marca registrada.

Caros colegas, por entender que pontes e molas são coisas boas somente na área da engenharia, desejo que todos reservem seus corações apenas para as boas emoções. Uma boa semana para todos.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra.


(Escrito em 23/02/2011)

domingo, 17 de março de 2013

Nem só poluição e notícia ruim são capazes de cruzar fronteiras


Playing For Change

Colegas de todos os sentimentos

Esta última semana foi, acredito que para todos nós, um tanto quanto pesada. Parecia uma semana qualquer, daquelas onde temos que cumprir os compromissos habituais como trabalhar, comprar mantimentos no supermercado e ficar aguardando o final de semana para um merecido repouso. Mas, infelizmente, o desenrolar da história não foi exatamente assim. Ao longo da semana as montanhas desmoronaram e as notícias que chegaram das terras fluminenses não foram nada agradáveis.

Lembro-me que, há um ano, o país assistia estarrecido o resultado funesto das chuvas que caíram no estado do Rio de Janeiro provocando, entre outros eventos, desmoronamentos em Angra dos Reis e Morro do Bumba em Niterói, resultando em centenas de mortos em todo o estado. Há seis, meses foi a vez dos estados de Alagoas e Pernambuco ocuparem a atenção da imprensa nacional, quando as enchentes provocadas por alguns rios dos dois estados arrasaram várias cidades. Por sorte o número de mortos não foi tão grande, pois a tragédia ocorreu durante o dia, o que permitiu aos moradores das regiões ribeirinhas fugirem diante do perigo.

Em outras épocas a televisão mostrou tsunamis na Indonésia, mineiros soterrados no Chile, ondas de calor na Europa e mais recentemente inundações na Austrália, lá do outro lado do mundo. Porque será que esses eventos mexem tanto comigo? Talvez seja porque estou ficando velho (e besta naturalmente), talvez porque tenho parentes e amigos em terras d'além mar. Não sei o motivo, mas eu sei que todas as pessoas atingidas pelas forças da natureza têm uma história, têm amigos, têm sentimentos, sonhos para o futuro, alguém esperando em algum lugar. É triste pensar em eventos que, de uma vez só, tiram a vida de muitas pessoas e até de famílias inteiras.

Normalmente, me dirijo a vocês através das Saudações Caetés com histórias pitorescas e às vezes até engraçadas, tentando influenciar positivamente o humor de cada um, pois é isso que me cabe na condição de colega, de companheiro. Mas, desde os últimos dias da última semana, não consigo parar de pensar nos amigos que deixei nas terras fluminenses, pois alguns moram em cidades que foram atingidas pelos desmoronamentos ou têm parentes que lá residem. Lembro-me que, quando as enchentes ocorreram nas terras caetés, recebi vários e-mails e telefonemas de amigos preocupados comigo e meus familiares. É bom saber que tenho pessoas que se preocupam comigo e agradeço a Deus por ter também com quem me preocupar. Mas confesso que a frequência com que esses eventos estão acontecendo me deixam triste, porque a distância ou o tempo que nos separam eu sei administrar, mas o medo de perdê-los não, e, exatamente por causa do carinho que tenho a todos vocês, eu gostaria de puxar a conversa para uma nuance menos funesta do assunto do momento da grande imprensa nacional, afinal de contas, além de poluição e notícia ruim, existe um monte de outras coisas que, felizmente, cruza fronteiras.

Um dia fui presenteado pelo meu compadre Evaldo com um link para um clipe do "iutube", onde tocava uma música composta pelo americano Ben E King. Uma equipe de técnicos de vídeo e áudio gravou diversos artistas de rua de várias línguas, raças e culturas, em dez países diferentes, cantando essa música composta no inicio dos anos 60. Em seguida todas as gravações foram reunidas num único arranjo que encanta não apenas pela beleza da melodia, mas também pelo fato de mostrar que a arte, a beleza e a emoção são capazes de sobrepujar não apenas a barreira do tempo, mas também a da distância, da política, do preconceito e da discriminação. Ademais, a música aborda um tema bastante pertinente às circunstâncias do momento, a força que obtemos uns dos outros. Eu, como profundo apreciador da cultura popular, fiquei encantado, por isso encaminho para vocês logo abaixo, o maravilhoso clipe do Grupo Playing for Change com a bela tradução de Brunno Belesa.

Aproveitando a oportunidade para registrar um forte abraço à minha esposa Eliane e minha irmã Mônica, desejo uma semana com boas notícias para todos.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 16/01/2011)


segunda-feira, 4 de março de 2013

Picolé, frio, gelado e doce



Santana do Ipanema - 1966


Colegas de todas as sobremesas

O que significa para cada um de vocês a palavra Maringá? Se eu perguntasse para alguém com idade de ser meu pai, muito provavelmente, ouviria citações à música do médico mineiro, natural de Uberaba, Joubert de Carvalho, composta em 1932. Se eu perguntasse a Carlos Weigert, engenheiro paranaense hoje morando em terras caetés, ou a Rommel Vanderley, engenheiro caeté hoje morando em terras paranaenses, com certeza ouviria que Maringá é uma cidade do noroeste do Paraná. Quantas alternativas são possíveis para esta pergunta eu não sei, mas podem ficar certos todos vocês, Maringá, para mim, é o nome de uma sorveteria que havia em Santana do Ipanema nos tempos que eu era menino.

Diante das sorveterias que temos atualmente, acredito que eu teria certa dificuldade em explicar para alguém, com menos de 30 anos de idade, como funcionava um desses estabelecimentos nos idos da década de 60 e 70. Se o exemplo tomado vier lá das bandas do sertão, aí então a dificuldade passa a ser dobrada. Hoje em dia a gente chega numa sorveteria "selfi sérvice", escolhe se vai usar copinho ou casquinha, empunha aquela colher especial, abre os freezers e tem tanta opção de sabor de sorvete para escolher que às vezes dá até agonia. Atualmente, uma boa sorveteria da capital alagoana ostenta com orgulho um cardápio com mais de 70 sabores, um verdadeiro tormento para os indecisos. Depois de montado o sorvete, o indivíduo passa por uma bateria de opções de coberturas que vai desde farelo de biscoito até chocolate quente. Para completar o trajeto, uma parada obrigatória na estação balança que quantifica na hora o dano feito tanto no orçamento quanto na dieta.

No tempo em que eu usava calças curtas e tinha a cabeça raspada sobrando apenas um tufo de cabelo na testa o negócio era bem diferente. No centro de Santana do Ipanema, bem de frente à praça, havia um prédio com um salão grande. No alto da sua fachada, pintado na parede estava escrito: SORVETERIA MARINGÁ. Porém, o produto mais vendido da casa era mesmo o picolé. Quando eu pegava um trocado entrava na Maringá, me dirigia a um balcão mais alto do que eu e fazia a tradicional pergunta:

 - Tem picolé de que?

O atendente dizia de cor todas as opções daquele dia, ficando bem claro que este número dificilmente ultrapassava a cifra de meia dúzia de sabores. Considerando-se que coco, morango e chocolate nunca saiam do cardápio verbal as demais opções não se constituíam em qualquer empecilho ao processo decisório. O picolé era um produto muito barato e custava apenas alguns centavos. Já o sorvete, além de ser um pouco mais caro, o seu consumo, para mim, era um pouco mais complicado, pois papai nos proibia de comer a casquinha, alegando que aquilo era sujo. Sujo para se comer, mas não era sujo para conter o sorvete que se comia. Dá para entender? Conhecendo a qualidade das casquinhas de hoje faz vergonha admitir que eu comia as similares daquela época, pois além de não terem gosto de nada a consistência era bem parecida com papel, mas não importava, quando o dinheiro dava e eu podia comer escondido...

Apesar da Sorveteria Maringá ser muito bem localizada, acredito que a maior parte das vendas se dava através de meninos que vendiam os picolés, subindo e descendo as ladeiras de Santana gritando todos, prestem bem atenção, todos gritando a mesma coisa:

 - "ÓÓÓÓi o picolé fri, gelado e doce e gostoso e saboroso que dá gosto na ponta da língua. Olha aêêêê. Picoléééé da Maringáááá olha aêêêê."

Gente, os anos se passavam e os vendedores mirins não mudavam o grito do picolé em uma vírgula sequer. A única inovação que tive oportunidade de presenciar no mercado foi quando surgiu uma nova sorveteria.

Jonas Guedes já era comerciante na cidade, era um cara brincalhão e gostava de tirar onda com todo mundo. Certo dia, não sei porque, resolveu abrir uma outra sorveteria também no centro da cidade. Comprou maquinário, conseguiu um ponto e no dia em que foi abrir o letreiro com o nome do estabelecimento eu estava passando pela rua e fiquei parado admirando o trabalho do letrista. O sujeito começou a riscar as letras e surgiu a palavra SORVETERIA. Em seguida o "artista" sacou do pincel e preencheu as letras, deu todo o acabamento e tornou bem visível a primeira palavra que identificava o produto oferecido pela casa. Ou seja, picolé. Em seguida começou a abrir as outras letras e no início surgiu a letra "A", em seguida a letra "L", continuando o trabalho surgiu os contornos da letra "P". Aí então o "artista" parou, quando percebeu que a parede estava no fim e que, se ele continuasse o trabalho, iria pintar a parede do vizinho. Ou o sujeito errou os cálculos ou não sabia calcular, o certo é que a maior parte do serviço já estava pronto e não tinha como remendar. A cagada foi tão grande que, qualquer que fosse a solução, seria necessário refazer todo o trabalho com sérios prejuízos tanto para Jota Guedes como para o pintor. Apesar de ter tido a honra de ser testemunha ocular desse "fato histórico" eu, apenas uma criança, não tive acesso aos termos do acordo entre Jonas e o pintor. Só sei que o coitado subiu novamente na escada e com muito jeito conseguiu abrir uma letra "I" bem no canto da parede sem invadir o espaço aéreo do vizinho. O nome que deveria estar escrito era "SORVETERIA ALPES", mas, desse dia em diante, quando passava um menino vendendo picolé com uma caixa de isopor pendurada no ombro, gritando, às vezes o script era assim:

 - "ÓÓÓÓi o picolé fri, gelado e doce e gostoso e saboroso que dá gosto na ponta da língua. Olha aêêêê. Picoléééé da Alpíííí olha aêêêê."

E assim colegas, desejo a todos um a boa semana e espero que no próximo final de semana aproveitem para tomar um bom sorvete, com calda, cobertura e uma boa companhia.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(escrito em 10/01/2011)

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...