quinta-feira, 3 de julho de 2014

Para aqueles que gostam de fruta


Foto com Sandra e Seu Zelito
Colegas de todos os natais

Levante as mãos aquele que, nos tempos de criança, nunca comeu frutas roubadas do quintal do vizinho. Para aqueles que levantaram as mãos eu lamento dizer que vocês não tiveram infância. Apesar de ser um ato que hoje, na condição de adultos, consideraríamos como reprovável, acredito que praticamente todos os garotos que viveram no interior, bem como aqueles que viveram nos bairros mais afastados do centro das grandes cidades, passaram por este importante rito de passagem da infância. Falando sobre essas coisas do tempo de menino, não consigo deixar de me lembrar do meu primo Albertinho, lá da Ribeira do Panema.

Como todos os outros meninos da minha idade, eu também aprontava de vez em quando, mas sempre fui muito cauteloso porque a disciplina imposta pelo meu pai era bastante dura. Mas Albertinho era um caso a parte, parece que a adrenalina dele era mais ativa que a de todos os outros. Certo dia, durante uma conversa, ele contou uma travessura que aprontou para Seu Zelito.

Seu Zelito, cujo nome de batismo é José da Silva, era um sujeito franzino, técnico agrícola, funcionário do Banco do Brasil e casado com Dona Cantionila que todo mundo só conhecia como Nita. Lembro-me dele por dois motivos, primeiro por ser o pai de Sandra uma colega do Curso Primário e segundo pela atenção que ele dedicava às crianças. Lembro-me não apenas da forma como ele me tratava, como também que este tratamento era o mesmo que ele dispensava a todas as outras crianças. Às vezes íamos fazer trabalho escolar na casa de Sandra e o casal sempre demonstrava alegria pela presença da meninada. Eles moravam na Rua Nossa Senhora de Lourdes, que, descendo a rua em que eu morava, era só dobrar na primeira esquina à esquerda. A casa tinha um bom quintal, mas, além disso, ele também era proprietário do terreno que lhe fazia limites pelos fundos, de modo que ele também tinha acesso à Rua Marileide Bulhões, que era paralela à Nossa Senhora de Lourdes. No terreno dos fundos ele mantinha um pequeno pomar e horta, ao qual ele tinha acesso por um portão que havia no muro que separava os dois terrenos.

Albertinho morava exatamente na Rua Marileide Bulhões, e sua casa ficava de frente ao terreno de Seu Zelito. Meu primo desde menino sempre gostou muito de atividades agrárias e, graças a afinidade do seu vizinho com as crianças, costumava ajudá-lo no trato do seu pomar. Era um relacionamento literalmente frutífero para ambas as partes, pois ao mesmo tempo em que ele ajudava o hortelão, este dispensava a ele toda a atenção garantindo que, naquele momento, Albertinho não estaria aprontando nenhuma presepada. Tudo corria bem até que, um belo dia, uns garotos da rua resolveram planejar um assalto noturno às mangueiras de Seu Zelito. Imaginem só quem estava dando consultoria ao projeto da molecada?

Por conta do acesso ao pomar, Albertinho podia comer todas as frutas que quisesse sem o menor constrangimento, mas aquela "operação noturna" fazia o coração pulsar mais forte e as frutas passavam a ter um gosto especial. Na noite combinada ele e mais um grupo de garotos passou por debaixo da cerca do terreno e começaram a subir nas fruteiras. O problema é que o dono do pomar ainda estava acordado e ouviu os inevitáveis barulhos vindos do quintal. Naquele tempo as pessoas viviam sem medo e ele resolveu ir averiguar o que estava se passando. Orientados pelo "consultor", os meninos sabiam que o portão do muro fazia muito barulho ao ser aberto, o que garantiria um bom sinal de alarme para uma necessária fuga. O problema é que Seu Zelito tinha um trunfo que eles não esperavam, havia instalado uma lâmpada no quintal. Quando a lâmpada acendeu foi uma debandada geral, cada um correndo para um lado, todos tentando fugir da cena do crime. Após algum tempo, percebendo que tudo estava calmo, cada um foi para casa como se nada tivesse acontecido.

No outro dia pela manhã, logo cedo, tocou a campainha na casa de Albertinho. À porta estava Seu Zelito, trazendo um saco. Era de se esperar que ele quisesse falar com Tio Alberto, mas, pelo contrário, ele queria falar com o filho e não com o pai. Quando Albertinho chegou à porta teve a maior surpresa, pois Seu Zelito entregou para ele o saco cheio de frutas e foi dizendo:

 - Olhe meu filho! Trouxe isso para você poder comer com seus amigos.

Na noite anterior, uma vez percebendo do que se tratava, Seu Zelito aproveitando-se de algumas brechas do portão limitou-se a observar e identificar os autores do furto e, no outro dia, deu ao seu ajudante de ocasião, de forma sábia e bastante eficaz, uma valiosa lição.

Contando para mim esta história, Albertinho falou que passou a maior vergonha da vida e jurou para si mesmo que nunca mais iria fazer aquilo novamente. Confirmando sua antiga vocação, formou-se em medicina veterinária e atualmente, dentre outros afazeres, cuida com zelo de um sítio que possui nas cercanias de Santana do Ipanema. De vez em quando, ele descobre meninos entrando furtivamente para "roubar" frutas e, na medida do possível, conversa com os garotos orientando sobre o caminho correto para se chegar às frutas, mas, sinceramente, sempre que isso acontece, ele se lembra de Seu Zelito, que hoje morando em Maceió, aos 83 anos, desfruta de uma saúde e uma memória de fazer inveja a qualquer um.

Acho engraçado que, enquanto escrevia esta história, saiu na grande rede uma notícia que, nos Estados Unidos, na cidade de Seattle, um homem enviou para o gerente da loja "Sears" uma cédula de 100 dólares acompanhada de um bilhete, onde o mesmo se desculpava por ter roubado do caixa da loja uma quantia entre 20 ou 30 dólares na década de quarenta. Talvez tomado pelo espírito de natal, o sujeito resolveu colocar no envelope um peso que carregava na consciência a mais de 60 anos.

Caros colegas, o ano está terminando e o mês de dezembro apenas começando. Desejo que o espírito de natal inspire a todos e, na hora em cada um de vocês for escrever suas cartinhas para o Papai Noel, peça para ele levar no seu saco umas frutinhas para presentear alguns políticos deste grande país, porque esperar que eles devolvam, pelo menos uma parte daquilo que roubam, nem daqui a 600 anos.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra


(Escrito em 06/12/2011)

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Gato na energia



Colegas de todos os prazeres e ética também
Estou escrevendo hoje para dar uma notícia muito simples e curta a qual eu começaria escrevendo assim: Gato na energia provoca interrupção no...

Como eu falei antes, a notícia "começaria" desta maneira, mas, para minha tristeza, não posso começar assim e preciso explicar o porquê. Estava este simples caeté prestando seus humildes serviços à justiça eleitoral no Fórum Eleitoral de Maceió quando, de repente, faltou energia no prédio. A sala em que eu me encontrava, sem qualquer fonte de iluminação natural, ficou completamente às escuras. Saí tateando, primeiro porque lá dentro não dava para enxergar nada e segundo porque a atribuição de identificar o motivo da interrupção de energia e adotar as providências para o seu devido restabelecimento era minha. O Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas estava, como ainda está, realizando o recadastramento eleitoral com biometria em todo o estado. No momento da falta de energia o Fórum Desembargador Moura Castro estava lotado e, para completar a situação, havia uma fila de eleitores digna de qualquer agência do INSS deste grande país. O prédio de dois pavimentos tem aos fundos, no andar superior, uma espécie de varanda que na verdade é uma área de circulação e quando eu cheguei lá, já havia uma verdadeira plateia instalada, todo mundo olhando para o recinto que abriga a subestação. Quando eu me aproximei uma colega foi logo dizendo:

 - Eu vi um fogo saindo de lá, aí então deu um estrondo.

O ruído do grupo-gerador que é acionado automaticamente para garantir alguns circuitos essenciais, não deixava dúvida, não se tratava de um desligamento de um simples disjuntor, houvera sim uma interrupção na entrada de energia. Comecei a descer as escadas, um colega perguntou o que eu faria e respondi que a primeira coisa a fazer seria inspecionar o local para saber o que acontecera. A resposta foi rápida:

 - Num vá não que pode ser perigoso.

Hora essa, eu, um ex-operador da Subestação Moxotó, lá nas bandas da Cachoeira de Paulo Afonso, não iria me assombrar com uma interrupçãozinha de energia numa subestação de prédio. Primeiro eu tinha de saber o que havia acontecido internamente, para em seguida acionar, caso fosse necessário, a companhia de energia. Ademais, dezenas de servidores e funcionários dependiam do restabelecimento do fornecimento de eletricidade para atender centenas de eleitores. Mandei buscar a chave do portão da subestação, uma demora que daria um capítulo a parte, e finalmente, na companhia de mais uns três colegas entramos na subestação. O barulho do gerador era ensurdecedor e eu primeiro procurei examinar os quadros de comando e distribuição para ver se encontrava alguma irregularidade, mas foi Edvaldo, um colega da informática, quem descobriu o motivo da falta de energia. Um filhote de gato estava estendido no chão próximo ao barramento de 13,8 Kv. O felino havia recebido um choque de 13.800 volts e, por incrível que pareça, estava vivo, deitado e miando. Alguns minutos após a nossa descoberta chegou ao prédio uma equipe da distribuidora de energia que constatou que o curto-circuito provocara a queima de dois fusíveis no poste, duas "tabocas" como dizemos por aqui.

Acredito que o bichano tenha entrado na subestação espremendo-se no espaço entre o portão de acesso e o chão. Internamente, a chave seccionadora, o disjuntor, o transformador e o gerador são separados uns dos outros por paredes e, na parte da frente de cada um deles, existe outra grade telada que vai do chão até a altura das paredes divisórias. Uma vez dentro do recinto o gato deve ter escalado a tela interna, resolveu dar um pulo sobre o barramento de 13,8 Kv e KABUUMMM. Eu tenho certeza que se fosse eu, ou um de vocês, que tivesse levado um choque daqueles, teríamos partido para o "beleleu" de imediato. Mas como os gatos têm sete vidas esse gatinho, apesar dos sinais visíveis de queimaduras nas patas, ainda conseguia andar se arrastando.
Uma vez levantada a situação fomos à ação. Eu, Edvaldo e Otaviano, nosso eletricista, além dos colegas da companhia de distribuição desencaixamos a tela do compartimento do disjuntor e puxamos o gato para fora. Uma vez eliminado o problema, novos fusíveis foram colocados e se fez a luz.

Considerando-se que aqui no Brasil uma ligação clandestina de energia é chamada de gato, se eu começasse escrevendo que um gato na energia havia provocado a interrupção dos trabalhos de recadastramento biométrico em Maceió o que vocês iriam pensar? Eu aposto que todos, sem exceção, iriam pensar que o Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas estaria furtando energia elétrica e eu com certeza não poderia permitir que pensassem isso da instituição à qual eu sirvo. É por isso que no início deste texto eu falei que a notícia era simples e curta, mas por uma questão de ética eu jamais poderia ter começado a escrevê-la da forma como eu gostaria, mas vocês têm que admitir, seria prazeroso começar escrevendo assim. Para evitar um mal entendido, preferi me privar deste prazer e escrever o fim da história primeiro, para depois escrever o começo.

Somente para finalizar, gostaria de informar que uma colega compadeceu-se do gato e levou-o a um veterinário para tentar sarar suas feridas, mas Arrepio, como foi batizado, terminou morrendo alguns dias depois. Moral da história, gato na energia dá uma confusão da peste.

Caros colegas, àqueles que têm em casa algum tipo de bicho de estimação sugiro cuidado e, para todos, uma ótima semana com boa energia.


Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 22/11/2011)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O descarrego do encarregado


Usina Apolônio Sales
Fronteira Alagoas - Bahia

Colegas de todas as ambições

Na era da informação, globalização e estresse o sucesso é cada vez mais visto como uma meta obrigatória a todo ser vivente. Mas o que é o sucesso? Como não tenho nenhuma formação que me permita apresentar aqui a definição definitiva, acho melhor vocês procurarem um cara do tipo do Max Gehringer, a quem cito não por ironia ou desdém, mas por uma sincera admiração. No entanto, eu me permito comentar que para muita gente neste mundo o sucesso está associado ao resultado de uma equação onde não podem faltar duas importantes variáveis: o dinheiro e o poder.

Refletindo sobre recentes acontecimentos da minha vida, detalhes, deixa para lá, lembrei-me de um rapaz que conheci no tempo em que compus os quadros da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, CHESF, lá pras bandas da Cachoeira de Paulo Afonso. Joel Torquato era Operador de Usina na mesma unidade da CHESF em que trabalhei. Como o trabalho de operador era exercido em ambiente de periculosidade, essa categoria tinha direito a uma aposentadoria especial, de modo que quando comecei a minha carreira, Torquato estava encerrando a sua. Não tivemos oportunidade de trabalharmos juntos, mas isso não impediu de conhecê-lo socialmente nem de conhecer algumas de suas histórias.

Trabalhar numa usina hidrelétrica é uma experiência semelhante a viver numa terra de gigantes. Tudo lá dentro é enorme e tanto as forças que movimentam suas máquinas, como a energia que lá é produzida tem dimensões titânicas. A usina trabalha vinte e quatro horas por dia e as equipes de operação se revezam continuamente no seu controle. Os candidatos a operadores, naturalmente, são submetidos a um treinamento prévio antes de ingressar na carreira. Uma vez efetivado no cargo, o indivíduo é classificado como Operador I e, de acordo com o seu desempenho e com as oportunidades, o mesmo poderá galgar novas classificações que significam maior remuneração e também mais responsabilidade. Dentro desse contexto, cada equipe de operadores é composta por vários elementos, sendo que aquele que é mais experiente exerce o comando da equipe e é denominado de Encarregado de Turno. No comando da unidade de geração como um todo, tem também a figura do Encarregado da Usina, cargo que também é exercido por um operador, a quem cumpre responder por toda a operação perante o serviço de engenharia da empresa.

Quando fui trabalhar na Usina Apolônio Sales, o meu treinamento foi aplicado por Guabiraba, cabra nascido e criado dentro do sistema CHESF e conhecedor profundo de todas as minúcias do funcionamento daquela usina. Pouco tempo após a minha efetivação na empresa, Guabiraba aposentou-se, mas, além das grandes lições que me deixou, tem também uma história do tempo em que ele foi o Encarregado da Usina.

Contam os meus antigos colegas da Operação que, certo dia, diante da aposentadoria de alguns antigos operadores, a fila andou e Guabiraba anunciou para Torquato que ele seria, a partir de então, o novo encarregado do seu turno. Para tomar aquela decisão o chefe levou em consideração tanto o tempo quanto a experiência que o operador acumulara ao longo de muitos anos de serviço. Com certeza, a decisão foi tomada baseada em fatores inquestionáveis, pois Torquato conhecia muito bem aquele gigante de concreto e aço. O problema é que nesta tomada de decisão não foi levado em consideração uma variável extremamente importante, a ambição do indivíduo. Por favor, não estou aqui falando em ganância, mas sim no desejo legítimo de se ter ou possuir alguma coisa. Joel Torquato tinha de fato todos os requisitos técnicos necessários ao exercício do comando de um turno, mas ele sabia que o desfrute daquela posição implicava em responsabilidades bem maiores e este encargo ele simplesmente não almejava. Não se sabe o porquê dele não ter recusado de imediato, mas o certo é que Torquato aceitou, ou seria melhor dizer, acatou a missão.

Eu tenho a absoluta certeza que cada um de nós conhece pelo menos uma pessoa capaz de "vender a própria mãe" só para usufruir do binômio "dinheiro - poder". O problema é que Joel simplesmente não se enquadra nessa categoria de pessoas. Dinheiro para garantir o sustento digno da sua família ela já obtinha honestamente no exercício do seu ofício. No tempo em que ele ingressou nos quadros da CHESF a companhia proporcionava casa aos seus funcionários e, graças a essa regalia, ela já usufruía de uma boa casa, numa rua tranquila e arborizada em frente a um lago. A função de Encarregado de Turno conferia-lhe uma prerrogativa hierárquica, podendo também servir de meio para atingir alguma promoção, mas ele simplesmente estava satisfeito com aquilo que já obtivera.

Os turnos se passaram e o Encarregado da Usina começou a se preocupar com o desempenho do novo Encarregado de Turno. Dedicado e detalhista como era, eu fico só imaginando o estado de espírito em que se encontrava o meu treinador. Dia vai, dia vem e Guabiraba ficava cada vez mais irrequieto, parecendo mais uma galinha quando quer por. Torquato por sua vez ia cumprindo turno após turno, arranjando um jeito de driblar as situações de estresse que porventura aparecessem. É lógico que essa situação não poderia continuar, mas, como um grande ser humano, Guabiraba sentia-se imensamente constrangido em ter que destituir o colega. O tempo continuou passando e diante da persistência do quadro ele tomou a decisão e resolveu ter uma conversa com o rapaz. Puxou ele para um lado, começou a falar sobre a usina, sobre o trabalho, arrodeou, fez mil voltas enquanto procurava coragem para comunicar ao colega sua decisão. O tempo todo ele ficava imaginando qual seria a reação de Torquato quando a destituição fosse informada. Respirou, criou coragem e finalmente deu seu veredito: a partir daquele dia ele não seria mais o encarregado daquele turno. Ouvindo aquelas palavras Torquato olhou para ele e disse:

 - Muito obrigado Guabiraba, você tirou um grande peso das minhas costas.

Resposta inesperada, alívio para ambas as partes.

Daí em diante o tempo seguiu sua marcha e, finalmente, Torquato alcançou sua merecida aposentadoria. Hoje, ainda desfrutando de bastante vigor físico, dedica-se a duas paixões, a família e o motociclismo, enquanto continua morando naquela mesma casa em frente ao lago.

A propósito, segundo Max Gehringer, embasado num livro escrito há 2.300 anos, "sucesso é o sono gostoso, se a fartura do rico não o deixa dormir ele estará acumulando ao mesmo tempo a sua riqueza e a sua desgraça".

Numa era onde o sucesso é tratado não como um prêmio, mas sim como obrigação, encaminho a todos um abraço forte, muita energia e o desejo de que cada um obtenha, na devida medida, muito sucesso.
Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 15/11/2011)


Falando em Max Gehringer, ouça o que ele tem a dizer sobre o tema “sucesso”.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O fogueteiro e o andor de Senhora Santana


Altar da Igreja Matriz de Senhora Santana - 1964

Colegas de todas as orientações religiosas,

Aconteceu nos tempos em que eu era menino, usando calças curtas e cabelo raspado na máquina zero, sobrando apenas um tufo de cabelo no cocuruto. Era dia da padroeira de Santana do Ipanema, e as ruas da cidade estavam tomadas por uma multidão acompanhando a procissão. Nos tempos em que não havia trio elétrico, nem paradas de orgulho de qualquer coisa, eram a fé do povo, o carisma do Padre Cirilo e o andor ornamentado por Dona Glacira que atraíam gente de toda a região daquele sertão alagoano. Era muita gente e, como eu era pequeno, tenho certeza de que tinha alguém segurando minha mão. A bem da verdade, não me lembro de quem era a mão, mas sou capaz de apostar de olho fechado que era a mão de mamãe, porque, zelosa como era e ainda hoje é, não acredito que ela delegaria esse encargo para “Seu Ninguém”. Eu me lembro bem das pessoas acotovelando-se para chegar perto da santa, algumas tentando apenas tocar no seu andor, enquanto outras faziam questão de carregá-lo, revezando-se continuamente no cumprimento de tamanha honraria. Apesar da aglomeração e do aparente caos, havia um preceito coletivo que garantia o direito de cada um carregar a imagem de Senhora Santana durante um trecho do seu longo cortejo.

Papai nunca gostou muito de multidão e, por uma questão de prudência, preferia acompanhar a procissão guardando certa distância daquela aglomeração em torno da santa. Hoje, depois de tantos anos, eu acho que faria a mesma coisa, mas, naquele dia, minha vontade era exatamente o oposto. Eu queria acompanhar a procissão ao lado da santa, admirando a charola e vendo o revezamento frenético dos homens que a carregavam. Quando eu disse o que queria, minha mãe deu a resposta mais previsível do mundo:

- Não.

Mas aquele dia de julho de um ano qualquer da década de 60 foi diferente de tantos outros. Eu estava determinado a fazer o que queria e passei a insistir. Não sei se por ficar incomodado com a minha insistência, ou por achar que aquela oportunidade poderia ser um bom treino para minha vida futura, papai decidiu que eu poderia sozinho acompanhar a procissão. Sabendo que ela terminaria na praça em frente à Igreja Matriz, antes que me deixasse partir falou:

- Vá e quando a procissão terminar, a gente espera você em frente ao Ferrageiro.

Referia-se à sua loja que ficava exatamente em frente à igreja, do outro lado da praça. Acatei sua ordem e rapidinho me embrenhei na multidão, subindo e descendo as ladeiras da cidade. Apesar de aquela decisão não ter tido a concordância do lado materno dessa história, acho que papai sabia que eu já conhecia o traçado de todas as ruas do bairro, como também que aquela situação seria importante não apenas como uma experiência para mim, como também para eles.

Naquele tempo, um elemento que não podia faltar nas procissões era o fogueteiro. Esse profissional ia acompanhando a procissão e, de tempos em tempos, soltava um foguete, cujo estouro servia para avisar a população tanto do início como da aproximação do cortejo. Apesar de eu já entender essa dinâmica, confesso que nunca tinha visto alguém soltar um foguete. Após percorrer uma rua ou duas de olho fixo no andor, minha atenção foi atraída pelos “papoucos” dos foguetes. Comecei a prestar atenção nas suas trajetórias até que consegui chegar perto do fogueteiro. Conversando com meu velho amigo do tempo da escola primária, Luiz Euclides, ele, além de lembrar-se do homem, lembrava também do seu nome:

- Era Seu Zuza, um senhor de cor clara, cabelos agastados, grande e gordo.

Na verdade ninguém chegava perto demais, Seu Zuza e o ajudante garantiam uma verdadeira clareira naquela floresta humana. Vi vários foguetes subindo chiando em direção ao céu, vi um deles explodir antes de ganhar altura e vi os “cotocos” de dedos na mão de Seu Zuza, observações suficientes para satisfazerem a minha curiosidade e despertarem a minha prudência.

Acho que aquele dia foi importante para um bocado de gente. Foi importante para o povo do sertão que, por devoção ou fé, reverenciava a santa padroeira. Foi importante para papai que colocou pela primeira vez à prova aquilo que viria a ser a minha independência. Foi importante para mim que pude corresponder à sua expectativa e foi importante para minha mãe que naquele dia acompanhou a procissão rezando com mais fervor. Após tantos anos, isso pode parecer para alguns apenas uma história besta de menino, mas, na verdade, aquela situação foi para a história da minha vida uma dentre tantas lições que aprendi com meu pai, a quem agradeço não apenas pelas suas lições, mas também pelo seu exemplo.

No último mês de agosto, papai completou 78 anos. Desejei dar uma passadinha no sertão para lhe dar um abraço, mas minhas férias tinham acabado e eu já havia retornado ao meu trabalho. Queria estar junto dele, relembrar velhas histórias e, quem sabe, ouvir novas, que pudessem um dia ser recontadas, transmitindo memórias, lições e registrando para a posteridade os diversos personagens que compõem a história do sertão, mas lembro-me que, diante de uma ocasião semelhante, ele foi taxativo:

- Primeiro vem a obrigação, depois a devoção.

É por conta de lições como essas, que tenho que me contentar em compensar a distância que nos separa escrevendo meus causos, lembrando o tempo em que eu andava pelas ruas segurando nas mãos de papai e mamãe. Tanto eu, como eles gostaríamos de estar mais próximos uns dos outros, mas sabemos que mais importante do que o tempo que passamos juntos é aquilo que vivemos quando estamos juntos.

Meus colegas, mais uma vez gostaria de desejar a todos uma boa semana e, ao mesmo tempo em que homenageio meu pai pelos seus 78 anos, peço as orações de todos em prol da minha mãe, que hoje estará se submetendo a uma cirurgia delicada.

Saúde, luz e paz!

Virgílio Agra

(Escrito em 17/10/2011)

Além da sua significância para a religiosidade Católica, as procissões tanto recebem influência da cultura popular, como também a influenciam. Um bom exemplo disso é a música Procissão, composta por Gilberto Gil e aqui interpretada pelo grande Luiz Gonzaga.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Uma legião de estrangeiros

Fim da viagem em Bruges – Bélgica
900 anos de história.

Colegas de ambos os lados do mar

Se alguém disser para vocês que, falando inglês, vocês vão para qualquer parte do mundo, eu aviso, é mentira. Na viagem empreendida por este caeté e família ao Velho Continente, confesso que o meu "do you speak english" foi muito útil na Holanda, mas nos demais países a conversa foi outra. Nas terras italianas a responsável pela pousada onde nos hospedamos era colombiana e aí apelamos para o velho conhecido "portunhol", mas, nas ruas de Roma, a origem latina comum ao italiano e ao português falou mais alto que as receitas prontas dos adeptos da língua de Shakespeare.

Tanto a semelhança entre os idiomas quanto o jeito comunicativo dos italianos, bem parecido com o jeito dos brasileiros, facilitou muito a comunicação, mas não impediu que nos atrapalhássemos em alguns momentos. Por indicação do dono da pousada, fomos a uma lanchonete que tinha um sorvete fabuloso. Chegando lá, a casa estava cheia e os funcionários corriam de um lado para outro tentando atender a todos. A coisa tava de um jeito que entender como o serviço funcionava já foi uma conquista, mas o problema maior era saber quais eram os sabores dos sorvetes, porque em cada um deles havia uma plaquinha escrita apenas em italiano. Com a ajuda de uma portuguesa que estava na fila consegui identificar alguns sabores, sendo alguns velhos conhecidos e outros que eu nunca tinha ouvido falar. Porém, tinha um sorvete de cor vermelho vivo que me dava água na boca só de olhar, com uma plaquinha escrita a palavra FRAGOLA. Eu olhava aquele sortimento todo e os olhos só paravam no tal do FRAGOLA. O único "Frajola" que eu conhecia era o parceiro do "Piu-piu" dos desenhos animados e a portuguesa já tinha saído e eu não tinha como tirar a dúvida. Finalmente resolvi escolher este sabor e qual não foi minha surpresa, quando descobri que FRAGOLA era MORANGO, um sabor que eu conhecia desde menino quando chupava picolé da Sorveteria Maringá lá em Santana do Ipanema.

Quando saímos de Roma, passamos por Florença onde, além de nos deliciarmos com o acervo de obras de arte da família Médici, aproveitamos a oportunidade e fomos a uma feira local onde compramos presuntos e pães feitos em casa e vendidos pelos próprios produtores, a exemplo do que ocorre nas feiras livres em qualquer parte do mundo. Quando nos apresentávamos como brasileiros todos sorriam e nos dispensavam uma atenção toda especial.

Florença também serviu para mim como ponto de partida para uma visita aos campos de batalha da FEB na Segunda Guerra Mundial. Graças ao apoio do ítalo-brasileiro Mário Pereira, pude conhecer os principais pontos onde se deram as batalhas dos nossos pracinhas. Foi um passeio inesquecível, não apenas pela beleza da região e pelas histórias contadas em detalhes por Mário, mas o fato de ter um tio que participou daquelas batalhas me proporcionou a grata oportunidade de resgatar nas terras d'além mar, um pouco da história da minha própria família. Outra coisa muito boa foi sentir a atenção que as pessoas daquela região dispensavam a nós "brasilianos". Confesso que me senti orgulhoso de ser parte deste grande país, cujos filhos conseguiram firmar laços de fraternidade com um povo distante, apesar de todos os obstáculos, inclusive linguísticos.

Finalmente chegamos à França e acho que foi em Paris o lugar onde tivemos a experiência linguística mais interessante. Eu sempre tinha ouvido dizer que os franceses não gostavam de falar inglês e algumas fontes chegavam a referir-se a uma suposta "má vontade" dos franceses em falar numa língua diferente da sua própria. Porém, minha filha já tinha me alertado que eles tinham certa dificuldade em lidar com a língua britânica e eu, sinceramente, acho que esta hipótese tem algum fundo de verdade. O proprietário do apartamento que alugamos em Paris, Sr. Edgard, por exemplo, foi de uma gentileza exemplar, no entanto, na hora de nos comunicarmos tínhamos que usar um misto de inglês, espanhol, português, mímica e boa vontade, porque a dificuldade de comunicação era enorme, apesar do esforço que todos desprendiam.

Quando da nossa passagem pelas terras gaulesas, já tínhamos cumprido mais da metade do nosso roteiro de férias e isso permitia fazer algumas comparações na nossa experiência linguística. Se na Holanda o idioma era impronunciável, os batavos compensavam falando inglês. Da mesma maneira, os cardápios, folhetos turísticos e até algumas placas indicativas eram escritas em holandês e em inglês e isso nos permitiu conhecer muito daquele pequeno e belo país. Na França a situação era quase inversa, não falávamos nada em francês e era raro encontrar nas ruas quem falasse inglês, mas, por outro lado, nos museus que visitamos tivemos uma grata surpresa, lá encontramos não apenas atendentes que falavam português, mas também havia folhetos, catálagos, audio-guias e livros com o acervo dos museus tudo em português.

Outro aspecto interessante que pudemos observar nas terras européias foi o comportamento do mercado informal. Enquanto que na Holanda era proibido pedir esmolas, em Roma pudemos ver profissionais da mendicância nas ruas. Por sua vez, o comércio ambulante na Cidade Eterna era praticado principalmente por pessoas de origem asiática, já em Paris o mercado informal era dominado pelos africanos. Quando estávamos no Trocadero, um parque elevado de onde se avista a Torre Eifel e o seu entorno, um vendedor ambulante ouviu o nosso falar e aproximando-se falou com sotaque;

 - Brasileiro.

Era um jovem de uns vinte e poucos anos e pela cor não deixava dúvida, era africano legítimo. O cara era preto de um jeito que eu não me lembro de ter visto um igual aqui no Brasil. Puxei conversa e fiquei sabendo que ele era do Senegal, antiga colônia francesa. Ele contou que veio para a França porque na sua terra natal não havia oportunidade de trabalho, mas a vida na Cidade Luz não era mole não. De fato, quando eu estava ao pé da Torre Eiffel, observei uma estranha movimentação dos vendedores ambulantes. Todos começaram a caminhar numa só direção, apressadamente, como se estivessem em fuga. Ficou claro para mim que havia chegado à área algum tipo de fiscal da prefeitura. Após algum tempo, percebendo que os "homi" tinham ido embora, os camelôs começaram a voltar como uma onda que vai e depois vem. É muito engraçado país do primeiro mundo, até ambulante quando foge do "rapa", o faz discretamente. De uma maneira geral, no exterior as pessoas têm o Rio de Janeiro como cidade de referência do Brasil, o jovem senegalês, pelo contrário, citou a cidade de Salvador. Como prova da afinidade entre a Bahia e a África, em dado momento da nossa conversa ele chegou a cantarolar o refrão da música "Canto para o Senegal". Após os cumprimentos de praxe o jovem seguiu o seu caminho batalhando o seu sustento e eu segui o meu, somando mais uma vivência numa viagem rica, culturalmente.

Outro aspecto interessante observado no mercado informal parisiense, foi a presença de artista populares batalhando uns trocados nas suas ruas e metrô. Nos nossos deslocamentos metroviários frequentemente embarcava no mesmo vagão algum artista que tocava uma musiquinha e depois passava o chapéu para colher umas moedas. Coincidentemente, tinha uma estação onde sempre embarcava o mesmo artista, portando uma caixa de som onde tocava um "play back" e ele cantava “La Bamba”, toda vez.

Aproveitamos muito bem cada minuto que passamos na capital francesa até que chegou a hora de embarcar num trem velocíssimo em direção à Bélgica onde fomos conhecer a cidade medieval de Brugges. Mais uma vez não vou desperdiçar o tempo de vocês descrevendo os encantos de uma "cidade cartão postal', mas não poderia deixar de comentar o quanto foi bom caminhar em ruas onde várias casas ostentavam datas de mais de trezentos anos, comer comida irlandesa e tomar cerveja belga produzida pela Inbev, a multinacional belgo-brasileira da cervejaria. Coisas do mercado global... coisas do mercado global.

É, pois, escrevendo esta quarta narrativa, que concluo as aventuras deste simples caeté nas terras d'além mar. Desejando que todos tenham uma ótima semana e que aproveitem bem todas as lições que a vida nos proporciona, tanto de um lado, como do outro do mar.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 10/10/2011)

PS: Apelidamos nossa viagem de “Invasão ao Velho Continente” e elegemos uma música que simboliza muito bem nossas impressões na viagem. Com uma majestosa apresentação acústica, segue aqui “Nós vamos invadir sua praia”, de Roger Moreira e a Banda Ultraje a Rigor.


terça-feira, 30 de julho de 2013

E os meus caminhos me levaram a Roma


Na Basílica de São Pedro

Colegas de todos os caminhos

Será que todos os caminhos levam a Roma? Não sei se "todos", mas o meu percurso no velho continente passou por lá.

Chegamos a Roma numa manhã de muito sol prenunciando qual seria o clima da nossa estada na terra dos Césares. Pegamos um ônibus no aeroporto de Ciampino até a estação Termini, no centro da cidade, de onde fomos caminhando até a nossa pousada, localizada estrategicamente para facilitar nossos deslocamentos.

Após nos alojarmos demos uma volta na vizinhança onde descobrimos uma pizzaria simples, porém muito acolhedora, de propriedade de um egípcio chamado Mohamed. Após recarregarmos as baterias, de posse de um mapa e dicas dadas pelo pessoal da pousada, fomos "bater perna" pelas ruas de Roma. Caminhar pelas ruas de uma cidade tão antiga já é em si um grande atrativo turístico, mas nós não poderíamos deixar de aproveitar a oportunidade para visitarmos algumas igrejas que, com certeza, teriam muito a enriquecer o passeio. O problema é que, por conta do calor, minha esposa e uma das filhas resolveram usar shorts e camiseta, trajes pouco adequados à visita a um templo. Elas só não ficaram do lado de fora porque os padres, cansados dos problemas que a limitação ao acesso provocava, passaram a disponibilizar peças de tecido que os visitantes usavam para cobrir pernas e ombros. Resolvido o problema, após uma tarde de muita caminhada, fotos, comentários e todo o ritual próprio de quem descobre um novo mundo, pegamos um metrô e fomos visitar a mais famosa fonte de Roma.

Aqui no Brasil nos acostumamos a não confiar na água fornecida pelas empresas de abastecimento nacionais, um costume por demais interessante para as empresas que comercializam as águas minerais. Na Europa, pelo contrário, a água da torneira é sempre de boa qualidade e comprar água engarrafada pode satisfazer um hábito tupiniquim, mas não é nada racional. Ao longo de toda a viagem nunca nos separamos das nossas garrafinhas que eram regularmente abastecidas nas fontes, pousadas e mesmos nas torneiras dos bares, lanchonetes e restaurantes onde nos alimentamos. Naturalmente, algumas fontes não têm água adequada ao consumo, mas a potabilidade da água, ou não, encontra-se normalmente sinalizada. A Fontana di Trevi é um desses exemplos de fonte cuja água, atualmente, não deve ser consumida. No passado, no entanto, era lá onde jorrava água de boa qualidade trazida por um aqueduto romano desde antes da era cristã. No século XVIII foi construído um monumento para decorar a fonte que transformou o local num dos pontos mais charmosos da cidade. O local é simplesmente lindo, mas a "mundiça" de gente é tão grande que termina por prejudicar a beleza do local. Para completar, espalharam o boato que aquele que fica de costas para a fonte, faz um pedido e joga uma moeda na água por sobre a cabeça tem o sonho realizado. O resultado é que em redor da fonte fica um monte de gente besta jogando moeda na água como se esse gesto fosse resolver os problemas do mundo.

No dia seguinte pegamos um metrô próximo da pousada e fomos caminhar nas ruínas do Palatino, Fórum Romano e Coliseu. Tentar descrever tudo que foi visto ou apreendido na visita àquele parque arqueológico geraria um texto tão longo que se tornaria enfadonho, mas teve umas coisinhas que eu não sabia e que me chamaram a atenção. Enquanto os templos e grandes monumentos eram construídos de pedra, conforme consta nas fotos dos livros de história, pude observar que as residências eram construídas em alvenaria. As paredes eram construídas como se fosse um sanduíche, sendo a parte externa construída de tijolo e o miolo era preenchido com uma argamassa misturada com pedras ou pedaços de tijolos, a exemplo de como é, nos dias de hoje, uma argamassa de concreto. Ao atingir a altura desejada, as paredes eram unidas por arcos podendo a parte de cima ser também preenchida com aquela argamassa, formando uma laje que poderia servir de base para a construção de um novo andar. O fato é que pude observar que esta técnica permitia a construção de edificações muito altas, o que equivaleria, com a tecnologia de hoje, a prédios de vários andares.

O nosso último dia em Roma foi escolhido para nossa visita ao Vaticano. Acreditávamos que, por ser uma segunda-feira, haveria menos gente nas filas para a entrada do museu... ledo engano. Pegamos o metrô bem cedo e quando chegamos ao local a fila já estava dobrando a esquina, mas, apesar de longa, caminhou relativamente rápida. Na compra dos ingressos fiquei surpreso quando o atendente, literalmente, jogou os bilhetes sobre o balcão. Vocês sabem aquele jeito que jogador de baralho faz quando joga sobre a mesa aquela cartada que encerra a partida? Só faltou o cara gritar:

 - BATI.

Paguei a quantia e peguei os ingressos meio desconfiado. Pensando, o que teria acontecido para o rapaz proceder daquela maneira? Felizmente, após observar melhor outras pessoas e outros lugares, percebi ser um jeito italiano sem nenhuma maldade, apenas diferente daquilo ao qual eu estou acostumado.

Já tinha ouvido falar que no Vaticano tinha muito ouro, metais e pedras preciosas. Confesso que não foi exatamente isso o que vi. Pude apreciar muitas obras de arte que, pelas suas qualidades, são de valor inestimável, mas na sua grande maioria eram pinturas nas paredes e tetos, retratando passagens bíblicas, elaboradas por grandes mestres das artes. Mas uma característica do museu fez com que eu me sentisse no carnaval de Salvador. A quantidade de gente era tão grande que se o cabra levantasse o pé do chão, iria até o final da galeria num pé só.

Ao sairmos do museu demos a volta no quarteirão que compõe o Vaticano e fomos à Basílica de São Pedro. Como em outras igrejas de interesse histórico e artístico, havia peças de tecidos para cobrir as pernas e ombros desnudos dos desavisados, só que dessa vez a minha turma estava prevenida. O curioso é que, apesar da limitação à exposição do corpo em carne e osso, quando se tratava de nudez em mármore a tolerância era bem maior, eis que a basílica era decorada com várias esculturas com figuras femininas com os seios nus. Falando em escultura, além da Peitá, de Michelângelo, obra maravilhosa que dispensa comentários, havia uma estátua de São Pedro em condições bastante interessantes. Produzida em mármore no século XIII, ao longo do tempo peregrinos beijaram e afagaram tanto os pés do santo que terminaram desgastando os dedos do coitadinho. Resultado, São Pedro tá lá, sentadinho, só com os cotocos de pés, sem um dedo sequer.

Roma é, sem dúvida nenhuma, uma cidade única. Com sua história milenar, proporciona aos seus visitantes tanto o contato com o que existe de melhor na história, na arte e na cultura, como também com problemas tão frequentes nas grandes cidades. Diferentemente das terras batavas, plana e cheia de bicicletas, a Cidade Eterna é situada em terreno ondulado. Este fator, aliado a uma população de quase três vezes a de Amsterdã, influencia fortemente no trânsito da cidade onde chama a atenção a grande quantidade de motonetas e mini carros. Enquanto na Holanda os ônibus passam nos pontos em horários precisos a realidade romana não foge àquilo que temos no transporte público deste grande país. Os ônibus atrasam, vêm lotados e têm um sistema de tarifação que acredito, propicia uma severa evasão de receita. Foi lá onde mais caminhamos e foi de lá que partimos num trem excelente a mais de 230 quilômetros por hora. Não sei se todos os caminhos levam a Roma, mas achei bom que os meus passaram por lá.

Caros colegas, ao mesmo tempo em que desejo a vocês uma boa semana, espero que o criador ilumine o caminho de todos.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 20/09/2011)


PS: Comparando a cultura e o desenvolvimento que encontramos no Velho Continente com a realidade deste grande país, mas também verificando a transitoriedade dos antigos impérios que um dia foram dominante e em outro foram destruídos, segue aqui a música “Inútil”, de Roger Moreira, com a Banda Ultraje a Rigor.


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Histórias de guerra e degustações de cerveja


Foto obtida na Casa Mãe – Asten-NL

Colegas de todos os pontos de vista

Se tem uma coisa que eu aprendi ao longo da minha vida é que uma viagem pode proporcionar muito mais do que aquilo que está disponível nas galerias dos museus, nas mesas dos restaurantes e nas paisagens do tipo "cartão postal". Durante minhas férias nas terras d'além mar, na medida das minhas limitações, procurei ficar atento às oportunidades de interagir com seus habitantes, ao mesmo tempo em que procurei observar o cotidiano dos lugares onde passei, retirando desse contato conhecimentos importantes que jamais constarão num catálogo turístico.

Foi numa manhã de quarta-feira, dia de São Pedro, que partimos de Amsterdã para dar a volta por outros países da Europa. Pegamos um trem para Helmond, depois um ônibus até Asten no sul da Holanda, onde fui encontrar uma pessoa que não via há uns 20 anos, a minha querida Irmã Letícia, fundadora e diretora da escola em que cursei o ensino primário. Não vou aqui discorrer sobre a emoção de poder abraçá-la e poder ouvir sua voz novamente, porque emoção é sentimento e isso não tem como ser descrito. Mas eu não poderia deixar de comentar o quanto a nossa chegada foi festejada, não de maneira formal, mas pela maneira afetiva com que nos trataram. Alguém lembrou que naquele dia a Congregação estava completando 50 anos do início das suas atividades no Brasil e isso foi motivo para mais alegria. Ao comentar com Irmã Letícia sobre o tratamento que nos era dispensado ela simplesmente disse:

 - Quando fomos para outros países como missionárias, criamos laços afetivos com as pessoas desses países, de modo que, quando elas vêm até aqui, são como parentes nossos que nos visitam e como todas nós somos irmãs é como se vocês fossem familiares delas também.

A casa onde as freiras vivem é algo totalmente diferente daquilo que eram os antigos conventos. A Casa Mãe, como é chamada, é um conjunto de prédios de três pavimentos, dotado de portaria, refeitório, elevador, lavanderia, capela e todos os equipamentos necessários a garantir uma morada decente aos seus residentes. Além do conjunto de prédios há também uns jardins, um pomar, um pequeno bosque e um cemitério onde, além dos túmulos, tem também um muro onde constam os nomes daquelas que morreram longe da sua pátria. Se alguém pensava que as freirinhas vivem lá apenas a rezar se enganam. Aquelas que ainda têm condições executam alguns trabalhos, colaborando assim com os serviços da casa e quem quiser conversar com elas fique a vontade, pois elas estão ligadas nas notícias do mundo inteiro.

Durante nossa permanência em Asten aproveitamos para dar uma volta na pequena cidade. Nossa primeira parada foi uma igreja consagrada a Nossa Senhora da Apresentação, construída em estilo gótico, com belos vitrais e toda a grandiosidade desse estilo arquitetônico. Convém citar que na Holanda o lado norte é predominantemente protestante enquanto o lado sul é católico. Após uma volta na praça e uma xícara de café, voltamos a caminhar e avistamos um pequeno parque com um monumento que nos chamou a atenção. Constava de uma figura humana deitada sobre uma placa de pedra em cuja borda estavam gravados vários nomes de pessoas e umas datas. Percebi que eram datas de nascimento e morte sendo que estas últimas coincidiam com o período da Segunda Guerra Mundial. Eu sabia que aquela região tinha sido palco de combates na guerra, particularmente durante a famosa Operação Market-Garden, aquela da ponte longe demais. Fotografei o monumento e depois perguntei a Irmã sobre o que ele tratava. Ela me contou que durante a guerra o prefeito da cidade ajudava clandestinamente aqueles que eram perseguidos pelos invasores. Quando os alemães descobriram, arrastaram-no até aquele local, executaram-no e, durante muito tempo, não permitiram que o seu corpo fosse removido para sepultamento. Após a guerra a população de Asten ergueu o monumento homenageando ele e todos os cidadãos da cidade que tombaram vítimas do nazi-facismo.

A Segunda Grande Guerra é um evento muito importante na história do século vinte e eu já havia lido muito sobre ela. Mas, apesar de já ter se passado quase 70 anos, confesso que me perturbou um pouco ver de perto locais que foram cenários dos seus terríveis acontecimentos. Eu sabia que Irmã Letícia tinha vivenciado a guerra, mas naqueles dias em Asten foi a primeira vez, como adulto, que eu tive a oportunidade de conversar com ela sobre este assunto. Ela contou que seu pai tinha uma boa condição financeira, mas a escassez de comida era tanta que sua família passou fome. Próximo a sua casa morava uma mulher que, provavelmente pela falta de comida, estava doente. Seu marido não trazia comida para casa, talvez porque não conseguisse, talvez porque comesse tudo o que porventura conseguia. Solidária com a situação da mulher, sua mãe separava um pouco daquilo que tinham e mandava que Letícia levasse para ela. Temendo que o marido comesse aquilo que era enviado, esperava que o homem saísse de casa e mandava a menina com a orientação de que só voltasse após a mulher comer tudo, dando a desculpa de que era para trazer de volta a vasilha. Seguindo o mesmo pensamento humanístico um dos seus irmãos começou a participar de uma organização clandestina que ajudava judeus e outros perseguidos pelos nazistas. Seu pai sabia das atividades do filho e guardava sigilo para sua própria segurança, até que um dia ele foi preso pelos alemães e levado para um campo de concentração. Após a guerra, a mulher disse que eles foram anjos enviados por Deus para trazê-la de volta à vida, porém seu irmão nunca voltou para casa. A família soube que ele morreu no campo de concentração e foi enterrado numa vala com outras vítimas, seu corpo nunca foi identificado.

Partimos de Asten de manhã em direção à Dusseldorf, Alemanha, onde minha prima Andréia nos esperava. Nossa passagem pela Alemanha seria breve, visto que, no dia seguinte, já tínhamos um vôo marcado com destino a Roma, mas uma visita à cidade de Colônia superou qualquer expectativa, por mais otimista que fosse. Àquela altura eu não poderia imaginar que a Catedral de Colônia seria o mais grandioso monumento que eu iria conhecer em toda aquela viagem.

Do mesmo jeito que os batavos do outro lado da fronteira, os germânicos também têm muitas cicatrizes da história do último século. Colônia foi simplesmente arrasada pelos bombardeios, as pontes sobre o Reno foram destruídas, mas, por incrível que pareça, sua catedral permaneceu praticamente intacta. Uns podem achar que foi milagre, outros dizem que houve negociação entre os contendores para que aquele patrimônio da humanidade fosse poupado. A verdade talvez nunca saibamos, mas, afinal de contas, se o próprio homem levou 600 anos para construí-la, seria triste vê-la desaparecer no tempo de uma explosão. Por via das dúvidas, os padres retiraram todos os seus vitrais, antes de começarem os "papoucos" das bombas. Após a guerra, os danos sofridos foram reparados e os vitrais centenários foram recolocados para deleite de uma família caeté. Eu fiquei besta com o tamanho da igreja, cruzei seu pátio, atravessei a rua, me espremi contra os prédios do outro lado e não consegui enquadrá-la na câmera fotográfica simples que possuo. No pátio da catedral tem uma réplica em tamanho natural do pináculo das duas torres. De acordo com placas escritas em vários idiomas, eu juro que tinha uma em português, a peça tem 9,5 metros de altura, mas o que eu queria saber de verdade era: Quem foi o cabra que botou aquele troço lá em cima a 157 metros do chão?

O marido de Andréia, Tosten, é um sujeito boa praça que, com muito bom humor, costuma dizer que segue a recomendação da medicina de tomar no mínimo 2 litros de água todos os dias, com a ressalva que a água que ele toma tem 5% de álcool. Fiel à tradição cervejeira do seu país, Tosten nos falou sobre a ritualística que envolve a produção e o consumo da bebida nacional. Segundo ele, cada tipo de cerveja envolve um modelo específico de copo, modo de servir próprio e mais um monte de outros detalhes. De todos estes o mais interessante foi a forma de brindar. Enquanto pelo mundo a fora as pessoas brindam tocando as bordas superiores dos copos, na região de Colônia a tradição manda que o brinde se faça tocando os fundos dos copos. Justificando tal hábito ele dizia sorrindo:

 - Mulher e cerveja se tocam por baixo.

E foi entre um brinde e outro que as horas foram passando até eu cair na cama como uma pedra, no dia seguinte iria se iniciar uma nova etapa da viagem.

Caros colegas, espero que as cervejas do final de semana não atrapalhem a segunda-feira de vocês e, sem medo de ser redundante, desejo que todos tenham uma semana não apenas produtiva, mas principalmente de paz.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 28/08/2011)

PS: Dentre as músicas que embalaram nossa viagem, mais uma que merece ser lembrada é “Vamos fugir” com a Banda Skank.


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