domingo, 28 de outubro de 2012

Um martírio de morada

Palácio Floriano Peixoto – Maceió-AL

Colegas de todas as moradias

Que a capital caeté, famosa pela beleza de suas praias, é um bom lugar para se morar isso ninguém questiona. Nos tempos de hoje os endereços mais procurados, e mais caros também, são aqueles próximos à orla marítima e se for, na área da Ponta Verde, aí então é melhor ainda. Mas, apesar dessa preferência pela brisa carregada de maresia, alguns endereços longe do barulho das ondas do mar são bastante disputados.

No centro histórico de Maceió, em frente à Igreja dos Martírios, o Palácio Floriano Peixoto, antiga sede do governo alagoano, sempre foi um endereço bastante desejado e disputado. Entre o palácio e a igreja, uma praça garante um adequado distanciamento entre os dois prédios. De um lado da praça, no sopé da barreira que delimita a parte alta e baixa da cidade, a igreja dos Martírios, construída num plano mais alto, simboliza a casa de Deus, senhor dos céus. Já do outro lado da praça, num plano mais baixo, o palácio Floriano Peixoto, que foi durante muitos anos a morada e local de trabalho dos governadores do estado, é até hoje o maior símbolo do poder na terra dos caetés.

As diferenças entre as duas construções são visíveis e bem marcantes. No lado de baixo da praça encontra-se um prédio muito bem preservado. Já no lado de cima, apesar de suas características arquitetônicas, as manchas nas paredes e a degradação dos azulejos da fachada e torres mostram, inquestionavelmente, o descaso com o patrimônio histórico e cultural. No lado de cima da praça, enquanto o templo simboliza a busca por um reino dos céus, o lado de baixo é a marca do mais terreno dos poderes. Apesar das diferenças reais e simbólicas entre os vizinhos da praça proporcionar uma lista bastante longa, a proximidade entre ambos gerou certa identidade, no mínimo, bastante curiosa.

Apesar do palácio ser o símbolo do domínio sobre todo o estado, coube à igreja, pelo menos na cultura popular, o predomínio sobre toda a praça. Curiosamente, a praça não é conhecida como "Praça do Palácio", mas sim como Praça dos Martírios. Até o Palácio Floriano Peixoto é conhecido popularmente como Palácio dos Martírios, nome que me parece bastante adequado, considerando-se a repercussão de muitos acontecimentos ligados ao exercício do poder local. Há que se admitir que aquela casa foi, muitas vezes o símbolo de um verdadeiro martírio tanto para o povo do estado quanto para os seus ocupantes. Dentre os acontecimentos, e foram vários, que simbolizaram o martírio dos seus ocupantes, vou contar um que é um verdadeiro clássico da política caeté.

Conta-se que, lá pelos idos de 1950 e alguma coisa, Sivestre Péricles de Góis Monteiro era governador das terras caetés. Quando chegou a época da eleição que iria escolher o seu sucessor, a disputa polarizou-se entre o candidato apoiado por Silvestre e o seu arquiinimigo Arnon Afonso de Farias Melo. Como estava em jogo não apenas questões políticas, mas, principalmente, questões pessoais, a campanha foi muito acirrada com duros golpes de lado a lado. Quando chegou o dia da abertura das urnas o resultado sagrou vencedor Arnon de Mello. Inconformado, mas impossibilitado de reverter a situação, Silvestre Péricles decidiu que não entregaria o cargo sem antes infernizar a estada do futuro morador no palácio. Eu não sei se Silvestre gostava de rezar, mas eu acho que, olhando para o outro lado da Praça dos Martírios, apreciando a igreja, o velho político se inspirou na passagem bíblica que diz: "ao barro voltarás". Eu sei que na Bíblia não está escrito barro, está escrito pó, mas pó, cinza, terra e barro são elementos tão próximos um do outro que vamos deixar assim mesmo.

Na noite da véspera da posse, Silvestre executou o seu incomum plano. Do outro lado daquilo que poderíamos chamar de "centro histórico de Maceió", na Cadeia Pública, a morada que ninguém queria ter, chegou uma ordem do próprio governador: O delegado deveria libertar todos os presos que fossem capazes de encher uma lata de merda. Vocês não entenderam? Bastava uma lata cheia de "cocô", de um barro, que o preso deveria ser solto imediatamente. Nesta noite o movimento na Praça da Cadeia foi frenético. No começo eram os policiais saindo às pressas para comprar óleo de rícino, para que os presos pudessem estimular as atividades "defecativas", e a partir de certas horas eram os presos saindo na carreira, enquanto carros levavam as latas de "barro" para serem entregues ao chefe maior.

De madrugada, de posse da sua inusitada encomenda, Silvestre esfregou o "cocôteúdo" das latas em todas as paredes, teto, tapetes, piso, torneiras e maçanetas do Palácio Floriano Peixoto. Em seguida abandonou o prédio que, a esta altura dos acontecimentos, exalava um fedor tão forte que até o Marechal Floriano Peixoto, que ao pó já havia retornado, devia estar se sentido bastante incomodado.

Hoje, o Palácio Floriano Peixoto, devidamente restaurado e principalmente limpo, inserido num quarteirão coberto de belos jardins, é um belo museu na capital caeté. Nos fundos desse quarteirão ajardinado foi construído um prédio bonito, moderno, todo envidraçado, o Palácio República dos Palmares, nova sede do poder terreno no estado.

Mas além de sua crônica política sui generis as terras caetés também tem cultura e folclore. Como por exemplo, o pastoril, folguedo onde duas alas de moças, denominadas pastorinhas, disputam a simpatia do público dançando e cantando músicas que exaltam o nascimento do menino Jesus. Uma ala veste a cor azul e a outra a cor vermelha, coincidentemente as cores da bandeira do estado, e são denominadas de cordão azul e cordão encarnado.

No próximo final de semana, mais uma vez, estará em disputa o governo das terras caetés. Um dos concorrentes, candidato à reeleição, adotou como símbolo a cor azul enquanto o outro, ex-governador com dois mandatos, adotou a cor vermelha. Neste pastoril da política, falta bem pouquinho para sabermos se sairá do cordão azul ou do cordão encarnado o velho morador do novo palácio.

Enquanto isso, do outro lado da praça, morando numa construção imponente, apesar da degradação causada pelo tempo e pelo descaso, Nossa Senhora dos Martírios... Rogai por nós.

Aos meus amigos servidores da justiça eleitoral desejo muito sucesso nas atividades deste 2º turno de eleições, etapa importantíssima para a definição do futuro deste grande país, e a todos um bom final de semana e bom feriadão.

Saúde, luz e paz.

Virgílio Agra
(escrito em 28/10/2012)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Dieta de capim


Santana do Ipanema - 1970
Monumento ao jumento que tanto carregou água no sertão

(escrito em 20/10/2010)

Colegas de todos os hábitos alimentares

O Brasil vive atualmente, em regime de segundo turno, mais um processo de eleição do dirigente máximo do nosso grande país e, em alguns estados da federação, a eleição dos seus respectivos governadores. As eleições mexem com o país inteiro, torna-se a notícia do momento e disputa com o futebol e as notícias de catástrofes o espaço nos noticiários de norte a sul.

Apesar das eleições serem consideradas como o principal marco da democracia dos tempos atuais, há que se admitir que num país onde poucas pessoas dominam os meios de comunicação e de produção, o resultado final de uma eleição dificilmente refletirá a exata vontade de um povo. Se as elites econômicas do país têm a capacidade de influenciar as suas instituições, como duvidar da sua capacidade de manipular a vontade daqueles que votam dando ouvido muito mais ao ronco da barriga do que as "propostas" dos diversos candidatos?

No primeiro turno das eleições 2010, no estado de Alagoas, concorreu ao governo do estado, dentre outros, o Senador Fernando Collor de Mello que, após ter reavido os seus direitos políticos, elegeu-se senador da república em 2008. Lamentavelmente, no decorrer da campanha, um determinado apresentador de programa de televisão, o Senhor Ratinho, afirmou que mandaria para o estado de Alagoas um caminhão de capim, caso o povo caeté o elegesse governador.

Reconheço, naturalmente, o direito que tem o apresentador de expressar sua preferência política, sexual, gastronômica, esportiva, etc. Mas, o exercício do seu direito de expressão não o autoriza a ofender o povo do meu estado. Se o destemperado apresentador fizesse um breve exercício de observação, descobriria que, de norte a sul do país, concorriam às eleições muitos candidatos sem a menor condição cultural nem moral para o exercício de um cargo político. Apesar de que em todos os estados concorressem bons e maus candidatos, em vários deles sagraram-se vencedores candidatos de qualidades duvidosas. Apenas para exemplificar, permitam-me citar os casos dos Deputados Federais eleitos Romário no Rio de Janeiro e o palhaço Tiririca em São Paulo, cuja alfabetização é contestada. Votos de protesto? Será? Se assim fosse? Como se explicaria a eleição, também no estado de São Paulo, o estado mais rico do país, do Sr. Paulo Salim Maluf, velho conhecido da crônica da má política no Brasil?

Se formos listar os maus exemplos de escolha eleitoral, acredito que teríamos uma lista tão grande que este texto se tornaria até enfadonho, tal seria a sua extensão. Se a lista dos exemplos é tão vasta e nela consta maus políticos do país inteiro, por que apenas o estado de Alagoas merece receber tão desaforada oferta? Com certeza, por ser um dos menores e mais pobres estados do país. Talvez o "muito esclarecido" apresentador se encontre neste momento satisfeito pela ousadia do seu comentário maldoso, preconceituoso, arrogante e covarde. Mas, eu torno a perguntar: a quem se deve atribuir responsabilidades por possíveis más escolhas num país onde crianças se prostituem e pedem esmolas nos sinais de trânsito? Com certeza esta responsabilidade não cabe aos pobres, que, fragilizados pela miséria e pela opressão, não têm condições de se defender daqueles que com acenos e um punhado de dinheiro manipula suas consciências e "compra-lhes" os votos.

Sugiro ao dito apresentador que não se aproveite da liberdade de expressão para, usando o seu canal de televisão, vir ofender o sofrido povo do pequeno e esquecido estado de Alagoas. Ao invés disso, empregue sua "coragem", se é que ele a tem, para atacar indivíduos poderosos e, ao invés de enviar aos alagoanos a sua encomenda desaforada, mande para nós uma dose de respeito, elemento muito mais útil para todos os cidadãos deste grande país. Com relação ao seu caminhão de forragem, não o envie para outro estado, porque a vontade democrática de todos deve sempre ser respeitada. Sugiro aqui que ele mesmo o coma, pois, por ser o capim um vegetal rico em fibras, com certeza deverá ajudá-lo a perder um pouco das gorduras que enfeitam sua região abdominal, sinal da sua abastança financeira, não cultural.

Em tempo, por ter ficado em terceiro lugar no primeiro turno das eleições, o Senador Fernando Collor de Mello ficou fora da disputa pelo governo do estado de Alagoas. Naturalmente, o mesmo retornará ao exercício do seu mandato de senador e, nesta condição eu desejo, sinceramente, que trabalhe com dedicação e serenidade para o bem não apenas do meu pequeno estado como também para o bem do meu grande país.

Relutei bastante em escrever sobre esse assunto. Não se trata aqui de um ato de defesa de nenhum candidato, não importa que nome ele tenha. No entanto, quero deixar bastante claro que me posiciono exclusivamente como um cidadão alagoano ofendido com a agressão desferida contra a população do meu estado. Composta por pessoas que, ao cumprir o dever cívico de votar, têm que escolher entre as candidaturas inscritas, submetendo-se a todo tipo de assédio por parte das forças políticas do estado. Realidade encontrada, incontestavelmente, em todos os outros estados da federação.

Ainda no primeiro turno, enquanto a campanha rolava com o tradicional jogo de palavras dos candidatos, em terras caetés, na pequena Santana do Mundaú, cidade duramente atingida pelas enchentes de junho deste ano, a justiça eleitoral se esforçava para garantir aos cidadãos daquela cidade o exercício do sagrado direito de votar. Como as poucas escolas que escaparam da fúria da enchente ainda encontravam-se ocupadas pelos desabrigados, a solução encontrada foi instalar todas as 20 seções eleitorais da cidade em barracas. A Defesa Civil forneceu as barracas, o Exército Brasileiro montou-as e o pessoal da justiça eleitoral dotou-as das instalações mínimas necessárias para o funcionamento das urnas eletrônicas. Mesas, cadeiras e banheiros químicos foram alugados e, finalmente, no último dia 03 de outubro a população de Santana do Mundaú pode participar, em pé de igualdade com qualquer outra cidade, do maior evento da jovem democracia do nosso país.

Aproveitando a oportunidade para sugerir a todos uma dieta bastante equilibrada, desejo a todos os meus amigos uma ótima semana de trabalho.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra.

OBS: Já que estamos falando de capim e de cultura também, segue abaixo uma homenagem do grande Luiz Gonzaga a um irmão nosso e grande comedor de capim, lembrando que 2012 é o ano do centenário deste grande artista.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Na garupa de Lampião

Seu Arlindo Grande
Povoado Várzea – Paulo Afonso-BA
Foto gentilmente cedida por Luiz Ruben Bonfim

(escrito em 12/04/2010)

Colegas de todos os fascínios.

Ainda está para nascer no sertão nordestino, um cabra que nunca ouviu uma história sobre Lampião. Ao longo da minha vida, já tive oportunidade de ouvir, e contar, várias delas. Muitas das histórias contadas são, por essência, meramente lendas, outras, no entanto, trazem à mente as imagens do que era a vida naquele tempo.

Há uns anos atrás, juntamente com uns colegas, visitei o povoado de Várzea, no município de Paulo Afonso, lá no sertão baiano. Neste lugarejo fomos à casa de um senhor, conhecido como "Arlindo Grande", que conhecera Lampião quando da sua passagem pela região. Apesar da idade e de uma perda quase que total da visão, as lembranças dos tempos do cangaço eram bem claras na mente do velho sertanejo. Era em torno de três para quatro horas da tarde e o sol já declinava, de modo que a casa projetava sua sombra na calçada onde sentamos para ouvir uma história que se passou quando o velho sertanejo ainda era uma criança. Não fiz anotações ou gravações do relato, mas, se a memória não me trair, o caso foi mais ou menos assim:

Um dia, Seu Arlindo estava com outro garoto junto a um barreiro (espécie de pequeno açude que era escavado no chão para acumular água), e, se não me engano, estavam dando água para uns animais quando viram chegar um bando de homens armados. O outro garoto falou assustado:

 - Valei-me Nossa Senhora! É cangaceiro.

Os homens vinham montados em burros e se aproximaram rapidamente sem que os meninos pudessem esboçar qualquer reação. Os homens desceram das montarias e foram lavar os punhais nas águas do barreiro. A quantidade de sangue contida nas armas era tanta que as águas tingiram-se de vermelho. Após a limpeza dos punhais, percebendo que havia umas casas próximas, um dos cangaceiros perguntou:

 - Quem é o "Tenente" daqui?

 - É meu avô - respondeu Seu Arlindo.

Naquele estágio da história republicana do Brasil, em alguns estados da federação os administradores dos municípios eram chamados de Intendentes e em outros estados eram chamados de Prefeitos. Com o início da era Vargas a nomenclatura foi então uniformizada para o formato que conhecemos hoje. Ao perguntar pelo "Tenente", o homem referia-se na verdade ao Intendente do lugar. A Várzea àquela época era apenas uma fazenda no então município de Santo Antônio da Glória não sendo, portanto sede de uma intendência, mas o uso daquele título referia-se àquele cidadão que, por idade ou posses poderia ser reconhecido como autoridade do lugar.

O cangaceiro então ordenou que o menino montasse na garupa do seu animal e o conduzisse até o "Tenente". Quando o garoto montou no animal, tentou se segurar no cavaleiro e não conseguiu. Naquela época, a mochila como conhecemos hoje, não fazia parte dos apetrechos militares. Os combatentes, polícia ou cangaceiro, usavam bornais, de modo que dois bornais de um lado e outros dois do outro deixavam o indivíduo tão largo que os braços curtos do garoto não conseguiam abraçar a cintura do cangaceiro. Percebendo a dificuldade do menino o homem voltou-se para ele e disse com voz firme:

 - Se segura cabra. Que você tá se segurando em Lampião.

Foi aí que Seu Arlindo soube com quem estava falando.

Como a distância entre o barreiro e as casas era pequena, rapidamente o grupo lá chegou. O avô de Seu Arlindo, vendo o grupo aproximar-se, percebeu do que se tratava e, mesmo sendo um homem simples, soube transformar aquele encontro numa grande lição da arte de saber viver. Sabendo das brigas entre polícia e cangaço, o patriarca sabia que o futuro dele e dos seus familiares dependia de como ele iria se conduzir no encontro que estava prestes a acontecer. Quando o grupo chegou ao terreiro da casa Lampião logo perguntou:

 - O "sinhô" é o “Tenente” daqui?

 - Era eu Capitão.

Seu Arlindo apeou da montaria e Lampião fez o mesmo em seguida. O velho cumprimentou o cangaceiro e o convidou a entrar na casa. Apenas o chefe do bando entrou os demais ficaram do lado de fora. O que conversaram, nunca saberemos, mas após algum tempo, saíram para o alpendre e o visitante perguntou se o anfitrião poderia arranjar uma "criação" para alimentar seus comandados. Imediatamente o avô mandou que trouxessem o melhor carneiro que havia no cercado e o entregou.

Os cangaceiros eram organizados. Eles mesmos mataram o animal, tiraram o couro e retalharam a carne para o preparo. O homem que sangrou o carneiro, talvez tentando se exibir, talvez querendo impressionar os moradores do lugar, lambeu o punhal ensangüentado. Ao ver a cena, o Capitão levantou-se do alpendre, dirigiu-se até o cabra e deu-lhe uma enorme reprimenda.

 - Como é que você faz uma coisa dessas na frente de um homem que recebe a gente desse jeito?

Seu Arlindo disse que a descompostura foi tamanha que o cabra correu para dentro do mato para chorar escondido.

Em seguida os cangaceiros pediram um tacho e fritaram a carne de um modo que ele nunca havia visto. Quando a comida estava pronta foi servida de maneira muito organizada e bastante ordeira. Cada cangaceiro tirou de dentro do seu bornal um prato de ágata e uma porção de farinha e o grupo organizou uma fila para que cada um pegasse a sua porção de carne. Após a refeição todos descansaram um pouco até que o Capitão anunciou que iriam partir. Neste momento Lampião dirigiu-se ao patriarca e perguntou quanto custara o carneiro. Imediatamente o sábio sertanejo respondeu:

 - "Num custou nada não Capitão. No dia que o sinhô vortá aqui, nóis come outro".

Lampião agradeceu e posicionou-se com seus "meninos" para partir. Neste momento o avô de Seu Arlindo dirigiu-se a ele e fez uma sábia pergunta.

 - Capitão! A polícia vai saber que o senhor esteve aqui e vai vir atrás do senhor. Quando perguntarem para onde o senhor foi, o que eu devo responder?

 - Diga a eles que nos fomos por aqui - respondeu o Rei do Cangaço, apontando para a direção onde o grupo se dirigia.

Como era previsto, no dia seguinte após a visita dos cangaceiros, a polícia chegou ao povoado, coletou algumas informações e partiu.

Infelizmente, os capítulos seguintes da história não seguiram o mesmo padrão. Lampião passou outras vezes pela Fazenda Várzea sem molestar ninguém, mas as autoridades, incapazes de atingir os cangaceiros diretamente, voltaram sua ira para os moradores do lugar. O pai de Seu Arlindo foi preso acusado de ser coiteiro, sendo conduzido para a delegacia de Santo Antônio da Glória onde sofreu muitos maus-tratos. Talvez por conta disso o pobre homem morreu prematuramente deixando o filho órfão.

Diante do relato, perguntamos a Seu Arlindo Grande se ele não tivera vontade de ingressar no cangaço e ele respondeu que sim, mas não o fez porque sua mãe pediu muito que ele assim não fizesse, pois com a morte do seu pai ela só tinha o filho a quem recorrer. Caso ele entrasse para o cangaço ela iria passar sérias privações sem ter quem cuidasse da fazenda nem dos animais.

Durante a conversa perguntamos sobre sua impressão com relação aos cangaceiros que conhecera e ele demonstrou um grande fascínio para com Virgínio, vulgo Moderno, que era cunhado de Lampião. Lembro-me bem do comentário que ele fez, com seu jeito simples de falar:

 - Eu não vou dizer que Virgínio era um homem bonito, que um homem não acha outro bonito, mas ele era um homem de "presença" que quando chegava num lugar todo mundo notava. Eu gostava muito dele.

A conversa se estendeu mais um pouco, até que finalmente chegou a hora de voltarmos para casa. Nunca mais voltei ao Povoado da Várzea, nunca mais encontrei Seu Arlindo Grande e nunca mais esqueci aquela tarde de sol em que sentado à sombra numa calçada ouvi uma história que valeu a pena ser ouvida e também vale a pena ser contada.

Ao contar histórias do tempo do cangaço não tenho pretensão de enaltecer nenhuma das partes envolvidas. Há muito tempo me livrei desse dilema infame. O cangaço teve seu tempo e seu lugar. Tentar entendê-lo à luz da sociedade que temos hoje, só nos proporcionará uma visão distorcida de um fenômeno que precisa antes ser sentido para que então possa ser entendido.

Aproveitando a oportunidade para transmitir toda minha solidariedade aos meus colegas das terras cariocas que na última semana sentiram-se como se sentiu Noé, desejo a todos uma ótima semana, com chuva branda para amenizar o calor e sol brilhante para realçar a cor.

Saúde, luz e paz.

Virgílio Agra.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O frevo de Taquaritinga



(escrito em 07/03/2010)

Colegas de todos os lugares.

Nos tempos em que labutava no comércio, na cidade de Paulo Afonso, a capital da energia, lá no sertão baiano, conheci um cidadão, que todos conhecem até os dias de hoje, chamado de Zé da Ema.

Homem de baixa estatura, gordinho, cabelos penteados para trás e um bigode vistoso, Seu Zé da Ema era, e ainda é mestre de obras e eu o conheci à medida que ele ia à loja do meu pai para comprar materiais para as suas construções. Devido a um problema numa das pernas, quando caminhava o seu corpo balançava de um lado para o outro num movimento bem característico. Apesar de ter certa idade, sempre se mostrou bastante comunicativo e quando chegava ao balcão da loja brincava com os vendedores, cumprimentava todo mundo, sendo sua presença querida e muito agradável para todos. Apesar do seu espírito comunicativo nunca tive oportunidade, nem a liberdade, de perguntar-lhe a origem do seu singular apelido.

Houve uma época em que um dos filhos de Zé da Ema, chamado Marcos, trabalhou para meu pai. Após a saída de Marcos dos quadros da empresa, sempre que Seu Zé chegava ao balcão os vendedores sempre perguntavam pelo antigo colega. Numa dessas ocasiões um dos "meninos" perguntou:

 - Seu Zé? Cadê Marcos?

 - Tá em Taquaritinga.

Referia-se Zé da Ema à cidade de Taquaritinga do Norte, localizada no agreste meridional de Pernambuco, a cerca de 200 quilômetros de distância da capital Recife.

Logo em seguida outro balconista perguntou:

 - Seu Zé? Cadê Marcos?

 - Tá em Taquaritinga - respondeu mais uma vez.

O que Zé da Ema não esperava é que a partir daí o pessoal resolveu pregar-lhe uma peça e, cada um dos vendedores, um após o outro, dirigia-se a ele e fazia a mesma pergunta:

 - Seu Zé? Cadê Marcos?

E Zé da Ema já faltando paciência respondia para cada um:

 - Tá em Taquaritinga.

A partir desse dia Seu Zé da Ema nunca mais teve sossego, sempre que entrava na loja a turma começava a perguntar, de um por um, pelo paradeiro do seu filho sendo ele obrigado a dar sempre a mesma resposta a cada um deles:

 - Tá em Taquaritinga.

Com toda a sinceridade, acho que ele também gostava da brincadeira, tanto era que ele começou a inventar algumas respostas, antecipando-se às perguntas. Certa ocasião ao entrar na loja quando tentaram lhe fazer a tradicional pergunta, quando começavam a falar:

 - Seu Zé?

Ele sem dar tempo do sujeito terminar a pergunta respondia no ato:

 - Tá em Taquaritinga.

Outra ocasião ele entrou e um dos vendedores o cumprimentou e sapecou:

 - Seu Zé? Cadê Marcos?

Ele olhou para o rapaz e simplesmente fez um gesto mostrando a palma da mão, fazendo sinal que o aguardasse. Em seguida outro colega fez-lhe a mesma pergunta e ele repetiu o gesto. Conforme cada um dos funcionários da loja fazia a esperada pergunta ele simplesmente repetia o gesto, até que finalmente olhando em redor, perguntou:

 - Falta mais algum?

Diante da resposta negativa, dirigindo-se a cada um dos perguntadores, passou a apontar-lhes o dedo e sequencialmente foi repetindo:

 - Taquaritinga, Taquaritinga, Taquaritinga... Taquaritinga.

A brincadeira só acabou quando Marcos retornou da viagem. Acho que o pessoal gostava mesmo era de ouvir o nome da pequena cidade pernambucana.

Eis que, há uns quinze dias, assistindo ao Globo Rural, ouvi novamente falar da velha Taquaritinga. Para aqueles que pensam que notícia agrícola do nordeste brasileiro só é de seca, fome e sede, preparem-se. Localizada a cerca de 900 metros de altitude, a cidade pernambucana está produzindo um café orgânico de excelente qualidade voltado para o mercado internacional, especialmente, Estados Unidos, Japão e Noruega.

A arte de produzir café no sertão nordestino é bastante antiga. Percebendo que a planta do café era muito sensível ao calor e à luz do sol, os sertanejos plantavam os pés de café à sombra de outras árvores e preferencialmente em regiões mais altas onde o clima é sempre mais ameno, era o chamado café de sombra. O meu avô Virgílio tinha uns pezinhos de café no quintal para o seu próprio consumo, logo, não precisava comprar o produto para poder saborear uma xicrinha de café. O que eu não sabia, é que o café cultivado nessas condições é um café da variedade Arábica Típica e estas plantas são remanescentes das primeiras plantas de café que foram introduzidas no Brasil em 1727.

Como já foi dito, trata-se de um café especial, destinado ao mercado exportador. Desta forma, o café de Taquaritinga só pode ser saboreado em poucas cafeterias do Brasil, a exemplo de uma, situada em terras cariocas, cujo dono batiza cada café com o nome de um tipo de música que tenha exatamente cinco letras. Nesta cafeteria os cafés têm nomes de Valsa, Samba, Rumba e Conga. O café de sombra, lá das bandas de Taquaritinga, foi batizado pelo proprietário da cafeteria com o nome de Café Frevo, numa clara homenagem à típica música do carnaval pernambucano, mas, permitam-me uma pequena observação, acredito que o nome mais apropriado seria o de Café Forró, ritmo que representa com mais propriedade a região em que está inserida a pequena Taquaritinga do Norte.

Queridos colegas, aproveito a oportunidade para desejar a todos uma ótima semana de trabalho e em particular ao grande caeté Felipe Campos, o maior bebedor de café das Alagoas, que com certeza agora só vai ter sossego no dia em que puder tem um Frevo nos beiços e não nos pés.

Saúde, luz e paz.

Virgílio Agra.

PS: Falando em ema, lembrei-me do Canto da Ema, música composta por João do Valle, Aires Viana e Alventino Cavalcanti, interpretada e imortalizada na voz do paraibano Jackson do Pandeiro.

sábado, 22 de setembro de 2012

Tamarindo doce



(foto gentilmente cedida por Tio Tobias Medeiros, data provável 1905)

Clara Bella foi a minha trisavó, avó de minha avó materna.
Filhos: Tio Olavo, Tibúrcio (morreu solteiro), Tio Torquato, João Maurício (Tio Maurício) e meu bisavô Sebastião (Vozinho).
Francisca (Yayá) (filha), Maria Francisca (Mãezinha) (filha), Vovó Bella, Tia Adelaide (nora), Maria Sidona (filha do casal João Maurício e Adelaide) e Vozinha Olávia, esposa de Vozinho.
O menino é Gaspar, meu avô materno, filho de Consórcia (filha que não aparece na foto) e a menina é Dalva (filha do casal João Maurício e Adelaide)

(escrito em 03/02/2010)

Colegas de todos os doces e azedos

Poço das Trincheiras é uma cidade pequenininha na banda alagoana do sertão nordestino. Surgiu na beira do Rio Ipanema, espremida entre o rio e as várias serras que a cercam. É a terra da minha mãe e de metade dos meus antepassados. Durante muitos anos a sua população constituía-se de, praticamente, uma única família.

Quando eu nasci o meu bisavô, Sebastião Medeiros (Vozinho), ainda era vivo, mas confesso que não me lembro dele. Mas lembro-me, perfeitamente, de duas das suas irmãs, tias-bisavós minhas, que chamávamos de Mamãezinha e Madrinha Yayá. Quando íamos ao Poço tínhamos como obrigação ir a casa delas para pedir a benção.

 - “Bença” Mamãezinha? “Bença” Madrinha Yayá?

 - Deus lhe abençoe meu filho.

Após pedir a benção, lembro-me de duas coisas que me atraíam muito, uma delas era uma caixinha de música, daquelas que tinha que dar corda. Eu ouvia repetidamente aquela musiquinha e quando a engrenagem parava de funcionar eu dava corda novamente com muito cuidado para não quebrar a delicada geringonça. A outra coisa que atraia minha atenção era um grande pé de tamarindo que tinha no quintal da casa. Quem já provou uma fruta de tamarindo sabe o quanto é azeda, mas os tamarindos da casa de Mamãezinha fugiam a esta regra. Além da sombra generosa que a árvore proporcionava, os seus frutos eram surpreendentemente doces.

O tamarineiro é uma árvore de origem africana. Ao contrário de outras árvores nativas de regiões áridas, essa espécie tem um porte alto, copa bastante frondosa, tronco bem grosso e além dos frutos, ideais para sucos, sorvetes e licores, proporciona uma ótima sombra. A sombra num lugar como o sertão nordestino é algo tão importante que é comum, vários povoados e cidades terem surgido exatamente nos locais onde havia uma árvore que proporcionasse uma boa sombra. Neste contexto os pés de tamarindo deram grande contribuição às gentes do sertão. A cidade de Floresta, por exemplo, lá no sertão do Pajeú, ficou conhecida como a Cidade dos Tamarindos devido a predominância desta espécie na arborização da cidade. Naquele tempo, o Poço das Trincheiras também não fugia a esta regra, tendo várias dessas árvores plantadas na sua única rua, mas nenhum era igual àquele que havia no quintal da casa de Mamãezinha e de Madrinha Yayá.

Há pouco tempo atrás descobri que minhas tias-bisavós tinham os nomes bem parecidos, Mamãezinha chamava-se Maria Francisca e Madrinha Yayá chamava-se Francisca. Apesar de serem solteironas, puderam exercitar os seus instintos maternos à medida que criaram um sobrinho de nome Gaspar, que veio a ser o meu avô, e também Celeste, filha do cangaceiro Corisco e da cangaceira Dadá.

Por conta do tipo de vida que levavam, os cangaceiros não podiam criar os filhos que geravam. Por isso, quando as crianças nasciam eram encaminhadas a pessoas que pudessem proporcionar a elas um futuro mais promissor. Curiosamente, os bebês eram normalmente acompanhados por um bilhete que, via de regra, citava que as crianças não tinham culpa pelos erros dos seus pais. Quando Celeste nasceu, Corisco escreveu para o meu bisavô pedindo que cuidasse da menina. Vozinho atendeu ao pedido, fez para Celeste às vezes de pai, enquanto suas irmãs fizeram com muito carinho o papel de mães.

Naquele tempo uma das atividades principais do sertão era a criação de gado. O sistema de criação daquele tempo era bem diferente de hoje em dia. As terras normalmente não tinham cercas e os animais vagavam livremente, sem conhecer limites nem fronteiras, buscando sempre um lugar onde o pasto ou a rama estivessem mais frescos sem que houvesse distinção de quem era o dono da terra ou do animal. Periodicamente, os criadores montavam os seus cavalos e, em grupo, embrenhavam-se na caatinga para campear e reunir todo o gado. Se uma rês apresentava uma doença ou bicheira era então medicada e ao encontrar um bezerro, era só observar em que vaca ele mamava para então marcá-lo na orelha identificando o seu respectivo dono. Quando o bicho se tornava adulto, então era ferrado.

A minha família tinha uma grande área de terras situada rio acima, na direção do vizinho estado de Pernambuco, denominada Sítio Belém. Numa dessas operações de lida com o gado meus tios notaram que faltavam algumas reses de Madrinha Yayá. Um acontecimento desses poderia ser fruto dum ataque de onça, cobra ou mesmo uma doença, mas como as carcaças dos animais não foram encontradas a conclusão não poderia ser outra, o gado fora roubado.

Tio Torquato, um dos irmãos do meu bisavô, resolveu investigar o caso e terminou descobrindo que na feira de Águas Belas, município pernambucano vizinho, foi comercializado o couro de uma rês com a marca de Madrinha Yayá. Quem comprou o couro sabia de quem tinha comprado e, seguindo essa pista, meu tio-bisavô terminou descobrindo o ladrão do gado. Tio Torquato era um homem muito disposto, foi atrás do cabra, prendeu-o e o levou amarrado até o povoado de Poço das Trincheiras. Lá chegando amarrou-o num pé de tamarindo que tinha na rua.

A sombra de uma árvore daquela, tão agradável no calor do sertão, sempre foi o foco de reuniões amigáveis, mas naquela circunstância, para aquele sujeito, a sombra daquela árvore era um prenúncio nada alentador. Naquela época, fim do século XIX, no mínimo uma boa surra ele levaria. Mas coisa pior poderia, com certeza, acontecer. O cabra numa situação daquela não estava preocupado se os frutos do tamarindo eram doces ou azedos, porque o gosto que ele sentia na boca, certamente, era bem amargo. Naquele momento a sua sorte estava nas mãos de Deus.

A notícia se espalhou e logo, logo, uma pequena multidão se formou ao redor daquela árvore. Todo mundo queria ver a cara do ladrão de gado e muito se especulava sobre o seu futuro. Madrinha Yayá ouviu o tumulto, botou a cara na porta e vendo a multidão ao redor do pé de tamarindo procurou saber o que se passava. Qual não foi sua surpresa quando soube que ali se encontrava o ladrão das suas reses. Vendo aquela cena, o homem amarrado como se fosse um bicho, humilhado e com uma perspectiva tenebrosa pela frente o coração da minha tia ficou bem apertadinho. Chamou o irmão e pediu que soltasse o homem. Tio Torquato negou na hora e alegou que o ladrão tinha que pagar pelo que fizera. É certo que eles discutiram, mas percebendo que seu irmão não iria atendê-la pelo seu humanismo, Madrinha Yayá falou firme:

 - O gado é meu. Quem perdeu foi eu e eu quero que solte o homem.

Tio Torquato era homem para enfrentar qualquer tipo de homem, mas não tinha forças para enfrentar nem desgostar sua irmã. Não encontrando outra alternativa, a contragosto, soltou o cabra e olhando bem para ele disse:

 - Vá-se embora, mas não roube mais.

E o sujeito entrou de caatinga a dentro nunca mais aparecendo.

Atualmente, no quintal da casa da minha mãe, lá no sertão baiano, na beira do Velho Chico, tem dois pés de tamarindo gerados de sementes que foram trazidas do quintal de uma certa casa do município de Poço das Trincheiras. Certo dia, um visitante, amigo do meu pai, provou daquele fruto e sugeriu que a planta havia sido adubada com açúcar, para poder produzir frutos com aquela qualidade. Certamente, aquela fruteira foi adubada com açúcar, mas não o açúcar de cana, e sim, um açúcar diferente, capaz de abrandar corações e capaz de adoçar até mesmo um azedo tamarindo.

Estando muito feliz por ter recebido em terras caetés a caeté honorária Flávia Vidal e família, espero que todos possam também ter adoçados os azedos e amargos do dia-a-dia de cada um. Até as próximas saudações.

Saúde, luz e paz.

Virgílio Agra.

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