sábado, 15 de setembro de 2012

Água de juá


Juá, o fruto

(Escrito em 10/01/2010)

Colegas de todos os goles

Qual a sua cerveja favorita? No mundo globalizado onde existem várias opções deste produto, tanto nacionais como importadas, não deixa de ser pertinente uma pergunta como essa, mas em tempos passados, em vários pontos do interior deste grande país, cerveja era uma bebida tão exótica quanto o amazônico açaí, que atualmente está em moda nas grandes cidades e ainda é desconhecido nas cidades do interior.

Em dezembro fui a Paulo Afonso, passar o natal com meus pais e beber um pouco da água do Velho Chico. Casualmente, encontrei com Petrúcio, um velho amigo que trabalhou muitos anos na Companhia Hidro Elétrica do São Francisco e hoje goza da sua bem merecida aposentadoria.

Petrúcio é natural de Água Branca, cidade situada numa região de serras que compõe a parte oeste do estado de Alagoas, e está a 570 metros acima do nível do mar. Por conta da altitude toda a região serrana tem um clima diferenciado em relação ao sertão que a circunda, de modo que lá existe uma boa produção de frutas e cana-de-açúcar o que proporcionou, em tempos passados, o surgimento de muitos engenhos para a produção de rapadura.

Apesar do micro-clima das regiões de serras proporcionar condições para a produção de espécies cujo cultivo seria simplesmente impossível nas terras mais baixas e secas, não existem grandes diferenças na flora predominante em ambas as regiões. A vegetação do sertão é assim, composta de cactáceas como mandacaru, facheiro, xique-xique e coroa de frade, árvores para produção de madeira e lenha como catingueira, mulungu, caraibeira, baraúna, aroeira e pau d’arco, além de fruteiras nativas como umbuzeiro, quixabeira e juazeiro.

O juazeiro é uma árvore que, independentemente da intensidade da seca, mantém uma copa firme e suas folhas sempre estão verdes. Seus frutos são redondos, pequenos e produzidos fartamente. Normalmente são doces, mas sempre produzem na boca um leve amargor. O sabor amargo devesse ao fato do juazeiro ser rico em saponinas, uma substância de efeito detergente, antifúngica e antiinflamatória, com eficácia comprovada na higiene bucal. Atualmente as indústrias farmacêuticas e de cosméticos utilizam os seus princípios ativos na composição de diversos produtos. O sertanejo que secularmente já conhecia as propriedades terapêuticas da árvore, na falta dos cremes dentais, usava o pó da casca da árvore para escovar os dentes ou fazia infusão para bochechos ou gargarejos contra afecções da boca e garganta.

No encontro que tive com o amigo, após as tradicionais perguntas sobre como vai a família e coisa e tal, relembramos uma história que ele havia me contado há alguns anos atrás e não pudemos deixar de dar algumas risadas.

Contou-me Petrúcio que, quando ainda era rapaz, morava num sítio na zona rural de Água Branca. Certo dia, ele foi a um casamento na redondeza. Um casamento no sertão era festa boa. Mesmo não sendo rica, a família da noiva esmerava-se por receber bem os convidados. Receber bem significava uma mesa farta, com aquilo que o sertanejo tinha de melhor a oferecer: carne a vontade, galinha de capoeira gorda, um carneiro, buchada, feijão de corda, arroz e pirão. Para animar: um sanfoneiro, um salão para dança e uma rodada de cachaça para "esquentar a titela" (esquentar o peito). Após a cerimônia religiosa a festa começou até que, em dado momento, um dos padrinhos convidou a todos para conhecer uma novidade que ele trouxera da cidade para os convidados da festa. Uma vez dita a palavra NOVIDADE, todos se interessaram em acompanhar o homem que se dirigiu a um depósito que fazia parte das instalações da propriedade e encontrava-se fechado até então. Ao abrir a porta do tal depósito o homem caminhou na direção de uma estranha caixa de madeira cheia de garrafas que estava colocada num canto do salão. Tomando uma das garrafas na mão o homem explicou a todos que aquilo era uma bebida chamada CERVEJA e diante da admiração de todos tirou do bolso um abridor de garrafas e abriu a primeira delas. Considerando-se a temperatura em que se encontrava a bebida o resultado não pode ser outro, a cerveja espumou e começou a subir pelo gargalo da garrafa. Imediatamente o homem começou a colocar o líquido espumoso nos copos dos convidados. Aqueles que vertiam os copos imediatamente só bebiam espuma e aqueles que esperavam a espuma se desfazer descobriam que o líquido resumia-se a apenas alguns milímetros no fundo do copo. Decidido a impressionar a matutada em redor e mostrando ser um "profundo" conhecedor de cerveja, o portador daquela novidade começou então a balançar as garrafas antes abri-las. A partir de então, quando retirava as tampinhas, a garrafa dava um pequeno estouro, a espuma então subia com mais pressão e todos davam gritos de alegria e colocavam os copos para mais uma rodada de espuma. Petrúcio, no meio daquele povo todo, provou da bebida e com aquele jeito de quem tenta estabelecer uma comparação com um sabor já conhecido disse:

 - Oxente! Parece com água de juá.

Por incrível que pareça, eu que já tive oportunidade de me escovar com a raspa da casca do juazeiro posso confirmar, seu gosto amargo realmente lembra o sabor da cerveja.

Pois bem caros colegas, enquanto desejo a todos uma ótima semana de trabalho, espero que, entre as atribulações de cada um, possa sobrar um tempinho para tomar uma cervejinha gelada, da marca que melhor apetecer e com um pequeno colarinho para não perder a elegância. Mas atenção, se for dirigir não beba e se for beber me chame.

Saúde, luz e paz.

Virgílio Agra


Juazeiro, a árvore



O juazeiro é uma árvore tão marcante na cultura sertaneja que cidades importantes foram batizadas com o seu nome. Além disso, esta árvore também já foi inspiração para músicas como "Juazeiro" de Luiz Gonzaga.

Fruto dessa sinergia entre árvore, cidades e música surge um verdadeiro clássico da música nordestina, "Juazeiro Petrolina", composta em 1978 por Jorge de Altinho, gravada inicialmente pelo Trio Nordestino, e aqui interpretada por Elba Ramalho, natural de Conceição - PB e Geraldo Azevedo, da própria Petrolina.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Paradinha no réveillon



escrito em 03/01/2010)

Colegas de todos os lugares.

Após um pequeno recesso pré e pós-natalino, estou eu aqui novamente, ajudando a entupir as suas caixas postais, enviando as saudações deste simples caeté.

Vocês podem até não acreditar, mas trabalhei bastante nos últimos dias do ano que terminou. Porém, pude usufruir de um natal maravilhoso, lá no sertão de Paulo Afonso, junto com minha esposa e filhas, meus pais, irmãs, cunhados, tia e sobrinhos, uma benção da qual não deixo de me orgulhar.

Espero que todos tenham tido um ótimo natal e um bom réveillon também. Eu, particularmente, não tenho do que me queixar. Na virada do ano a natureza foi mais uma vez generosa com a terra dos caetés, proporcionando uma noite de céu limpo, onde a luz da lua cheia pode refletir nas águas calmas da praia de Jatiúca, proporcionando um espetáculo contínuo e belo na última noite de 2009.

Após ter sido agraciado com uma noite maravilhosa à beira mar, junto a amigos e parentes, comemorando o fim de mais um ano e o início de outro, não posso deixar de lamentar os fatos que aconteceram no litoral fluminense e paulista por conta das fortes chuvas que lá ocorreram.

A bem da verdade, a noite de réveillon na capital caeté não foi livre de incidentes. Mas um deles, o mais pitoresco, foi a realização da primeira queima de fogos com "paradinha" do mundo. Quando a Prefeitura anunciou que "Na Ponta Verde vai haver uma queima de fogos com 15 minutos", eu logo me animei e pensei:

 - Vai ser arretado. Pé na areia, brisa do mar, lua cheia, champanhe e 15 minutos de fogos de artifício. Tudo estará perfeito.

O que eu não poderia imaginar é que, ao elaborarem o anúncio dos fogos, os marqueteiros apagaram a parte final da oração que originalmente foi assim elaborada:

 "Na Ponta Verde vai haver uma queima de fogos com 15 minutos, de atraso”.

Eu já ouvi falar de fuso horário e horário de verão, mas parece que desta vez conseguiram unir os dois e criaram o "horário confusão".

Através de um telão montado por um barraqueiro, do qual alugamos cadeiras de praia, assistimos a contagem regressiva da Rede Globo. Todo mundo abriu suas garrafas de espumante, o Hotel Jatiúca, próximo do local onde nos encontrávamos, iniciou sua queima de fogos para o nosso deleite e, graças aos recortes do litoral norte de Alagoas, podíamos assistir ao longe a queima de fogos dos hotéis situados na praia de Ipioca. Mas, ao olharmos na direção da praia de Ponta Verde, só víamos o piscar ritmado do simpático farol da Marinha do Brasil. Após terminado todos os fogos, esvaziadas todas as garrafas de Sidra e quando muitos já estavam deixando as areias e voltando para o calçadão, eis que de repente, como uma fênix que renasce das cinzas, a barcaça ancorada no ponto mais chic do litoral da capital alagoana começou a jogar para os céus luzes e estrelas coloridas. Finalmente, a barcaça dos fogos resolveu funcionar.

Muita gente saiu falando e reclamando, mas eu mesmo achei foi bom, pois pela primeira vez pude assistir a duas queimas de fogos no mesmo réveillon.

Eu não sei exatamente o que aconteceu. Vocês sabem que eu não gosto de fofoca, mas uma pessoa me falou que o fogueteiro se abufelou com uma turista italiana e, enquanto parlava d'amore e dava um nhoque na gringa, o fogo que ele acendeu não servia para queimar o pavio dos fogos. Se foi ou se não foi eu não sei, mas, com certeza, muitas outras versões existem para explicar o fato.

Colegas de norte a sul, um grande abraço a todos. Quero desta vez não apenas desejar uma ótima semana, mas um ano inteiro de muito sucesso para todos.

Um ano com muita saúde, luz e paz.

Virgílio Agra

domingo, 2 de setembro de 2012

Mirinda, Mirindão e refrigerante



(escrito em 08/12/2009)

Colegas de todos os paladares.

Quando em 1973 fui estudar no Recife, não passava de um menino matuto e besta, que saia das bancas do Instituto Sagrada Família, escola que tinha no máximo duzentos alunos, em Santana do Ipanema, interior de Alagoas, para estudar no Colégio Nóbrega, uma escola que tinha milhares de alunos desde o Jardim da Infância até o antigo Segundo Grau, hoje ensino médio. Após sete anos estudando neste histórico colégio completei o ensino médio em 1979, de modo que, no último final de semana, fui a capital pernambucana me encontrar com velhos colegas de colégio e comemorar os trinta anos de conclusão daquele período escolar.

Santana do Ipanema tinha àquela época em torno de 30.000 habitantes, enquanto que Recife já abrigava milhões de almas, prédios altos, multidões nas ruas, tráfego intenso, semáforos e televisão (em preto e branco, diga-se de passagem), cuja programação começava no início das tardes. À noite, as luzes dos anúncios luminosos refletiam nas águas do Capibaribe formando imagens dignas de um caleidoscópio gigante. Chegando a cidade, cruzando o Distrito Industrial do Curado, as indústrias ali instaladas anunciavam o peso econômico da cidade e algumas indústrias me chamavam particularmente a atenção como a indústrias de pilhas Ray-O-Vac, as amarelinhas, e a fábrica de sorvetes da Maguary. A primeira por ter uma pilha enorme bem na frente da fábrica e a segunda pela lembrança do sabor dos seus deliciosos sorvetes.

Espalhadas por vários pontos da cidade havia outro tipo de indústria que atraia muito a minha atenção, eram as fábricas de refrigerantes. No Recife existiam várias delas como a Coca-Cola, Crush, Clipper, Fratelli Vita e Mirinda. A Coca-Cola tinha uma fábrica na Jaqueira onde uma grande vidraça permitia que os transeuntes pudessem ver a máquina onde as garrafas passavam para receber o refrigerante e suas respectivas tampinhas. Uma outra, acho que era a Clipper, tinha a fábrica de frente para a Avenida Cruz Cabugá, onde o espetáculo da linha de produção também podia se apreciado por todos. Quando fui morar na capital das terras mamelucas já conhecia todas aquelas marcas de refrigerantes, exceto uma, a Mirinda.

De lá para cá muita coisa mudou. A fábrica de sovertes Maguary foi incorporada pela Kibon que por sua vez foi incorporada pela multinacional Unilever enquanto que a indústria de refrigerantes passou por profundas modificações. As pequenas fábricas de refrigerantes foram compradas pelas multinacionais, as garrafas de vidro foram substituídas pelas latas e pelos vasilhames de plástico e, como que simbolizando o crescimento dessas indústrias, surgiram as garrafas de tamanho família, 1 litro, 2 litros, litrão, litraço e outras coisas mais. No entanto, lá na distante Santana do Ipanema, já havia, há muitos anos, uma Mirindão, só que não era uma bebida e sim uma mulher.

Mirindão era louca e mendigava pelas ruas de Santana e, infelizmente, vivia sendo atormentada pelos moleques que insistiam em apelidá-la. Nunca soube qual o seu verdadeiro nome, mas, segundo uns velhos amigos do bairro da Maniçoba, ela detestava a alcunha de Mirindão. Todos os dias, na ida, ou na vinda da escola, quando a molecada avistava a pobre coitada começava o jogo de gritar o seu apelido.

 - Mirindão - gritava um.

 - Mirindão - gritava outro.

A coitada se aperreava, gritava um monte de palavrões, atirava pedras e nada fazia os meninos pararem. Finalmente, como último recurso contra os gritos da molecada, posicionava-se bem de frente para os meninos e levantando a saia com as duas mãos; gritava:

 - Olhe aqui o mirindão.

Era o que os meninos queriam. Após apreciarem o "click" paravam a gritaria e saiam sorrindo e satisfeitos para os seus destinos.

A fábrica da Mirinda fechou antes que eu tivesse oportunidade de provar o seu produto, logo, eu nunca provei Mirinda. Também nunca conheci pessoalmente Mirindão, mas, a bem da verdade, desde que provei a fruta pela primeira vez nunca mais deixei de gostar de refrigerante.

No último sábado, após um passeio com minha filha Janaína no Parque da Jaqueira, perto da antiga fábrica da Coca-Cola, paramos num mirante às margens do Rio Capibaribe para apreciar a vegetação de mangue que agora delineia todo o percurso do velho rio. Falei para ela das modificações da paisagem urbana da cidade e disse-lhe que, quando fui morar naquela cidade, os mangues eram indesejados porque, entre outras coisas, impediam que as pessoas vissem o reflexo das luzes nas águas do rio. Nos novos tempos o conceito de beleza urbana mudou e o verde das plantas é extremamente valorizado.

À noite, durante o encontro em que comemorávamos os trinta anos da conclusão do nosso período colegial, curiosamente, comentávamos sobre nossos filhos que estão nos dias de hoje completando esta fase das suas formações. O tempo passou e um novo ciclo se formou, mas, apesar do efeito que o tempo provocou sobre a cor, ou a quantidade dos nossos cabelos, o prazer de viver cultivando boas amizades é cada vez melhor, como uma fruta que amadurece no pé.

Colegas, aproveitando a oportunidade para desejar a todos uma ótima semana, gostaria de felicitar Janaína que hoje está completando mais um aniversário e também minha filha Juliana que ao concluir o seu ensino médio completa um ciclo que um dia comecei e também concluí.

Saúde, luz e paz.

Virgílio Agra.

PS: Dentre as marcas e nomes que marcaram os meus tempos de Recife, um deles foi o das Casas José Araújo, "onde quem manda é o freguês". Só a título de lembrete, vai aqui uma antiga propaganda dessa loja que transformou-se num grande sucesso carnavalesco, uma colaboração do meu compadre Evaldo, grande folião do incomparável carnaval de Olinda.


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Bundas de cavalo

Revolução de 1932
Soldados montam guarda no Túnel da Mantiqueira

(escrito em 20/09/2009)

Colegas de todos os tamanhos.

As Saudações Caetés não são nada mais, nada menos, do que uma forma de manter contato com todos vocês. Contar causos ou comentar os acontecimentos da atualidade é só a desculpa para puxar conversa e mandar notícias, como se estivéssemos numa roda de bate-papo. Mas o que seria de uma boa rodada de conversa se não tivesse o famoso: "Sabe o que fulano(a) me contou?". Pois bem, é seguindo essa linha de raciocínio que hoje vou encaminhar para vocês um ótimo texto escrito por uma amiga lá das bandas das terras cariocas.

Lembram-se que da última vez que nos encontramos eu contei uma história que envolvia estação, trem, forró, oxente e baitola? Pois bem, em resposta ao mesmo recebi um texto que vem lá das bandas das terras cariocas, escrito pela caeté honorária e arquiteta Patrícia Uribbe que, por estar dentro do espírito deste espaço, não me contive e decidi contar para todo mundo, assim, sem pedir autorização nem nada. Vejam e apreciem:

"Realmente a gente nem imagina de onde vêm determinadas coisas, desde expressões até medidas ou hábitos. Lendo seu texto sobre a construção das ferrovias, lembrei de outro muito interessante que narrava como as primeiras ferrovias aproveitaram túneis originalmente abertos para a passagem de carroças puxadas por um par de cavalos. Disso resultou que as dimensões de muitas coisas foram limitadas pela bitola dos trens, até mesmo foguetes espaciais - cujo diâmetro não podia ultrapassar duas bundas de cavalo!

Outro fato interessante é a mão inglesa: os cavaleiros, que trafegavam pelas estradas sem saber quando encontrariam um inimigo, costumavam ir pela esquerda para que o coração ficasse mais protegido de um possível ataque. Essa foi a "mão" dominante até que Napoleão, ao conquistar grande parte da Europa, inverteu-a propositadamente para afirmar sua dominação sobre os territórios conquistados. Napoleão, aliás, não foi vitorioso apenas por acaso ou sorte: observando as batalhas, percebeu que havia uma grande perda na operação dos canhões. Nessa época, eram feitos em formas de barro, que eram preenchidas com metal derretido. Para tirar o canhão da forma era preciso quebrá-la, de maneira que não havia dois iguais. Grande parte das bolas simplesmente não entrava no canhão na hora H. Para completar, cada um tinha o seu atirador, que já conhecia o desvio usual daquele canhão e compensava na hora de mirar. Caso abatido, o novo atirador, por mais experiente que fosse, levava um tempão até conseguir acertar alguma coisa. Entre as muitas invenções de Napoleão está a forma que se abre, para fazer objetos em série, utilizada até hoje para os mais diversos fins, de armas a pentes de cabelo. Padronizando a produção de armas, sua vantagem sobre os oponentes foi tamanha que tornou-se um dos maiores conquistadores da história graças a seu engenho. Inventou também a medida padronizada, o metro, pois até então todas eram antropométricas: braças, pés, etc. - variavam conforme o indivíduo.

Ou seja, os foguetes são limitados pelas bundas, e se hoje andamos à direita na rua, é justamente porque o melhor era mesmo andar pela esquerda. Vá entender!!! Oxente!

Um grande abraço."

Um grande abraço para você também, Patrícia. O espírito deste espaço é o da troca de informações, curiosidades e bom humor. Muito obrigado pela sua contribuição. Fique a vontade para nos presentear sempre que quiser com seus ótimos textos.

Colegas, mais uma vez gostaria de mandar um abraço e desejar uma ótima semana para todos. Esperando que diante das agruras e percalços desta vida, cada um de vocês possa encontrar um local devido, adequado e seguro onde caiba pelo menos a sua bunda.

Saúde e paz.

Virgílio Agra.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Otília e o Xagado


Otília - 1973
Foto gentilmente cedida por Olivan Medeiros

(escrito em 22/11/2009)

Colegas de todas as cores.

Quando garoto costumava ir com meus pais a Poço das Trincheiras, a terra natal da minha mãe. Distante apenas 12 quilômetros de Santana do Ipanema, a pequena cidade está situada à margem do Rio Ipanema um pouco acima no curso do rio.

Íamos, regularmente nas datas comemorativas como Festa de Reis, Dia de São Sebastião, o padroeiro do lugar, e Dia de Finados, quando reverenciávamos as várias gerações dos nossos antepassados que viveram e lá morreram. Mas, na maioria das vezes, íamos simplesmente para visitar os parentes já idosos como minhas tias-bisavós, pelas quais dedicávamos uma atenção especial porque foram elas que criaram o meu avô Gaspar. Seus nomes eram Maria Francisca e Francisca, mas eram conhecidas como Mamãezinha e Madrinha Yayá, respectivamente. Além destas, visitávamos sempre outra tia, irmã da minha avó, chamada Donatila, a qual chamávamos de Titila.

Quando eu era menino, Titila já era viúva e tinha duas filhas: Tarcísia e Nanci. Da primeira lembro-me bem, mas de Nanci, infelizmente, guardo poucas lembranças. Lembro também que na casa da minha tia havia uma empregada chamada Otília, uma mulher mestiça, de corpo esguio, cabelo pixaim e a pele escurecida, não necessariamente negra, mas sim com as características que compõem o biótipo, próprio do povo sertanejo, tão bem descrito pelo grande Euclides da Cunha.

Não sei exatamente onde Otília nascera, mas é sabido que ela chegou ao Poço das Trincheiras ainda menina, proveniente de uma comunidade próxima e que era filha de Dona Generosa. Sendo mulher, pobre e analfabeta, vivendo numa comunidade que se orgulhava de uma ascendência holandesa, no início do século passado, não coube a Otília outro ofício senão o de empregada doméstica. Trabalhou em casas de várias pessoas como Mamãezinha, Tia Adelaide e finalmente Titila.

Otília era meio alvoroçada do juízo, mas o coração era tão grande que não sei como cabia no peito e foi uma presença marcante na história da nossa família. Conta minha mãe que nos seus tempos de menina havia uma porca grande que, não se sabe por que, era chamada de “Generosa”, o mesmo nome da mãe de Otília. Um belo dia chegou a hora de “Generosa” virar toucinho e, quando Otília viu a porca morta, abraçou-se com ela e chorava dizendo:

 - Minha mãezinha! Mataram minha mãezinha.

Ela era bastante religiosa, mas com sua espontaneidade não escapava de cometer alguns deslizes. Certa ocasião ela estava assando castanhas de caju usando a técnica milenar de jogá-las no fogo para que o óleo causticante que envolve a amêndoa pudesse ser eliminado. As castanhas estavam estourando, lançando umas labaredas de fogo alimentadas pelo óleo, até que uma pequena gota foi arremessada bem no olho de Otília. Felizmente não provocou maiores danos, mas a dor foi tão grande que ela no desespero apelando para os céus gritou:

 - Valei-me Nossa Senhora do C... da Peste!

Mamãe conta que nos seus tempos de menina, quando não havia certas comodidades como televisão e muito menos energia elétrica, Otília reunia a criançada para contar "histórias de Trancoso". Mas ela não contava uma história simplesmente, dava sim um verdadeiro espetáculo, porque ela teatralizava toda a narrativa. Fazia as vozes dos personagens, gesticulava, alterava sua fisionomia, levantava-se e gritava de modo tal que prendia a atenção de todas aquelas crianças. Um belo dia, quando o repertório esgotava-se, ela contava novamente as mesmas histórias que já havia contado anteriormente.

Na sua teatralidade espontânea alterava o enredo das histórias, criava novos personagens, novas situações e a meninada... adorava. Mamãe diz que eram muitas histórias, mas uma delas parece ter sido a favorita das crianças, pois elas sempre pediam para Otília contar, era a história do Xagado. Não me perguntem como era essa história, pois nem minha mãe, que a ouviu inúmeras vezes, consegue lembrar. Motivo: Cada vez que Otília contava a história, contava de um jeito diferente.
Às vezes, uma criança maior lembrava-se da versão anterior e tentava corrigir a contadora, mas ela argumentava logo:

 - Você num sabe como era não! É do jeito que eu tô contando.

Mas aquela figura que tanto se empolgava para contar histórias, sabia também expressar carinho e afeto com o seu jeito simples e sincero de falar. Ainda me lembro, que quando era menino, Otília olhava para mim e com sua voz grave dizia para minha mãe:

 - Vige minha "rimã" (irmã), como é bonitinho "Vrigilinho". Hein, hein! Que benza Deus.

Onde quer que estivéssemos, a presença de Otília era motivo de alegria, pois ela logo tornava-se o centro das atenções. Quando já rapaz, lembro-me de um dia em que estávamos eu, minha mãe e minhas tias tirando a palha de umas espigas de milho verde, na casa da minha avó e Otília resolveu contar uma história de um "trovão de estralo". Não houve quem não prestasse atenção e nem quem conseguisse ficar sério com o jeito dela contar. Otília era em essência uma verdadeira artista popular e trabalhava como empregada doméstica na casa da minha tia Donatila.

Otília nunca se casou, nunca teve filhos e muitos foram os anos em que serviu à casa de Titila. Minhas primas tornaram-se professoras e foram morar na capital. Com as filhas morando longe e os sobrinhos e sobrinhas também, minha tia percebeu que ela e Otília tinham apenas a companhia uma da outra e a relação entre ambas foi cada vez mais se estreitando. Com o passar dos anos Otília passou a ocupar um dos quartos da área social da casa e este era o quarto vizinho ao de minha tia. Lembro-me que as vezes as duas brigavam uma com a outra, mas nunca nada sério, apenas teimosia. Curiosamente, uma tratava a outra pelo mesmo apelido carinhoso: Tilinha.

Um dia Otília estava sentada numa cadeira e aquele seu coração enorme simplesmente parou. E foi assim, sem gestos, falas ou qualquer teatralidade que ela se foi. Minhas primas acolheram Titila e cuidaram dela até que um dia esta também partiu. Partiu para encontrar-se com Tilinha, e lá no céu, quando a encontrou, muito provavelmente estava contando a história do Xagado para os anjos e querubins.

Lembrando que a semana que passou foi comemorado o Dia da Consciência Negra, gostaria aqui de prestar minha sincera homenagem a esta mulher mestiça, meio branca, meio negra que fez a alegria de tantas crianças e que, com sua simplicidade e inocência infantil, conquistou o carinho e o respeito de toda a família a qual tanto serviu. Hoje, eu não consigo pensar em Otília como uma criada. Ela é uma figura que faz parte não apenas da história da minha família, mas é parte dela própria, não podendo jamais ser separada ou mesmo esquecida.

Na semana passada contei a história do Festival Universitário de Música do DCE-UFAL, e que eu havia comprado o LP com as músicas do III FUM. Gostaria de me desculpar por um detalhe: tenho o disco até o dia de hoje e este foi um presente da minha namorada à época e hoje minha esposa Eliane. Com dedicatória e tudo. Ou eu corrigia este detalhe, ou então...

Antecipando aos meus colegas que na próxima semana provavelmente não enviarei minhas saudações, gostaria de desejar a todos uma ótima quinzena.

Saúde, luz e paz.

Virgílio Agra.
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