quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Sorvete para enrolar a língua



Colegas de todas as datas

Há exatamente um ano, quando estávamos nesse momento de transição ano novo versus ano velho, tive o prazer de receber em minha casa uma jovem mexicana que visitava este grande país graças a um programa de intercâmbio cultural para jovens estudantes.

Andrea Rioseco Sanjuan, natural da cidade de Mazatlan, na beira do Oceano Pacífico, estava hospedada na casa de minha irmã Márcia, lá na capital pernambucana, enquanto uma sobrinha minha visitava as terras do Tio Sam. Durante o período de natal e réveillon, aproveitando as férias escolares, a garota nos agraciou com sua presença na nossa casa numa experiência que foi, sem dúvida nenhuma, enriquecedora e bastante agradável.

Durante sua estada em terras caetés tivemos oportunidade de conversar bastante sobre os mais variados temas como comidas, vestimentas, família, estudo, etcetera e coisa e tal. Nessa época do ano, lá no hemisfério norte é inverno, e é com frio e neve que se comemora o natal e a festa de ano novo. A influência do ambiente sobre a cultura de um povo é tal, que Andrea revelou nunca imaginar que as pessoas comemorassem o natal e o ano novo sem que houvesse neve. No réveillon de 2010, ela teve a experiência de participar pela primeira vez de uma festa de passagem de ano vestida de branco e vendo os fogos de artifício com os pés na areia de uma praia de águas mornas, no nosso jeito tropical de saudar o ano que se inicia.

No período em que a jovem mexicana esteve em nossa casa, tive oportunidade de conversar com seus pais através da grande rede e, arranhando meu "portunhol", disse que Andrea, ao sair da nossa casa, deixaria saudade. Qual não foi minha surpresa quando ela teve que explicar aos seus pais o significado de palavra tão significativa para nós: SAUDADE. Neste dia, soube que esta palavrinha só existia no português e que não havia substantivo equivalente nos demais idiomas. Fugindo a esta regra, descobri posteriormente que a palavra saudade também é encontrada no galego, um dialeto usado na região da Galícia, na Espanha, exatamente na fronteira norte do país de Camões.

Hoje, Andrea está de volta ao seu país de origem e na comemoração do seu natal, apesar do clima frio devido ao inverno, tem sua boca aquecida pela comida apimentada, enquanto sua presença aquece o coração da sua família. Enquanto isso, cá no hemisfério sul, uma família caeté passou os festejos de fim de ano dividida, pois chegou nossa vez de ter uma filha realizando intercâmbio em terras estrangeiras. Morando desde julho nos Países Baixos, Janaína, nossa filha mais velha, usufrui hoje não apenas da oportunidade de conhecer as quatro estações do ano, comer queijos fabricados com técnicas seculares e visitar moinhos de vento, mas, acima de tudo, tem se enriquecido graças ao contato com outras culturas bem como com o convívio com uma simpática família holandesa. Da mesma maneira, acredito que esteja proporcionando às pessoas com quem interage uma percepção positiva sobre o seu caráter como também sobre o seu país.

No mês de dezembro, enquanto passávamos o natal nas terras paulafonsinas com os demais membros da nossa família, Janaína cantava "Jingle Bells" nas frias terras de Van Gogh. Não satisfeita com o frio batavo, resolveu, juntamente com outras colegas brasileiras, passar o réveillon na cidade de Praga na república Tcheca e, enquanto em terras caetés estávamos vendo os fogos de artifício, vestidos de branco, com os pés na areia da praia e os termômetros marcando 25º C, na terra de São João Nepomuceno os termômetros marcavam -20º C.

Como diríamos no sertão: "Eiiiita frio da gota serena!"

A temperatura era tão baixa que o batom de uma das garotas congelou dentro da bolsa e faltou bem pouquinho para que as meninas também virassem picolé. Falando nisso, vocês sabem como se escreve a palavra "sorvete" em tcheco? Ganha um sorvete de duas bolas quem adivinhar. Em tcheco a sobremesa mais popular do mundo se escreve ZMRZLINA.  Dá para acreditar? A pronúncia é tão complicada que eu fico sem saber o que é mais difícil: dizer essa palavra ou aguentar o frio de lá. Porém, do jeito que a pronúncia é complicada, eu tenho a impressão que lá para aquelas bandas o sujeito que tem menos de dez anos de idade não sabe pedir esse produto.

Colegas de longas e de todas as datas, gostaria de desejar a todos vocês que, no ano que temos pela frente, tenham saúde para enfrentar com vigor os obstáculos da vida que surgem a cada dia, a luz da sabedoria para poder distinguir o bem do mal e, finalmente, o prazer da paz de espírito. A Janaína desejo um inverno com neve e frio ameno, campos floridos, uma praia no verão, paisagens de tirar o fôlego no outono e um maçarico para poder tomar ZMRZLINA. Para mim só peço forças para aguentar o peso da palavra saudade.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra.

(escrito em 06/01/2011)


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

E fui pro Recife, para ser tão somente sertão



Colegas de todas as origens

No início deste mês de dezembro, fiz uma breve incursão à capital pernambucana, cidade onde vivi dos dez aos vinte anos de idade. Fui encontrar os antigos colegas do Colégio Nóbrega, escola onde estudei durante sete anos. A visita às terras do Leão do Norte é sempre uma oportunidade de interagir tanto com as pessoas, amigos que lá deixei, quanto com a própria cidade. É uma oportunidade de observar e desfrutar das transformações pelas quais passamos, nós e a cidade, sem nunca perder, felizmente, as nossas identidades.

Já tive oportunidade de falar aqui nas Saudações Caetés sobre as impressões que tive quando cheguei ao Recife, ainda menino. Naquela época, uma das coisas que mais chamava a minha atenção eram os letreiros de neon instalados nas fachadas dos prédios. À noite, no centro da cidade, os prédios localizados na beira do Rio Capibaribe lançavam suas luzes coloridas sobre suas águas, multiplicando as cores e marcando minha memória até os dias de hoje. Com o passar dos anos tive ótimas oportunidades de conhecer a Veneza Brasileira tanto pela terra quanto pela água. Como timoneiro da equipe de remo do Sport Clube do Recife, naveguei não apenas pelo eixo principal do Capibaribe, do qual conhecia as curvas e bancos de areia, como também tive oportunidade de conhecer afluentes, mangues e canais. Naquele estuário, formado por vários rios, algumas vezes chegávamos ao ponto de nos conduzirmos de um rio para outro através de um emaranhado de canais, navegáveis apenas com a maré cheia. Ao longo do tempo em que lá vivi, tive a oportunidade de ver as obras de dragagem e retificação do leito do Capibaribe que contribuíram para livrar Recife das suas frequentes enchentes. Vi pontes serem demolidas, outras sendo construídas.

Hoje, como um simples visitante, falar das alterações pelas quais passou Recife ao longo dos anos é uma tarefa extensa e até cansativa, mas uma transformação que não apenas me impressiona como também me encanta naquela cidade é a recuperação da parte antiga da cidade, na área do cais do porto. No meu tempo, o bairro do Recife Velho era conhecido pelos seus prostíbulos. Ao atravessarmos a ponte Maurício de Nassau, o prédio que abrigava o "Chantecler" impressionava pelas suas características arquitetônicas enquanto que, mais adiante, o "Black Tie" chamava a atenção pelo seu grande letreiro. Hoje a coisa mudou, os prostíbulos foram fechados, lá na beira do cais a Praça do Marco Zero virou ponto turístico, a Rua do Bom Jesus deixou de ser endereço de pensões baratas e tornou-se um ponto de encontro agradável muito bem frequentado. As mudanças foram tantas que até o bairro deixou de ser Velho para receber o título de Antigo.

Foi nessa cidade de cultura efervescente onde comecei a sentir a força das minhas raízes culturais do sertão nordestino. Lembro-me de uma noite, quando já cursava a universidade, saímos, eu e meu primo Alberto, para nos encontramos com uns colegas no Bar Canal, lá na Avenida Agamenon Magalhães. Uma noitada repleta de muita conversa jogada fora e cerveja de goela a dentro que poderia ser uma entre tantas se não fosse o fato de sermos todos do interior de diversas cidades do sertão. Lembro-me bem que estávamos à mesma mesa estudantes de Alagoas, de Pernambuco e da Paraíba. A conversa rolava solta com cada um de nós contando causos e usando sem a menor cerimônia um linguajar que era comum a todos. Mas o que me chamou a atenção naquela ocasião não foi apenas o falar, mas sim todos os referenciais culturais daqueles rapazes que, apesar de serem de diversos estados, mantinham uma unidade bem clara nos seus valores.

Hoje, visitar as terras mamelucas do Leão do Norte, percorrer suas ruas e pontes e reencontrar velhos amigos do tempo do colégio é uma tarefa que me dá um profundo e irrecusável prazer. É gostoso apreciar a cidade fazendo uma gostosa comparação entre o passado e o presente, andar à noite pelo Marco Zero, pela Rua do Bom Jesus e chegar até a antiga Alfândega. A cidade, como se fosse um ser vivo mudou, como uma lagarta que se transforma em borboleta. Da mesma maneira, nós também passamos por transformações, uns quilos aqui, uma cor de cabelo ali... Sobre os aspectos físicos é melhor não comentar, porque o prazer é sentir que apesar das mudanças que fisicamente experimentamos, tanto pessoas como cidades, trazemos uma essência que permanece, pois é inerente à cultura de cada um e isso é o que une as pessoas entre si e estas às cidades.

No mesmo dia em que, às margens do Capibaribe, eu confraternizava com os velhos amigos de colégio, lá na beira da Cachoeira de Paulo Afonso, estava se formando a primeira turma do curso de Direito do Campus VIII da Universidade do Estado da Bahia. Como só soube da notícia duas semanas depois, só agora posso cumprimentar os meus ex-colegas de curso. Enquanto isso, deslizando mansamente, o Capibaribe continua se encontrando com o Beberibe, para juntos formarem o mar.

A todos os meus amigos uma boa semana e um bom natal.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 21/12/2010)

Falando sobre os lugares de Recife, lembro sempre de Alceu Valença, grande artista que exalta sua terra e encanta multidões. Uma de suas músicas por mim preferidas é, coincidentemente, "Pelas ruas que andei" aqui interpretada por músicos que representam uma nova geração da música popular brasileira, Nós4.


sábado, 19 de janeiro de 2013

E haja bolacha!


Da esquerda para a direita:
Bolacha mimosa, bolacha sete-capas doce, biscoito da frança e tareco.

Colegas de todos os lugares

Que a grande rede é apenas um meio de manter contato com todos vocês, isso é óbvio. Que as Saudações Caetés é uma desculpa para contar causos e lembranças dos tempos passados, isso não é nenhum segredo. Que receber notícias de todos é um prazer enorme, isso é fácil de deduzir. Mas perceber que minhas lembranças fazem meus amigos remexerem os fundos dos seus próprios baús, isso é, para mim, recompensador, estimulante, etc. etc. etc.

Quando da última edição das Saudações, quando falei sobre as bolachas, um troço tão besta que em todo canto se acha, fui agradavelmente surpreendido com vários comentários recebidos que, de tão interessantes, não pude tirar da minha cabeça a idéia de dividi-los com vocês.

Lá das bandas da Cidade Maravilhosa, o meu irmão e caeté honorário Ivan Varella, como um bom carioca, primeiro tirou uma onda com minha cara quando disse:

 - Fiquei encantado com o relato das bolachas e imaginando você pela primeira vez na feira de São Cristóvão e como se diz por aqui devia ser "um pinto no lixo".

Mas, como os velhos tempos falaram mais alto, continuou:

 - Quanto às latas coloridas lembro bem, pois estas ficavam em exposição nas mercearias e depois nos supermercados, esta é uma das lembranças da minha infância, pois levávamos a quantidade que queríamos e hoje somos obrigados a comprar até mais do que iremos consumir.

Também das plagas cariocas, com os devidos pintos no lixo, mas com raízes mineiras, recebi um comentário da minha amiga do coração, Penha Faber que contou:

 - Lá nas Minas Gerais, quando eu era menina pequena não de Barbacena, mas de Leopoldina rsrs, também ficava alucinada pra ir à casa de minha tia "Bilanda" (Yolanda), porque ao chegar lá meu tio Tatá pegava sua bicicleta maravilhosa (era considerada a rival da minha tia rsrsrs) e ia toda tarde buscar os meus casadinhos e pães com creme em cima.
   Quantas vezes meu pai chegou em casa com aquelas latas quadradas de 20 quilos, cheinha de biscoitos, talvez por isso eu fiquei igual pinto no lixo, quando entro hoje nas seções de biscoitos.
   Acho que bem lá no fundinho resolvi optar por fazer pães, bolos etc. etc. para suprir, quem sabe? Toda aquela vontade de menina rsrsrs.


E também saído das terras mineiras, lá das bandas de Almenara, na beira do Rio Jequitinhonha, o meu compadre e caeté honorário Natanael Almeida, hoje residente na capital cearense, se banhando nas águas onde se banhou Iracema, comentou:

 - Moço, você me fez recordar de uma parte da minha infância, onde a meninada adorava Q-suco com bolacha, mesmo que as mães lamentassem: "Isso não alimenta direito."
   Estávamos mais preocupados com a "farra".
   Às favas o tal poder alimentício.


E é da beira do mar, lá das terras caiçaras de Peruíbe-SP, que minha prima Camila Fuzikawa, apaixonada por gatos, filha do grande santanense F. Nepomuceno e Elza, uma menina filha da terra do sol nascente, mandou um comentário que dizia mais ou menos assim:

 - Nesse seu relato, lembrei-me de uma casa do norte que tinha aqui no bairro da Estação, que vendia os tais mata-fome, que nunca tive o prazer (ou não) de experimentar. Minha mãe costumava brincar, dizendo que o mata-fome era capaz de matar até quem o comia... eu achava que era devido ao tamanho da bolacha, ou da limpeza do ambiente... no caso a falta dela.
   E, apesar de meu pai ser nordestino, ele não morria de saudades das comidinhas típicas vendidas nessas casas, então eu nem conhecia as iguarias lá vendidas.
   Mas os sete-capas vim a conhecer no ano passado, quando uma colega de trabalho passou a comprar de vez em quando nos nossos cafés da manhã, pois lembrava de sua infância. Ô treco ruim! Ninguém gostava, mas todo mundo acabava comendo "de raiva" como diziam, e acabamos pondo o apelido de hóstia quadrada, que sacrilégio.
   Tem coisas que nos remetem à infância, e nem são tão gostosos assim. Vale o valor sentimental das bolachinhas de R$ 1,00.

Pois bem queridos colegas, todas as histórias que um dia aqui contei, foram frutos de relatos que ouvi no passado. O que estamos vendo hoje, é que os leitores das Saudações começam a ser os protagonistas dos novos causos. Usar a escrita da grande rede é apenas uma forma de preencher a lacuna criada pela distância física que tenho de vocês. Saber que as Saudações Caetés mexem com as suas lembranças é a prova de que os nossos sentimentos de fraternidade são capazes de romper a barreira do tempo e do espaço. Muitos causos ainda estão para ser contados.

Caros colegas, lembrando a Camila que bolacha sete-capas de um real só pode ser muito ruim, desejo a todos uma ótima semana. Despeço-me com a frase da minha amiga Penha: Deus é pai e é maior, o bem vencerá, tenho fé que vai melhorar muito mais.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 12/12/2010)

PS: Muito mais do que um alimento popular, as bolachas representam realmente uma parte importante da culinária e cultura nordestina. Além das influências no falar, as bolachas inspiram poetas e estão presentes até na música regional. Um grande exemplo desta influência é a música “Tareco e mariola”, composta em 1993 por Petrúcio Amorim um cabra bom lá das bandas de Caruaru. Evocando nomes de plantas nativas do sertão nordestino como o “velame” e a “macambira” e comidas como o “mugunzá” e o “tareco”, Petrúcio elaborou uma música que exalta altivez do seu povo.
A propósito, “tareco” para quem não sabe, é um biscoito doce, feito em padaria e muito bom para acompanhar uma boa xícara de café quente.


domingo, 6 de janeiro de 2013

Que nem bolacha, em todo canto se acha



Colegas de todos os paladares

A semana que terminou, começou como uma semana qualquer, com aqueles ares de normalidade. No início da noite de terça-feira minha esposa foi me buscar no meu trabalho e, enquanto retornávamos para casa, aproveitamos para passar numa padaria para comprar uns pães, uma dessas atividades corriqueiras na vida dos pobres mortais. Tomamos o caminho do bairro da Pajuçara e fomos direto à Padaria Alteza, onde compramos os tais pães e uma preciosidade somente lá encontrada e em muitos lugares imitada, as Bolachas Mimosas. Sabe aqueles produtos que têm a capacidade de nos fazer lembrar de alguém? Pois bem, essas bolachas sempre me lembram meu pai. Como sou do interior, lembro-me que, sempre que papai vinha à capital comprava um saco dessas bolachas às quais muito apreciávamos.

A bolacha faz parte do hábito alimentar do nordestino desde épocas bem remotas. Quando Sua Majestade Imperial, o Imperador Dom Pedro II visitou o sertão nordestino, subindo o Rio São Francisco para conhecer a Cachoeira de Paulo Afonso, o mesmo escreveu no seu diário que, durante a ceia ocorrida em uma das fazendas onde ele pernoitou, comeu apenas bolachas porque não havia pães. Como estes últimos se estragavam com mais facilidade as bolachas tinham a preferência da população dos rincões mais distantes do país.

Tia Albertina conta que nos idos de 1930 ela foi morar no Sítio Caboré, na casa da minha bisavó Maria Rodrigues Gaia, Vovó "Dindinha". Naquela época, Tio "Badé" era solteiro, morava com os pais e cabia a ele a missão de ir semanalmente à feira em Olho D'Água das Flores. Quando Tio "Badé" partia, ela ficava ansiosa pela sua chegada.

 - “Porque ele trazia cocada e bolachão. Essas coisas que menino gosta”.

Quando eu era menino, o grande sucesso eram as Bolachas Sete Capas, mas eu também comi muitas vezes um bolachão que a gente chamava de "Mata Fome". O tal biscoito tinha um cheiro que a meninada dizia ser cheiro de xixi que era provocado pelo uso de amoníaco na sua fabricação. Mas, com cheiro ou sem cheiro, o produto era barato e por isso muito comercializado. Quando os biscoitos industrializados começaram a chegar ao sertão, vinham inicialmente embalados em latas coloridas, muito bonitas e, posteriormente, em embalagem de um papelão especial. Vinham do Recife e eram fabricados na Confeitaria Confiança, que eu ainda cheguei a conhecer na Rua da Imperatriz. Mas, foi o surgimento dos biscoitos Cream Cracker, Maria e Maizena que colocaram na defensiva a produção local das padarias. O proprietário de uma panificadora próxima à minha casa falou com saudosismo do tempo em que ele só vendia as bolachas que ele mesmo produzia. Convém ressaltar que a autêntica bolacha ficava exposta à venda num balaio, a granel, e o cliente pedia a quantidade desejada que era então pesada na hora. Neste ponto, vale o elogio à Padaria Alteza, lá da Pajuçara, que se mantém original, tanto no que diz respeito à qualidade do produto como na forma de comercialização.

Num período mais recente da minha vida, quando vivi quase um ano em terras cariocas, pude perceber a importância que tem a bolacha como elemento marcante da cultura nordestina. Na maior parte do Brasil o produto é chamado de biscoito, mas no nordeste é bolacha. Em terras gauchas, onde também se adota idêntica nomenclatura para o produto, a pronúncia usada é BOLACHA, assim com a letra "O" com som aberto. No nordeste nós dizemos "BULACHA", pronunciando a letra "O" com o som ultra-fechado, de modo que a 4ª vogal adota o som da vogal seguinte, ou seja, o som da letra "U".

No nordeste existe até um ditado que diz: "Aquilo é como bolacha, em todo canto se acha". Durante o meu exílio na cidade maravilhosa, quando eu ia às padarias do bairro onde morava, além dos pães, é lógico, e de bolos muito bem feitos, eu achava uma variedade tão grande de torradas que eu ficava admirado com a imaginação do padeiro. Porém, uma bolachinha sequer, lá não se achava. Digo, haviam aqueles biscoitos industrializados, com sal, sem sal, light, diet, com fibras, com sabor de cebola, queijo, alho, etc. etc. O produto vinha naquelas embalagens de plástico nas mais variadas cores e com aquela fitinha com a indicação de "puxe para abrir" que mais parece uma carteira de cigarros. Mas, BOLACHAS, dessas feitas nas padarias, só achei quando visitei o enclave nordestino da feira de São Cristóvão.

E foi nesta semana, que começou com este simples caeté comprando bolachas para comer com uma xícara de café, que terminou com uma histórica operação policial. Lá pras bandas das terras cariocas, a tropa de elite da vida real entrou na Vila Cruzeiro e Complexo do Alemão, para dar umas boas e merecidas "bolachas" no crime organizado.

Meus caros amigos, espero sinceramente que os acontecimentos recentes no Rio de Janeiro não se limitem a uma operação policial. Espero que a ação tenha continuidade com a prestação aos cidadãos dos serviços necessários ao usufruto de uma vida digna a todos. Mas, diante das imagens divulgadas pela grande imprensa, não posso deixar de me preocupar com a segurança de todos os amigos que deixei naquela bela cidade. Espero que a semana que se inicia seja para todos de volta a mais perfeita normalidade.

Saúde, luz e paz... Muita paz

Virgílio Agra

PS: Há uns dias atrás fui a Padaria Alteza para comprar as Bolachas Mimosas e encontrei um novo estabelecimento, todo reformado com um “desaine” moderno. Procurei as bolachas e não vi o seu balaio, só as encontrei previamente embaladas em sacos plásticos, com aquela etiqueta colante com um código de barras. Para não dar a viagem perdida comprei um pacotinho, provei e pude constatar que o seu sabor não passou por qualquer reforma, mas o seu encanto, infelizmente, perdeu-se com a modernidade.

(Escrito em 29/11/2010)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Roupa branca e consulta


Imagem obtida no sítio da Nação Nordestina

Colegas de todos os títulos

No último final de semana, aproveitando o feriadão de 15 de novembro, resolvi fazer uma visita à minha cidade natal, Santana do Ipanema, lá no sertão das terras caetés. Visitei tias, tios, vários amigos, ouvi muitas histórias e fiz um monte de perguntas. De modo que, além da viagem da beira do mar ao sertão não pude deixar de fazer uma gostosa viagem no tempo, ouvindo como era a vida daquela cidade na primeira metade do século passado. Além de conversar com velhos conhecidos, parentes ou não, conheci uma senhora muito simples chamada Marinita.

Dona Marinita nasceu na zona rural de Santana e trabalhou durante muitos anos como cozinheira na casa de Aderval Wanderley Tenório, um dos advogados mais brilhantes que tive oportunidade de conhecer na minha vida. Quando Aderval partiu para outra dimensão levou consigo, além da vivência na advocacia, um currículo que incluía três mandatos de deputado estadual e uma carreira de Procurador de Justiça, além de ter exercido o cargo de Secretário de Estado. Por conta de tamanha notoriedade o homem era tratado, tanto nos meios profissionais como também na sociedade, como Doutor Aderval. Por questões de laços familiares, éramos primos, eu detinha a prerrogativa de tratá-lo apenas pelo seu nome de batismo. Como exceção às duas formas de tratamento anteriores só existiam duas outras categorias, seus filhos, que o chamavam de papai, lógico, e Dona Marinita, que só o chamava de "Seu Adervá".

Não pretendo aqui entrar na discussão sobre a adequação, ou não, do tratamento de doutor. Mas, como nesse país é generalizado o uso deste título, até por quem não o detém, chama nossa atenção observar que uma pessoa integrante de uma camada humilde da população seja capaz de desafiar uma convenção social firmemente estabelecida. Quando perguntei para ela porque não se referia a ele como doutor a resposta foi dada na ponta da língua sem titubear.

 - "Seu Adervá num pode ser chamado de dotô, porque ele num veste branco nem passa consulta."

Gostei da firmeza da resposta como também admirei a sua linha de raciocínio. Então, resolvi provocá-la e contra-argumentei que ele era um advogado. Desta maneira, não seria então adequado tratá-lo com o título de doutor? Dona Marinita riu para mim e disse com a sua simplicidade:

 - "Oxente, mas se fosse assim o mundo tava amundiçado de dotô."

Dentre os termos do falar nordestino alguns já são amplamente conhecidos como as expressões oxente, arretado, fuleragem e outros mais. O termo "mundiça", apesar de ser bastante utilizado no nosso linguajar, é pouco conhecido fora da região. Normalmente é usado para designar pessoa ou grupo de pessoas de pouca educação. Ou seja, um cabra "amundiçado" é, nada mais nada menos do que, um sujeito de maus-modos. Da mesma maneira, o termo também pode ser utilizado para qualificar uma família ou grupo de pessoas cujos modos não sejam compatíveis com os padrões de comportamento socialmente aceitos. Por outro lado, "mundiça" também é utilizado para designar uma turba ou um grupo numeroso de indivíduos. Por exemplo, quando alguém quer se referir a uma família numerosa de maneira depreciativa ou jocosa, refere-se a ela como uma "mundiça". Um grande amigo meu, pai de seis filhos, disse-me certa vez que: "quem tem até dois filhos tem uma família, mais do isso é "mundiça". Em seguida, caía na risada.

Quando Dona Marinita disse que o mundo ficaria "amundiçado de dotô", referia-se na verdade à grande quantidade de advogados existentes no mundo e que, seguindo tal raciocínio, todos eles passariam então a ser detentores deste honroso título.

Ao mesmo tempo em que desejo a todos uma douta sabedoria para enfrentar os desafios de mais uma semana, presto aqui, de coração, minha homenagem à sabedoria popular com a qual temos tanto o que aprender.

Saúde, luz e paz.

Virgílio Agra
(escrito em 23/11/2010)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Quando bandido era bandido e artista era artista


Cine Alvorada – 1967

Colegas de todas as perguntas.

Desde os meus tempos de criança em Santana, lá na beira do Panema, no sertão alagoano, eu gostava muito de ir ao cinema. Quando fui estudar na Veneza brasileira, passei a morar no bairro da Boa Vista no mesmo quarteirão em que funcionava o Cine Veneza e muito próximo a várias salas de exibição como os cinemas São Luiz, Moderno, Art Palácio e outros. Naquela época, o cinema era uma diversão muito barata, de modo que o meu gosto por este lazer e a proximidade me permitia ir ao cinema, praticamente, todos os finais de semana. Quando cheguei aos meus 16 para 17 anos descobri que no Teatro do Parque, bem ali na Rua do Hospício, passavam filmes que o regime militar não liberava para o circuito comercial de cinemas, podendo ser exibidos em “salas especiais”. Passei a freqüentar essas sessões o que me permitiu assistir excelentes produções. Também nessa mesma época, o Art Palácio incluiu na sua programação uma sessão de arte todos os sábados que eu passei a freqüentar. O tempo passou, surgiu o videocassete e o DVD, as antigas salas de cinema passaram a exibir filmes de kung-fu e pornografia, depois fecharam e finalmente foram convertidas em igrejas evangélicas.

À semana passada resolvemos, eu e minha esposa, fazer um programa que há tempos não realizávamos, fomos assistir um filme na telona. Em cartaz, o "Tropa de Elite, osso duro de roer, 2". O excelente filme de José Padilha, estrelado por Wagner Moura, um menino nascido lá pras bandas da cidade de Rodelas, na beira do Velho Chico, lá no sertão baiano. Achei o filme excelente, me permitam repetir, mas algumas das suas cenas, ao provocarem aplausos na platéia, fizeram o meu pensamento fazer um breve regresso aos tempos em que, ainda menino, assistia as matinês de domingo no cinema de Seu Tibúrcio Soares, o Cine Alvorada, lá em Santana do Ipanema.

Ainda alcancei o tempo em que se assistia em preto e branco os filmes de Tarzan, Carlitos e as chanchadas da Atlântida e Vera Cruz com Grande Otelo, Costinha, Cantinflas e Mazzaropi. O filme podia ser em tons de cinza, mas a emoção era muito viva. Lembro-me do dia em que o Lions Clube Santanense organizou com fins beneficentes uma exibição de um filme de Tarzan, inédito na cidade. O filme era de "Censura Livre", mas como a exibição era à noite eu só pude assistir porque fui com meus pais. O evento foi o máximo.  Apesar do preço do ingresso ser um pouco mais caro que aquele de uma exibição normal, o cinema lotou, com gente assistindo o filme em pé.

Quando eu tinha uns oito a nove anos de idade o cinema anunciou uma única apresentação do filme de sucesso internacional, "Dio, come ti amo!". A divulgação se dava naquela época através do maior veículo de comunicação de massas da cidade, o carro de som de Francisco Soares. A cidade inteira foi assistir ao filme, menos eu. Mamãe não deixou de jeito nenhum, porque o filme ia ser à noite, iria ter muita gente, eu poderia me perder, me machucar, sumir, desaparecer, errar o caminho de casa, etc, etc, etc. Fui dormir triste naquela noite, todo mundo podia assistir o filme, menos eu. No dia seguinte, no entanto, minhas esperanças renovaram-se quando através dos alto-falantes do carro de som, Chico Soares anunciou:

 - Ontem duas mil pessoas assistiram "Dio, come ti amo!", devido ao grande sucesso da apresentação e atendendo a pedidos, o Cine Alvorada fará uma reapresentação deste grande sucesso. Não percam, somente hoje às oito horas da noite "Dio, come ti amo!" no Cine Alvorada.

Naquela época o cinema já havia mudado de dono e Seu Geraldo, o novo proprietário, morava vizinho à minha casa. Conversando com seu filho, descobri rapidamente que as "duas mil pessoas" não passavam de uma jogada de marketing de Chico Soares. A estimativa real era que o público tinha atingido a cifra de mil espectadores, pois o cinema tinha na realidade capacidade para setecentas pessoas sentadas, um número muito bom para uma sala de exibição numa pequena cidade do sertão alagoano. Mas, o melhor de tudo foi que, desta vez, mamãe me deixou assistir o filme. Foi uma noite inesquecível, o cinema lotou mais uma vez e eu confesso que até os dias de hoje me emociono com a música tema do filme, interpretada por Gigliola Cinquetti.

A transição do preto-e-branco para o colorido foi marcada fortemente pelos filmes americanos de faroeste. Os enredos "água-com-açúcar", combinando cores e uma boa trilha sonora fazia com que a meninada assistisse os filmes de "có-bói" sem nem ao menos piscar os olhos. A história nos envolvia de maneira tal que, quando parecia que tudo ia dar errado, chegávamos à beira do desespero. Aí então aparecia o "artista" em cima do seu cavalo, atirando com um revolver cujas balas nunca se acabavam e nunca erravam o alvo, e a meninada então explodia em aplausos para aquele herói vingador, a encarnação do próprio bem contra o mal, representado sempre por índios ou mexicanos. Acho engraçado lembrar que sempre chamávamos o herói de “artista”, a expressão mocinho, só conheci anos depois.

Minha paixão pela sétima arte era tamanha que quando o filme terminava, as luzes se acendiam e as portas de saída eram abertas, eu só saía da sala quando via na tela a famosa frase "THE END". Do lado de fora, a meninada invariavelmente cumpria o ritual de comparar as fotos do cartaz do filme com as cenas exibidas, mas antes de voltar para casa eu tinha uma tarefa a fazer, do outro lado da praça, na Padaria Royal, de Seu Raimundo, tinha que comprar pão crioulo quentinho para o café da noite. Era minha obrigação de domingo que eu tinha que cumprir. Em seguida, eu subiria a pé, mas feliz, as ladeiras de Santana.

Dentre as coisas boas que o tempo proporciona, uma delas é a possibilidade de observar as transformações pelas quais o mundo passa, de modo que é impossível um freqüentador dos cinemas na década de 70 e 80 entrar numa sala de exibição de hoje sem realizar mentalmente uma comparação entre o passado e o presente. As salas de cinema antigamente eram grandes, hoje são pequenas. As pipocas eram vendidas nuns saquinhos de papel que ficavam embebidos com a manteiga que se colocava sobre elas, hoje são vendidas em grandes caixas de um papelão especial bem mais adequado para conter o alimento. Antigamente não se entrava nos cinemas com refrigerantes, hoje os mesmos são vendidos em copos enormes com capacidade até 1 litro. Assisti muitos filmes, sentado em cadeiras com assento de madeira, hoje as poltronas são todas acolchoadas. Apesar dessas mudanças, umas para melhor outras não, uma coisa felizmente não mudou, a capacidade do cinema de extrair da plateia aplausos, risos ou lágrimas incontidas, fruto da emoção causada pelo seu encanto. Mas o tempo passou e dentre as coisas boas que ele levou, foi à época onde, tanto na tela como na vida, era fácil distinguir o bem do mal, onde era fácil saber quem era o bandido e quem era o “artista”.

O "Tropa de Elite 2" de José Padilha é genial não apenas pelos aplausos que suas cenas levantam da platéia ou pelas emoções que nela produz, mas sim por nos levar a refletir, não sobre o mundo da fantasia, mas sobre o mundo real, com uma pergunta "osso duro de roer": Onde está e quem representa o mal? Se ligue, essa pergunta "também vai pegar você".

A todos os meus amigos, desejo uma boa semana e bons dentes para roer os ossos do dia-a-dia, por mais duros que eles sejam.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra.
(escrito em 08/11/2010)

OBS: Para aqueles que quiserem relembrar, ou para aqueles que não conheceram, segue abaixo o trecho final do filme “Dio, come ti amo”, com a interpretação emocionante de Gigliola Cinquetti.

domingo, 28 de outubro de 2012

Um martírio de morada

Palácio Floriano Peixoto – Maceió-AL

Colegas de todas as moradias

Que a capital caeté, famosa pela beleza de suas praias, é um bom lugar para se morar isso ninguém questiona. Nos tempos de hoje os endereços mais procurados, e mais caros também, são aqueles próximos à orla marítima e se for, na área da Ponta Verde, aí então é melhor ainda. Mas, apesar dessa preferência pela brisa carregada de maresia, alguns endereços longe do barulho das ondas do mar são bastante disputados.

No centro histórico de Maceió, em frente à Igreja dos Martírios, o Palácio Floriano Peixoto, antiga sede do governo alagoano, sempre foi um endereço bastante desejado e disputado. Entre o palácio e a igreja, uma praça garante um adequado distanciamento entre os dois prédios. De um lado da praça, no sopé da barreira que delimita a parte alta e baixa da cidade, a igreja dos Martírios, construída num plano mais alto, simboliza a casa de Deus, senhor dos céus. Já do outro lado da praça, num plano mais baixo, o palácio Floriano Peixoto, que foi durante muitos anos a morada e local de trabalho dos governadores do estado, é até hoje o maior símbolo do poder na terra dos caetés.

As diferenças entre as duas construções são visíveis e bem marcantes. No lado de baixo da praça encontra-se um prédio muito bem preservado. Já no lado de cima, apesar de suas características arquitetônicas, as manchas nas paredes e a degradação dos azulejos da fachada e torres mostram, inquestionavelmente, o descaso com o patrimônio histórico e cultural. No lado de cima da praça, enquanto o templo simboliza a busca por um reino dos céus, o lado de baixo é a marca do mais terreno dos poderes. Apesar das diferenças reais e simbólicas entre os vizinhos da praça proporcionar uma lista bastante longa, a proximidade entre ambos gerou certa identidade, no mínimo, bastante curiosa.

Apesar do palácio ser o símbolo do domínio sobre todo o estado, coube à igreja, pelo menos na cultura popular, o predomínio sobre toda a praça. Curiosamente, a praça não é conhecida como "Praça do Palácio", mas sim como Praça dos Martírios. Até o Palácio Floriano Peixoto é conhecido popularmente como Palácio dos Martírios, nome que me parece bastante adequado, considerando-se a repercussão de muitos acontecimentos ligados ao exercício do poder local. Há que se admitir que aquela casa foi, muitas vezes o símbolo de um verdadeiro martírio tanto para o povo do estado quanto para os seus ocupantes. Dentre os acontecimentos, e foram vários, que simbolizaram o martírio dos seus ocupantes, vou contar um que é um verdadeiro clássico da política caeté.

Conta-se que, lá pelos idos de 1950 e alguma coisa, Sivestre Péricles de Góis Monteiro era governador das terras caetés. Quando chegou a época da eleição que iria escolher o seu sucessor, a disputa polarizou-se entre o candidato apoiado por Silvestre e o seu arquiinimigo Arnon Afonso de Farias Melo. Como estava em jogo não apenas questões políticas, mas, principalmente, questões pessoais, a campanha foi muito acirrada com duros golpes de lado a lado. Quando chegou o dia da abertura das urnas o resultado sagrou vencedor Arnon de Mello. Inconformado, mas impossibilitado de reverter a situação, Silvestre Péricles decidiu que não entregaria o cargo sem antes infernizar a estada do futuro morador no palácio. Eu não sei se Silvestre gostava de rezar, mas eu acho que, olhando para o outro lado da Praça dos Martírios, apreciando a igreja, o velho político se inspirou na passagem bíblica que diz: "ao barro voltarás". Eu sei que na Bíblia não está escrito barro, está escrito pó, mas pó, cinza, terra e barro são elementos tão próximos um do outro que vamos deixar assim mesmo.

Na noite da véspera da posse, Silvestre executou o seu incomum plano. Do outro lado daquilo que poderíamos chamar de "centro histórico de Maceió", na Cadeia Pública, a morada que ninguém queria ter, chegou uma ordem do próprio governador: O delegado deveria libertar todos os presos que fossem capazes de encher uma lata de merda. Vocês não entenderam? Bastava uma lata cheia de "cocô", de um barro, que o preso deveria ser solto imediatamente. Nesta noite o movimento na Praça da Cadeia foi frenético. No começo eram os policiais saindo às pressas para comprar óleo de rícino, para que os presos pudessem estimular as atividades "defecativas", e a partir de certas horas eram os presos saindo na carreira, enquanto carros levavam as latas de "barro" para serem entregues ao chefe maior.

De madrugada, de posse da sua inusitada encomenda, Silvestre esfregou o "cocôteúdo" das latas em todas as paredes, teto, tapetes, piso, torneiras e maçanetas do Palácio Floriano Peixoto. Em seguida abandonou o prédio que, a esta altura dos acontecimentos, exalava um fedor tão forte que até o Marechal Floriano Peixoto, que ao pó já havia retornado, devia estar se sentido bastante incomodado.

Hoje, o Palácio Floriano Peixoto, devidamente restaurado e principalmente limpo, inserido num quarteirão coberto de belos jardins, é um belo museu na capital caeté. Nos fundos desse quarteirão ajardinado foi construído um prédio bonito, moderno, todo envidraçado, o Palácio República dos Palmares, nova sede do poder terreno no estado.

Mas além de sua crônica política sui generis as terras caetés também tem cultura e folclore. Como por exemplo, o pastoril, folguedo onde duas alas de moças, denominadas pastorinhas, disputam a simpatia do público dançando e cantando músicas que exaltam o nascimento do menino Jesus. Uma ala veste a cor azul e a outra a cor vermelha, coincidentemente as cores da bandeira do estado, e são denominadas de cordão azul e cordão encarnado.

No próximo final de semana, mais uma vez, estará em disputa o governo das terras caetés. Um dos concorrentes, candidato à reeleição, adotou como símbolo a cor azul enquanto o outro, ex-governador com dois mandatos, adotou a cor vermelha. Neste pastoril da política, falta bem pouquinho para sabermos se sairá do cordão azul ou do cordão encarnado o velho morador do novo palácio.

Enquanto isso, do outro lado da praça, morando numa construção imponente, apesar da degradação causada pelo tempo e pelo descaso, Nossa Senhora dos Martírios... Rogai por nós.

Aos meus amigos servidores da justiça eleitoral desejo muito sucesso nas atividades deste 2º turno de eleições, etapa importantíssima para a definição do futuro deste grande país, e a todos um bom final de semana e bom feriadão.

Saúde, luz e paz.

Virgílio Agra
(escrito em 28/10/2012)

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