quinta-feira, 11 de julho de 2013

Nu é grátis, semi-nua não.


Colegas de todas as línguas

Se você está lendo este texto pode até pensar que é alfabetizado, mas tenha cuidado, pois tudo é relativo.

Durante minhas férias pude realizar um velho sonho, conhecer a Europa. Após uma viagem de doze horas, incluindo uma conexão em Lisboa, eu, minha esposa e minha filha caçula chegamos a Amsterdã. A lentidão no desembarque do avião e a demora na restituição de bagagem foi para mim uma coisa normal, nada que eu não houvera vivenciado em outros aeroportos. Uma vez conferida toda bagagem dirigimo-nos à estação ferroviária que é integrada ao aeroporto. No percurso seguíamos as indicações das placas já que todas elas tinham a tradução para o inglês, mas quando chegamos à estação ferroviária todos os meus conceitos caíram por terra. Também não era para menos, afinal de contas, para todo lado que eu me virava, só via placas escritas em holandês, cheias de consoantes, e eu não fazia a menor idéia do que aquelas palavras significavam. Naquele momento eu me senti como um imigrante nordestino que chegava a São Paulo nos meados do século passado, um verdadeiro analfabeto. Uma vez percebendo que não iríamos entender mesmo aquela escrita, passamos a olhar em redor, até que finalmente identificamos uma bilheteria e aí os pensamentos começaram a entrar em ordem. Deixei as meninas com as bagagens fui até o guichê e, dirigindo-me à atendente, declamei uma frase pré-ensaiada:

 - Good morning. Please, three tickets to this station - e deslizei sobre o balcão um papelzinho com a palavra: HEEMSTEDE - AERDENHOUT.

Eu dou um euro que sobrou da viagem para o cabra que conseguir pronunciar o nome dessa estação. A Holanda é um país lindo e com organização exemplar, mas a língua é impronunciável.

De posse das passagens, procuramos a plataforma de embarque e, após alguns minutos decifrando o quadro de horário dos trens, conseguimos embarcar sabendo que teríamos que fazer uma baldeação na estação de SLOTERDIJK, esta é fácil, pronuncia-se "sloterdaik". Finalmente, chegamos à estação de destino onde tínhamos que pegar um ônibus até o local da nossa hospedagem. Embarcamos no ônibus da Linha 80 e, dirigindo-me ao motorista, recitei aquela famosa frase:

 - Good morning.
Please, three tickets to this bus stop - e mostrei um papelzinho com a palavra: SHOUWTJESBRUG. (A oferta do euro que sobrou continua de pé).

Quem já passou pela experiência de chacoalhar nos ônibus urbanos aqui no Brasil não vai acreditar, pois eis que, no país dos moinhos de vento, em cada parada há um quadro constando os horários em que os ônibus passam pontualmente e, dentro dos veículos, tem um painel onde aparece o nome e horário da parada seguinte bem como das próximas três. Finalmente chegamos ao Bed & Breakfast: My Dream. A proprietária, Leonice, uma brasileira casada com Hennes, um alemão criado na Holanda, hospeda profissionalmente turistas do mundo inteiro, mas o tratamento que nos dispensou fez-nos sentir como se estivéssemos na casa de um parente muito querido.

Quem lê sobre a Holanda sabe que o país tem um histórico de tolerância com questões ligadas a sexo e drogas, mas fiquei admirado quando li num cartaz instalado no ponto de ônibus em frente da casa da Léo o anúncio: "Nu gratis". Eu concordo com a parte da tolerância, mas nudez gratuita pareceu-me um pouco exagerado. Para minha tranquilidade, Léo me explicou que se tratava de uma oferta comercial e que a palavra NU significava, em português, "agora".

Na tarde daquela sexta-feira e no dia seguinte, com o apoio de Leonice e de um casal amigo, Alaíde e Peter, conhecemos Haarlem, cidade onde estávamos hospedados, bem como outros municípios das suas redondezas. Foi num desses passeios que encontramos e pudemos visitar um moinho de vento em plena operação, destinado a produção de farinha de trigo. Do ponto de vista turístico a visita ao moinho foi encantadora, mas do meu ponto de vista como engenheiro e aficionado pelo estudo da história foi simplesmente fantástico. Entrar naquele moinho e percorrer o seu interior, ver as suas engrenagens, sua estrutura, os materiais de que ele é feito, seus mecanismos de manobra e dispositivos de segurança gerou uma quantidade enorme de informações.

No domingo fomos a Amsterdã onde contamos com o apoio de um amigo de minha filha mais velha que, apesar de estar naquela época morando na Holanda, estava, exatamente naqueles dias, em terras portuguesas com certeza. O rapaz, mineiro de nascimento e trabalhador ilegal por ousadia, nos levou ao RIJKSMUSEUM, pelo nome vocês já sabem do que se trata, onde pudemos não apenas conhecer o acervo que retrata a história da idade de ouro dos Países Baixos, como também pudemos nos deliciar com os belíssimos quadros de Rembrandt. Após o almoço, no qual comemos costelas de porco com batata (Bom demais!), fomos caminhar pelas ruas da velha cidade.

Que na Holanda tem mais bicicleta do que gente, isso todo mundo sabe, mas o que chamou a atenção deste caeté foi observar as prioridades dos batavos na hora de tratar os fluxos de tráfego nas suas cidades. Todas as vias são acessíveis às pessoas e bicicletas, sendo que essas últimas têm prioridade sobre os pedestres. Conforme nos aproximávamos do centro da cidade, gradativamente, fomos observando que o acesso de carros de passeio ia ficando cada vez mais restrito, até que chegamos num perímetro onde os únicos veículos motorizados eram os ônibus e os bondes que lá são chamados de TRAM. Outra coisa que me chamou a atenção foi ver nas ruas uma grande quantidade de carros de marcas famosas que aqui no Brasil são acessíveis aos muito ricos, mas confesso que achei simplesmente fantástico ver os motoristas conduzindo seus veículos possantes de maneira serena sem o exibicionismo tão frequentemente visto nas ruas das cidades do nosso grande país.

Caminhando pelas ruas de Amsterdã, nosso "guia por um dia", Guilherme, perguntou se poderia nos levar ao Bairro da Luz Vermelha, uma área da cidade onde a prostituição de homens e mulheres é praticada de forma regulamentada pelas leis holandesas. Diante da nossa concordância, entramos no bairro através da BLOEDSTRAAT (Rua de Sangue), local onde no passado houve uma matança de vários travestis. O relógio indicava que já era noite, mas considerando que o país gozava de horário de verão e ainda por cima fica próximo ao círculo polar, o sol ainda estava alto e iluminava muito bem toda a cidade. Talvez por conta da luz do sol nós vimos apenas um prostíbulo em funcionamento. Seguindo o costume do lugar, a casa possuía vitrines onde, em cada uma delas uma bela garota de biquíni ficava à vista dos passantes. Vindo de um país onde os trajes de banho costumam ser minúsculos, devo admitir que as prostitutas usavam biquínis bem comportados, mas uma coisa é certa, lá "nu" pode ser grátis, mas uma semi-nua não.

Por sugestão de Leonice, resolvemos incluir na nossa programação uma visita à Delft, cidade com quase mil anos de existência e bastante conhecida por sua famosa porcelana azul. A cidade tem como maiores atrativos duas grandes igrejas construídas em estilo gótico que, como outras na Holanda, foram convertidas em templos protestantes. Numa delas, a Nieuwe Kerk, por tradição, são enterrados os membros da família real holandesa. Neste templo que abriga o mausoléu a Guilherme de Orange composto, entre outras coisas, por uma estátua do grande herói nacional, pudemos observar os nichos que abrigavam as imagens de santos que foram simplesmente derrubadas e destruídas durante a Reforma Protestante na Idade Média. Outra curiosidade por nós observada foi o fato destes templos terem sido os únicos em toda a viagem em que tivemos que pagar para visitá-los.

Nesses deslocamentos entre as cidades vi algumas coisas que não pude deixar de admirar. As cidades holandesas são ligadas não apenas por ferrovias e rodovias, como também pelas ciclovias. Lá, você pode percorrer o país inteiro de bicicleta sem precisar disputar espaço com os automóveis. Além disso, até as estradas vicinais são asfaltadas. Mas o que eu mais gostava de admirar eram as fazendas holandesas. O terreno era bem plano e as divisões das áreas ao invés de serem feitas com cercas eram feitas com canais, de maneira que a terra ficava toda quadriculada. O verde cobria tudo, emoldurado pelos inúmeros canais e algumas vezes a gente via pequenas áreas de bosques. Mas surpresa eu tive quando passamos numa fazenda e eu vi umas coisas que pareciam uns rolos de papel higiênico gigantes. Eu tomei foi um susto, considerando o zelo que os holandeses têm pelas suas vaquinhas e que no idioma local vaca pronuncia-se "cu", eu pensei logo: aquilo deve servir para deixar as bichinhas bem limpinhas, para não estragar o gosto do leite. Chegando mais perto pude observar que na verdade eram rolos de feno, cobertos com uma lona apropriada de cor branca. A propósito, vaca em holandês escreve-se KOE, mas a pronuncia é daquele jeito, vocês sabem qual.

Escolher a Holanda como nossa porta de entrada para a Europa foi uma decisão acertada. Poder apreciar a riqueza do seu acervo cultural, a beleza das suas edificações, usufruir do seu transporte público, transitar pelas suas ruas e canais, conhecer suas cidades históricas e sua moderna infra-estrutura nos trás uma gama imensa de percepções que palavras são insuficientes para descrever e apenas o contato direto pode proporcionar. Da mesma maneira que os elementos físicos, a educação dos neerlandeses também nos proporcionou experiências interessantes. Durante nossa visita a Amsterdã, paramos na beira de um canal para comer um lanche quando, de repente, se aproximou de nós um homem mal trajado, com a cara de quem tinha tomado uns goles. A bem da verdade, sua aparência não correspondia ao modelo de alguém muito ajustado à sociedade. Se fosse aqui no Brasil qualquer um pensaria que ele iria pedir dinheiro ou iria ficar conversando besteiras, mas não foi o que se sucedeu. O sujeito havia encontrado próximo de onde estávamos um isqueiro velho, largado no chão. O homem pegou o isqueiro e foi perguntando a todas as pessoas que estavam naquele lugar se alguém era dono daquele objeto. Somente após se certificar que este não pertencia a nenhum dos presentes, anunciou então, em voz alta, que iria ficar com ele. Só então, botou o isqueiro no bolso e foi embora.

Pode parecer coincidência, mas desde que era menino, eu sonhava em conhecer a Holanda. Um pouco por conta de um antepassado, mas principalmente por causa da figura da Irmã Letícia, diretora e fundadora da minha primeira escola. Contar os eventos pitorescos dessa visita é apenas o jeito deste simples caeté compartilhar com vocês a maravilhosa experiência que tive oportunidade de usufruir. Aproveitando a oportunidade, gostaria de desejar a todos uma ótima semana e prometo no próximo contato continuar contando as aventuras de um caeté nas terras de além mar.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 13/08/2011)

PS: No decorrer da viagem, várias vezes associávamos os lugares que víamos ou as situações que vivenciávamos a algumas músicas do nosso pop rock brasileiro. Uma delas foi a música Ciúme, de Roger Moreira, aqui tocada numa versão acústica pela inesquecível banda Ultraje a Rigor.




domingo, 30 de junho de 2013

Frivolitê, a arte dos nós.


Colegas de todas as artes

Apesar de se passar algumas semanas em que não mando notícias minhas, gostaria de informar a todos que ainda estou vivo e gozando de boa saúde. Abstive-me de escrever por um tempo por conta de uma pequena sobrecarga de trabalho e de umas subsequentes e merecidas férias, usufruídas nas terras d'além mar do velho continente.

Aproveitando a oportunidade, gostaria de perguntar a todos, quem de vocês sabe o que é frivolitê. Antes que alguns pensem que estou aqui tratando de coisas frívolas, portanto fúteis, sosseguem, frivolitê é uma espécie de renda. Menos conhecida que a renda de bilros, este é um trabalho executado com uma espécie de lançadeira chamada navete e tem origem europeia, provavelmente da França ou Bélgica. Esta arte rara foi, durante muito tempo, praticada pelas mulheres da pequena Poço das Trincheiras, lá no sertão alagoano.

Desde criança vi minha mãe, tias e avó praticando esta arte e ficava admirado com os movimentos hábeis que realizavam. Uma das mãos da artesã ficava numa posição como se ela fosse pegar com os dedos uma fruta de tamanho pequeno, como um limão por exemplo. Uma linha era então passada pelo dorso das pontas dos dedos ficando estendida, formando, digamos assim, uma figura circular. Com a outra mão a navete era manobrada em torno da linha estendida, hora passando por cima e voltando por baixo, hora passando por baixo e voltando por cima, formando pequenos nós, até que finalmente ia surgindo pequenos anéis. De anéis em anéis ia surgindo um conjunto que gradativamente se transformava em peças grandes. Cheguei a ver colchas de cama de casal feitas por elas. Era um trabalho demorado e exigia da artesã não apenas muita habilidade, mas principalmente muita paciência.

Segundo ouvi contar pelos mais antigos, essa arte teria chegado lá nas bandas do Poço das Trincheiras, trazida pelas jovens das famílias mais abastadas que foram estudar em colégios internos. Isso lá pelo início do século XX.

Minha avó Lindalva, contou que quando era mocinha foi estudar num colégio interno, mantido por uma ordem religiosa, na cidade de Palmares, zona da mata meridional do vizinho Pernambuco. Apesar da viagem demorar vários dias, incluindo vários trechos a cavalo, esse tempo foi, segundo ela própria, os melhores anos de sua mocidade. Convém ressaltar que minha avó nunca me falou que aprendera a fazer frivolitê no colégio, sua história apenas confirma a existência desse mecanismo de busca das famílias por educação para seus filhos e filhas. Quando ela foi para Palmares, outras jovens já haviam feito caminho semelhante.

Eu, naturalmente, nunca aprendi fazer frivolitê, afinal de contas esse trabalho era específico para as mulheres, mas na casa dos meus pais nós fomos criados ajudando, de uma forma ou de outra, nos trabalhos domésticos. Minhas irmãs ajudavam minha mãe nas tarefas da casa e eu, num tempo que não havia telefone, fazia o trabalho externo como ir buscar o leite na casa de Dona Iracema, dar recados na casa de vovó ou ir fazer compras no armazém de Seu Zé Acioly ou na padaria de Seu Raimundo. Do frivolitê só sobrava para eu encher as navetes. Às vezes mamãe me dava quatro ou cinco navetes para encher e eu sabia que teria algumas horas a menos de folga naquela manhã. Eu passava a linha pelo furinho do eixo da pequena lançadeira e ia dando voltas. Cada vez que a linha passava pelo bico apertado da navete fazia o barulhinho de um pequeno clique. De clique em clique eu enchia cada uma delas e só então poderia ir brincar.

No ano passado, através do Centro Cultural do Sertão, entidade sediada em Poço das Trincheiras e criada para preservação e resgate da cultura sertaneja, promovemos um encontro das mulheres "frivoliteiras". Apesar de conseguirmos reunir várias delas, fizemos uma triste constatação: o frivolitê do sertão alagoano está prestes a desaparecer. As antigas artesãs não tiveram sucessoras. As novas gerações não se interessaram por esta arte rara. De todas as que se fizeram presentes apenas uma, Dona Nazarene, ainda morava na cidade.

Há pouco mais de um mês atrás, dias antes da minha viagem de férias, recebi um telefonema avisando que Dona Nazarene estava hospitalizada. Ela tentara suicídio ateando fogo ao próprio corpo e encontrava-se internada na Unidade de Queimados do Hospital Geral do Estado de Alagoas. Tio Tobias me ligou e pediu que fosse visitá-la em seu nome, pois o mesmo convalescia de uma cirurgia recente e não podia se deslocar. Numa tarde de domingo eu fui até o hospital e o que eu vi gostaria de não comentar e preferia até esquecer. Por conta desses acontecimentos, soube que a pobre senhora andava nervosa, o que afetava o seu relacionamento com as outras pessoas. Além do mais, a mesma vivia aperreada com um filho usuário de drogas. Encontrar justificativa para uma tragédia dessa natureza é demais para mim, mas o fato é que, desesperada da vida, resolveu por fim à sua agonia. Passei mal durante a visita e voltei para casa bastante perturbado. Sua situação era tão delicada que uma enfermeira disse para mim que a equipe apenas esperava um milagre.

De volta a casa, procurei não conversar sobre o acontecido tentando direcionar meus pensamentos para outros temas mais amenos. Algumas horas depois minha filha caçula chegou do shopping center onde fora encontrar-se com alguns colegas. Começamos a conversar e ela então falou que tivera um problema ao tentar sacar dinheiro numa máquina de auto-atendimento do banco. No estado de espírito em que eu me encontrava só veio a minha mente pensamentos ruins. Assim era demais, além da sobrecarga de trabalho, dos preparativos para a viagem, das notícias ruins que chegavam ainda mais essa? Mas, apesar de tudo que se passava nos meus pensamentos, eu tinha que ouvi-la. Continuando, ela contou que, ao realizar o saque, a máquina liberou uma quantia maior do que aquela que havia sido solicitada e que achava que deveria devolver ao banco o valor excedente. Com minúcias contou o que havia ocorrido e que já havia conferido a movimentação da sua conta, constatando que só havia sido contabilizado o saque do valor solicitado à máquina, inferior ao de fato entregue. Nesse momento minha mente ficou leve e meu coração se encheu de orgulho pela postura ética da minha filha. Decidimos que eu iria à agência bancária devolver o dinheiro, coisa que fiz na primeira oportunidade, uns dois dias depois. Imaginem minha emoção quando a funcionária do banco começou a elogiar minha filha e dizendo que sua atitude era digna de louvor.

Dias depois dos acontecimentos que acabei de contar, viajamos e, durante o tempo em que estivemos no Velho Continente, aproveitamos cada minuto para absorver toda a história e cultura que encontramos disponível tanto nas galerias e museus quanto nos diversos modelos de urbanização das cidades europeias. Imaginem minha alegria quando, visitando o Palácio de Versalhes, numa das suas lojas de souvenires, encontrei uma pequena almofada decorada com frivolitê. Após o nosso regresso, cansados mas felizes, liguei para meu tio e perguntei sobre o que acontecera com Dona Nazarene. Soube então que os problemas da terra não mais lhe preocupavam, pois Nosso Senhor chamou-a para fazer frivolitê em outra dimensão.

Então, é assim caros colegas, contando mais uma história, registrando os acontecimentos do nosso cotidiano, que volto a escrever para vocês. Aproveito a oportunidade para agradecer a Deus não apenas pela bela viagem que realizamos, mas também agradecer por todos os dias em que tivemos que mandar mais de uma vez uma filha forrar a cama ou lavar os pratos. Agradecer por ter que reclamar de um computador que fica ligado até tarde ou pela demora em se levantar para ir para escola. Agradecer por ter que dizer pela milésima vez que o prato deve ser retirado da mesa ou que os pés não devem ser postos na cadeira. Agradecer por ter uma família e sermos uma família, há 25 anos.  Desejo a todos uma ótima semana e prometo, na próxima ocasião, contar as aventuras deste humilde caeté nas terras d'além mar.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra.

(Escrito em 31/07/2011)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Base e padrão do povoamento de Poço das Trincheiras

Meu bisavô Sebastião Medeiros Wanderley com seus filhos e filhas.
Data provável 1959
Em pé: Pe. Fernando, Ademar, Sebastião, Osman, Tobias, Olivan e José Arimateia
Sentados: Vovó Lindalva, Donatila, Meu Bisavô, Oralda, Orene e Oraide.

Colegas de todas as origens

Onde se cruza a história de uma jovem holandesa e de um simples caeté?

Se vocês estão pensando que este texto é uma repetição de outro escrito, no último dia 02 de maio, estão todos enganados. Esta história aconteceu há quase 200 anos, foi passada de pai para filho durante gerações até que a professora Maria Audite Vanderlei resolveu transcrevê-la.

Audite nasceu lá na beira do Rio Ipanema, no povoado de Poço das Trincheiras. Com cerca de 30 anos de idade ousou, foi para a capital do estado, estudou o curso Normal, formando-se em 1934. Considerando-se que naquela época o ofício da educação era frequentemente exercido por professores leigos, ela é apontada por alguns, como a primeira professora formada, nascida em Santana do Ipanema. Após a formatura, foi lecionar no município de Penedo, localizado no baixo São Francisco, e em seguida exerceu o seu ofício na cidade de São Miguel dos Campos. Finalmente, na década de 40, foi transferida para Santana do Ipanema. Em 1959, quando o Poço se emancipou de Santana, no fervor do entusiasmo emancipacionista, Audite escreveu um trabalho por ela intitulado: "Árvore genealógica da família Vanderlei - Base e padrão do povoamento de Poço das Trincheiras - Alagoas". Esse trabalho, segundo suas próprias palavras, "nada tem de lendário. Bebido na fonte pura da tradição que os nossos avós nos deixaram".

O trabalho de Audite conta a história de um fidalgo holandês que lá nos idos do século XVIII deu uma pisa da gota serena num conterrâneo, também de origem nobre. A confusão foi tão grande que o cabra resolveu fugir do país. Trouxe consigo uma filha chamada Maria, refugiando-se na província de Pernambuco. Instalou-se na Vila do Penedo "onde viveu incógnito até que sentiu que ia morrer. Chamou, então, um amigo e lhe pediu o obséquio de procurar um matuto probo nos costumes, para desposar sua filha única. Só assim poderia morrer tranquilo. Nessa ocasião, abriu a arca de couro e dela tirou o seu título de fidalgo, escrito em letras de ouro, documento que evidenciou a origem de nobreza de sua filha e que, trancado na arca, ocultou, por muito tempo, a identidade de seu possuidor".

" O esposo da jovem fidalga holandesa foi escolhido entre os matutos do sertão alagoano. O seu nome não passou à posteridade porque a esposa fez questão de legar aos filhos, o nome dos seus ascendentes. Orgulho de raça, talvez".

" Não sei quantos filhos teve o casal. O velho Romualdo foi um deles. Quando se tornou rapaz, abandonando a tutela paterna, veio morar no Poço. Aqui viveu cultivando a terra amiga da Serra do Poço para dela tirar o pão de seus filhos".

A história poderia ter transcorrido sem maiores transtornos, mas eis que em 1844, houve uma disputa política em Alagoas que ficou conhecida como a Rebelião dos Lisos e Cabeludos. Apesar da alusão a uma questão capilar, os contendores brigavam mesmo era por dinheiro e poder. Acontece que um dos filhos do velho Romualdo, Antônio Vanderlei, conhecido como Totonho, era partidário de uma das facções. No outro lado da disputa, um dos seus líderes era um padre lá das bandas de Palmeira dos Índios que tinha uma vida, tanto política quanto sexual, muito ativa. Segundo meu amigo Heider Lisboa, ilustre membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, o padre tinha um monte de filhos. A questão eclesiástica, com certeza, não será o foco da nossa narrativa, o problema é que os ânimos se exacerbaram a tal ponto que alguém resolveu matar o padre e aí se fez a desgraça. Os filhos do padre que ficaram conhecidos como Irmãos Morais, resolveram se vingar e partiram em busca dos adversários políticos para um acerto de contas. Na sua lista estava Totonho, lá de Poço das Trincheiras.

Os Irmãos Morais iniciaram uma série de assassinatos, roubos e incêndios, tanto contra seus desafetos quanto contra aqueles que se negavam a colaborar com eles. Quando da sua passagem por Santana do Ipanema a sua fama já era grande. Nesta cidade, mediante ameaças, obtiveram informações sobre a aparência e paradeiro de Totonho. De posse das informações desejadas partiram para o ataque ao povoado do Poço.

Segundo Audite, Romualdo Vanderlei "vinha da serra, montado num burrinho, trazendo para a família uma carga de mantimentos. Quando atravessava o leito do rio Ipanema, ouviu e viu o tiroteio. Procurou retroceder, mas foi tarde. Uma bala certeira recebida pelas costas, fê-lo cair emborcado sobre a cavalgadura. Esta cena cruel e dolorosa foi presenciada pela jovem Honória - filha do ferido. Honória casou aos 14 anos de idade e era mãe da 1ª filha (tia Belinha), quando os Morais praticaram a terrível hecatombe que enlutou a família trincheirense daquele tempo. Graciosa e meiga no lar, Honória soube dar o mais inconfundível exemplo de coragem feminina e de amor filial que os próprios inimigos admiraram. No momento em que avistou o pobre pai caído sobre a montaria, compreendeu tudo. Forte e decidida, recalcando a dor, reprimindo as lágrimas, enfrentou a fúria traiçoeira de 40 homens armados e correu a socorrê-lo. Erguendo-o, carinhosamente, encostou a cabeça branca e agonizante do ferido em seu jovem coração e com ternura edificante, confortou-o na hora extrema. Quando viu que já tinha em seus braços, um cadáver, tomando-o nas costas, arrastou-o até sua residência, a maior e mais antiga do Poço, situada em frente à ponte. Essa casa, cujas ruínas, eu ainda alcancei, foi demolida, havendo, atualmente, no terreno, uma nova e bonita construção. Foi ponto de reunião dos filhos e netos da heroína, nas claras noites de luar. Ao cadáver do velho Romualdo, Honória juntou os dos três irmãos - Cazuza, Ambrósio e Delfino, vítimas também da carnificina dos Morais, velando-os até a hora do sepultamento".

De acordo com um texto do meu primo Zé Melo, quando os Morais obtiveram informações sobre Antônio Vanderlei, souberam que ele usava uma barba grande. Acontece que, coincidentemente, naqueles dias ele havia raspado a barba e só escapou da morte porque os bandidos não o reconheceram. Segundo Zé Melo os cabras até entraram na sua casa, mas lá só encontraram uma menina chamada Landelina, perguntaram pelo paradeiro do dono da casa, ela disse que ele não estava e eles partiram a procurá-lo em outras casas do povoado.

O fim dos Irmãos Morais, todos podem imaginar qual foi, mas essa história é triste e eu prefiro continuar contando a história da descendência da holandesa Maria. Seus netos, filhos de Romualdo, que sobreviveram ao massacre foram: João Maurício, Antônio, "Coelho", Honória, Pastora e Candinha. Dentre os filhos de Pastora, um se chamou Romualdo e veio a se tornar o pai de Audite. Dentre os filhos de Antônio, sua filha Landelina veio a ser a bisavó de Zé Melo e dentre os filhos de João Maurício, sua filha Clarabela veio a ser minha trisavó.

Meus caros amigos, ao longo do tempo em que me dirijo a vocês através das Saudações Caetés, tenho o prazer de escrever as histórias que um dia ouvi das mais diversas origens, mas não posso deixar de reconhecer que contar a história dos meus antepassados me dá um prazer todo especial. Como especial é, ter o prazer de desejar a todos uma ótima semana. Espero que todos possam se lembrar dos seus pais, dos seus avós e todos aqueles que um dia lhes antecederam e espero que percebam que a história que escrevemos hoje será aquela que será contada por aqueles que um dia nos sucederão.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra.

(Escrito em 29/05/2011).

OBS 1: Se Audite estivesse viva, em setembro deste ano de 2011 estaria completando 110 anos de vida.
OBS 2: Estudos recentes apontaram incorreções em alguns dados do trabalho de Audite, apesar disto, nada tira o mérito do seu pioneirismo no estudo da genealogia do Poço das Trincheiras.

Segue abaixo transcrição do trabalho de Audite sendo preservadas tanto a ortografia original, como mantidos os erros de português, eventualmente cometidos.


https://www.dropbox.com/arvore_genealogica da_familia Vanderlei por Audite Vanderlei.pdf


terça-feira, 28 de maio de 2013

Família é Sagrada e é para sempre.

Sagrada Família
Alunos da 1ª e 2ª série – 1969
Em pé à esquerda Profa. Fátima, ao centro Irmã Letícia e à direita Profa. Evangelina

Colegas de todas as escolas

Onde se cruza a história de uma jovem holandesa e de um simples caeté?

A história que vou contar hoje começou na cidade de Roterdã, na Holanda, quando em 1929 nasceu Laetitia Van Fulpen. Dez anos depois, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, este país foi invadido pela Alemanha que impôs um racionamento de alimentos aos cidadãos holandeses, de modo que, durante este período, o café da manhã da família era apenas uma fatia de pão para cada um. A cada dia, seu pai saia para arranjar alguma coisa para comer e, de acordo com o que obtivesse, à noite era servida uma sopa com aquilo que ele conseguira.

Desde menina Laetitia sentiu a vocação para a vida religiosa, de modo que um dia tornou-se freira e foi para o antigo Congo Belga, onde abriu uma escola enquanto outras freiras atuavam junto à população local na área de saúde e assistência aos mais carentes. Em 1960, o Congo Belga conquistou sua independência e ela, juntamente com as outras missionárias, teve que deixar o país. No entanto, algum tempo depois, todas retornaram para dar continuidade aos seus trabalhos. Durante este novo período ocorreu uma guerra civil no país e, em dado momento, foi transmitida uma ordem às tropas posicionadas na região onde ela trabalhava para que fossem mortos todos os mercenários. Como os cabras nunca tinham ouvido a palavra "mercenários", procuraram no seu linguajar corrente algo que se assemelhasse e entenderam que tratava-se dos "missionários". Eu sei que o assunto lembra uma piada, mas não era. Logo eles partiram para a vila onde as freiras estavam, prenderam todas elas e as posicionaram para execução. Neste momento, alguns soldados começaram a questionar a ordem porque tinham filhos que estudavam na escola que as freiras mantinham e outros, cujas esposas tinham ficado doentes, haviam recebido assistência médica da parte delas. O tempo que durou a discussão entre os homens não foi longo, mas foi suficiente para que chegasse a contra-ordem e assim elas escaparam da morte certa. No entanto, foram deportadas e não mais puderam voltar ao país africano.

Enquanto isso, lá na beira do rio Ipanema, no sertão de Alagoas, eu ainda era menino pequeno e só sabia que existia escola porque via minhas irmãs falarem que iam à escola e porque eu as via estudando sob a orientação de minha mãe, que na época usava o auxílio de uma "pequena" palmatória. No início de 1968 meus pais disseram que eu iria para uma escola que começaria a funcionar naquele ano aproveitando duas salas que existiam na igreja da Sagrada Família. Lá, fui estudar a Cartilha com Dona Sebastiana, digo Dona porque naquele tempo menino não chamava professora de tia. Para mim foi um mundo novo que se abriu. Lá eu tinha muitos meninos para brincar e, no quintal da igreja não faltava espaço para correr e touceiras de capim onde brincávamos de esconder. Mas, o que mais me impressionava era a Diretora da escola. Chamava-se Irmã Letícia, vinha da Holanda, um país que eu não sabia onde ficava,  falava com um sotaque bem carregado e era a primeira freira que eu vi na vida. Era branca e seus braços eram cheios de sardas e, na minha visão de criança, parecia uma pessoa enorme. Os trajes que ela usava eu nunca esqueci, a cabeça estava sempre coberta por um véu de tecido, a blusa era normalmente de cor clara de mangas curtas e a saia vinha a até o meio da canela e era de uma cor acinzentada. Uma coisa que me chamou a atenção, era o fato de ela usar o relógio no lado interno do braço, de modo que, para ler as horas, ela sempre tinha que mostrar a palma da mão.

Irmã Letícia chegou a Santana do Ipanema graças ao trabalho do Padre Cirilo. Começou seu projeto de educação no sertão de Alagoas nos fundos da Igreja da Sagrada Família. No ano seguinte, 1969, a escola passou a ocupar o prédio onde funcionara a sede do DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas) em Santana. Para minha felicidade, o prédio era exatamente em frente à minha casa e aí, era só atravessar a rua e estava na escola.

Pelo fato de ser dirigido por uma freira, o colégio passou a ser conhecido pela população como o "Colégio das Freiras". Apesar dos poucos recursos e instalações modestas, a escola oferecia uma educação de qualidade como nunca se vira antes naquela cidade. Lá estudava o filho do rico e o filho do pobre. Quem podia pagava mais, quem podia menos pagava menos e quem não podia, nada pagava. Quando os recursos financeiros escasseavam a diligente freira ia buscá-los no seu país de origem. Como para alguns alunos faltava até condições de terem uma roupa boa para assistir as aulas, Irmã Letícia trazia roupas da Holanda para eles.

Acho que um dia de vida da Irmã tinha mais de 24 horas, porque além de todos os trabalhos administrativos do cargo de diretoria, ela ainda encontrava tempo para dar as aulas de religião e nos ensinar a cantar, fazendo aqueles movimentos próprios de uma regente de orquestra. Ela também coordenava a nossa participação nos eventos religiosos da cidade e, apesar de ser estrangeira, conduzia pessoalmente os ensaios dos alunos para os eventos comemorativos das nossas datas cívicas, além de encontrar tempo para encadernar nossas provas, prendendo as folhas de papel com um laçinho de fita.

Em 1972 o Instituto Sagrada Família formou a sua primeira turma do antigo Curso Primário e eu tenho muito orgulho de dizer que fui um dos componentes desta turma histórica. Na nossa "formatura" os próprios alunos proferiram discurso, encenaram teatro e, naturalmente, houve a entrega dos "diplomas". Como a escola não oferecia, naquela ocasião, o curso ginasial, todos tiveram que ir para outras escolas, em Santana do Ipanema ou em outras cidades. Eu não sabia, mas aquele foi o dia em que aquelas 20 crianças estiveram juntas pela última vez.

O tempo passou, o colégio cresceu, novas turmas foram criadas, novas salas foram construídas e mais e mais alunos passaram pelas suas bancas. Um dia, acho que eu já estava na universidade, vivendo nas bandas da beira do mar, passeando por minha cidade natal tive vontade de visitar minha primeira escola. Lá chegando, fui recebido com um imenso sorriso e aquele abraço gostoso que a Irmã Letícia sempre teve para todos os seus "filhos". Naquela ocasião tive a honra de visitar todas as instalações do Instituto Sagrada Família, conduzido pela sua ilustre Diretora que encontrou um tempo na sua agenda de mais de 24 horas para me acompanhar.

Quando o Sagrada foi para o prédio do DNOCS só havia quatro salas de aula, uma sala para os professores, outra para a diretoria e uns banheiros simples, com piso de cimento alisado. Quando o visitei pela última vez, encontrei uma escola dotada de muitas outras salas, auditório, laboratórios, biblioteca e uma simpática capelinha que Irmã Letícia me disse, ser o seu lugar favorito.

O tempo passou e um dia o Padre Cirilo morreu. Tempos depois a Irmã Letícia foi transferida para outra cidade e a direção da escola passou para outras mãos. Certo dia o telhado da escola desabou, prenunciando a marcha da história. Campanhas foram feitas para a recuperação do prédio, recursos foram adquiridos, mas o destino do "Colégio das Freiras" já estava traçado. Hoje, no antigo prédio do DNOCS, funciona uma escola da rede municipal.

Há muitos anos o Instituto Sagrada Família deixou de existir como instituição formal de ensino. Acabaram-se os tempos em que as provas eram encadernadas com laçinhos, laços feitos por mãos que afagavam alunos como se fossem filhos, como também se acabaram os tempos em que uma freira andava de bicicleta pelas ruas de Santana do Ipanema. Mas, está muito longe de chegar o tempo em que o Sagrada deixará de existir nos corações e mentes de todos aqueles que passaram pelas suas bancas, afinal de contas, família é sagrada e é para sempre.

Irmã Letícia não trabalhou sozinha em Santana do Ipanema, é importante e justo reconhecer que o trabalho realizado teve a participação importantíssima da Irmã Ana, na área da educação e da Irmã Leoncia, que dirigia um fusca levando saúde às áreas onde nunca havia chegado um médico. Irmã Letícia e Irmã Leoncia encontram-se atualmente recolhidas na Casa Mãe da sua ordem religiosa, na cidade de Asten, na Holanda. Irmã Ana, lamentavelmente teve uma morte trágica na década de 80. A todas as jovens holandesas que um dia, deixando para trás seus lares e suas famílias dedicaram suas vidas para o bem dos menos favorecidos, o meu sincero obrigado.

Caros colegas, tendo em vista mais uma semana que se inicia, quando tiverem diante de si as preocupações e aperreios do dia-a-dia, procurem lembrar-se de uma passagem dos seus tempos de infância. Eu tenho a impressão que todos acharão, nem que seja no fundo do baú, boas lembranças que, com certeza, acalentarão a alma.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 02/05/2011)


Relação dos 20 alunos que concluíram a 4ª Série do Ensino Primário - 1972

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Distração e desimpaciência.


Adinaldo, Sandra, Felipe e Heline

Colegas de todas as profissões

Se você está lendo esta crônica, significa que você, no mínimo, aprendeu a ler na escola onde estudou. Neste grande país umas instituições de ensino enfrentam grandes dificuldades para cumprir os seus objetivos, enquanto outras se orgulham dos seus níveis de excelência, mas uma coisa é certa, não importa em que escola você estudou, a cultura popular te reservará boas e grandes lições.

Há umas semanas atrás, empreendi uma visita a uma amiga chamada Sandra, que estudara comigo nas bancas do Instituto Sagrada Família, lá nas bandas da Ribeira do Panema. Além da oportunidade de relembrar velhos tempos, bote tempo nisso, tive a oportunidade de conhecer sua família, composta por seu esposo e um casal de filhos. A garota ainda é estudante, mas o rapaz formou-se recentemente em odontologia e já está batalhando em busca do seu devido espaço no mercado de trabalho.

Felipe é o tipo de cara que conquista você somente com o seu sorriso e, além de inteligente e comunicativo, é também extremamente perspicaz, qualidade que este simples caeté tanto admira. Começando sua vida profissional, ele não se intimidou com as dificuldades e foi trabalhar numa clínica na cidade de União dos Palmares, lá no pé da Serra da Barriga, berço do Quilombo dos Palmares. Quando ele chegou naquela cidade do interior, entrou um paciente no seu consultório e foi logo dizendo:

 - Doutor, eu vim aqui para o senhor "distrair" meu dente.

Ele na hora ficou em dúvida se contratava uma banda de forró para fazer um show ou se chamava um grupo de boêmios para fazer uma serenata para o dente doente. Na dúvida, ele começou a cantarolar ao mesmo tempo em que perguntava ao homem se o dente estava mais calmo. Ora essa! O menino passou cinco anos na faculdade, saiu sabendo o nome de cada neurônio do queixo de uma pessoa e não teve um único professor que dissesse para ele que na linguagem do matuto não existe extração e sim "distração".

O tempo passou e um belo dia, o jovem odontólogo (ele não aceita ser chamado de dentista) atendeu certo paciente e apresentou o diagnóstico. O cara então foi direto ao assunto e perguntou o quanto custava o tratamento. O sujeito já tinha consultado outro odontólogo e, espantado com o preço apresentado, disse:

 - Vige Maria Doutor! O preço do sinhô é o "quadrúpede" do outro.

Diante da cavalar comparação Felipe só ficou em dúvida se ria ali mesmo, na frente do cliente, ou se saia da sala para rir do lado de fora.

Outro dia chegou um senhor de idade com o queixo todo inchado por causa de um dente. O garoto olhou a situação e viu que o quadro era grave e, caso não fossem dispensados os devidos cuidados, o homem poderia ser vítima de uma grave infecção. Após a análise do problema veio a pergunta que era de se esperar, ou seja, quanto custaria o tratamento. O dente do cara devia estar doendo pra danar, mas quando ele soube o quanto custaria... A notícia doeu muito mais. O homem começou a chorar porque não tinha o dinheiro suficiente para pagar. Felipe disse que esse foi um dos momentos mais difíceis da sua carreira profissional ainda se iniciando. Naquele momento sua consciência ficou se batendo entre o princípio ético de cobrar um preço justo pelo serviço prestado e outro princípio que manda amar ao próximo como a si mesmo. Sabendo que a não realização do procedimento poderia significar até mesmo a morte do paciente e, sendo filho de quem ele é, a escolha não poderia ser outra, disse ao homem que se acalmasse que ele faria o tratamento.

Terminado o seu horário de trabalho, ao passar pela recepção da clínica, a recepcionista procurou o nosso "Boticão de Ouro" para entregar um dinheiro. Tratava-se de uma quantia que aquele homem havia deixado como pagamento pelo tratamento, eram apenas 25 reais e era tudo que ele tinha nos bolsos, era o valor máximo que ele poderia pagar. Dias depois, ao chegar à clínica para mais uma jornada de trabalho, soube que o mesmo homem havia deixado um saco de mangas e outras frutas, como recompensa pelo tratamento humano que recebera, era o jeito dele demonstrar sua gratidão. Foi um verdadeiro festival de frutas.

É interessante observarmos que, longe dos salões acadêmicos e das camadas cultas da sociedade, as pessoas comuns do povo, dos mais distantes rincões deste grande país, na sua simplicidade encontram a sua maneira de se comunicar e cabe a nós, recebedores da dádiva da educação, e não a eles, entender a mensagem transmitida. Assim, faremos nossa parte para que as diferenças culturais não se tornem num abismo capaz de separar pessoas por conta de diferenças de escolaridade.

Voltando ao caso da "distração" do dente, lembrei-me que há uns dez anos uma velha comadre minha falando sobre seus problemas disse:

 - "Ói cumpade"! Tem horas que dá uma "desimpaciença" tão grande que eu "num" sei nem o que faço.

Como faz muito tempo, eu não me lembro o caminho que a conversa tomou, mas a expressão da minha comadre eu nunca esqueci. Refletindo matematicamente sobre a estrutura do termo, não pude deixar de concluir que a negativa de uma negação corresponde a uma afirmativa, logo des-im-paciência só pode representar paciência. Portanto, se na semana que se inicia vocês tiverem de enfrentar um grave problema, daqueles que dão aquela famosa dor-de-cabeça, procurem distrair a mente, dêem uma volta na praça, respirem ar puro, dêem um beijo na pessoa amada, mas se tudo isso não adiantar só espero que todos tenham muita desimpaciência para enfrentar os percalços da vida.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra.

(Escrito em 04/04/2011)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Durma com um barulho desses


Complexo das Usinas Paulo Afonso III, I e II.
Foto de Mário Roberto Batista.

Colegas de todos os "grilos".

Quem assistiu ao filme "O Último Imperador", talvez se lembre de uma parte da história onde o personagem principal, o imperador da China Pu Yi, ainda criança, recebeu um estojo que continha um grilo. Se na vida real o imperador ganhou um grilo, ou não, eu não sei, pois eu não estava lá, mas a cena faz sentido por conta da significância desse inseto para os chineses que admiravam tanto o seu canto a ponto de criarem os bichinhos em gaiolas, do mesmo jeito que aqui tem gente que cria passarinho. Hoje em dia, quando viajo ao sertão e tenho uma rara oportunidade de passar uma noite na zona rural, acho gostoso dormir ouvindo o canto dos grilos, mas tenho que reconhecer que um bichinho desses dentro de um quarto fechado é uma companhia nada recomendável para uma boa noite de sono. O certo é que a interação que os povos têm com os elementos da natureza variam muito de local para local, mas uma coisa é certa, o canto de um grilo é inconfundível em qualquer lugar do mundo.

Vocês se lembram que eu falei um dia desses sobre um ex-Operador de Instalações da Companhia Hidroelétrica do São Francisco - CHESF, chamado Reginaldo Barros? Pois bem, Reginaldo tem um rol de presepadas que aprontou com os colegas que, sozinhas, davam para publicar um livro.

Como o serviço de geração de energia é contínuo, 24 horas por dia, é natural que algumas funções também precisem funcionar de maneira ininterrupta. Ou seja, do mesmo jeito que os Operadores trabalham se revezando em turnos, mantendo as máquinas e o sistema elétrico funcionando, o setor de segurança patrimonial também tem que trabalhar continuamente para  garantir a integridade física das pessoas e dos equipamentos. Enquanto que durante o dia há uma movimentação constante de técnicos das áreas de manutenção e administração, à noite os únicos postos de trabalho que se mantêm ativos são a Operação e a Segurança.

Não é necessário uma pessoa ter trabalhado em regime de plantão para saber que, quando chega o turno da noite o cansaço chega também, mas as características do trabalho exigem que o indivíduo fique alerta, pois existem rotinas que precisam ser cumpridas ao longo do período, mas, a bem da verdade, existem aqueles que, por motivos os mais diversos, não conseguem resistir.

Quando fui trabalhar na Usina Apolônio Sales, havia um carro de plantão para atender as demandas do serviço de operação e éramos nós os operadores quem o dirigia, mas em tempos anteriores havia um motorista profissional que, por conta do serviço, também tinha que ficar de plantão. Certo dia, Reginaldo percebeu que o motorista durante a noite sempre dava um "cochilo" e, para garantir maior conforto, o rapaz dormia dentro do carro. Percebendo a manobra dele, Reginaldo, inteligente como era, arquitetou um plano para pregar-lhe uma peça. O resultado foi de uma maestria que entrou para os anais da Usina.

Usando de muita habilidade e paciência, Reginaldo conseguiu capturar uma porção de grilos, os colegas falaram que devia ter sido mais de vinte grilos. Discretamente, levou os bichos para a usina dentro de uma caixa e, quando foi de noitinha, soltou os insetos dentro do carro de plantão. O grilo, apesar de ter um canto muito estridente, é por sua natureza um animal muito tímido, então, quando foram soltos, todos eles procuraram imediatamente um lugarzinho para se esconder. Uns foram para debaixo dos tapetes, outros para debaixo dos bancos, alguns por alguma pequena abertura entraram no painel do carro enquanto outros se acomodaram na primeira reentrância que encontraram. Como a viatura ficava com os vidros fechados todos os animais, sem alternativa de fuga, tiveram que encontrar abrigo dentro do carro.

Naquela noite, no pátio da usina, tudo corria dentro da maior normalidade. Vendo que tudo estava calmo, o motorista aproximou-se do veículo, abriu a porta e a luz interna acendeu. O banco do carro parecia que convidava o rapaz a sentar-se e, o convite sendo aceito, tudo caminhava para mais uma noite de sonhos. O banco foi ajustado para dar mais conforto, a porta foi fechada, a luz interna apagou-se e, naquela penumbra, o motorista fechou os olhos. De repente ele ouviu um barulhinho.

 - Triiii, triiii, triiii, triiii, triiii...

 - Ai meu Deus, "parece" que tem "um" grilo aqui dentro.

Quando o rapaz se mexeu dentro do carro e acendeu a luz interna, os grilos com a sua conhecida cautela se calaram e, logicamente, cada um procurou o seu refúgio. Após uma breve busca e, nada encontrando, o homem apagou a luz e voltou a se acomodar. Com a escuridão e o silêncio da noite os grilos voltaram à atividade.

 - Triiii, triiii, triiii, triiii...

 - Vou pegar esse grilo!

A porta foi aberta, a luz interna foi acesa, os grilos voltaram a se esconder e o motorista começou a remexer o interior do carro. Rapidamente encontrou um grilinho que imediatamente foi despejado das suas acomodações. Satisfeito, o sujeito sentou novamente e relaxou. Quando estava quase dormindo...

 - Triiii, triiii, triiii, triiii...

 - Minha Nossa, tem outro grilo.

Reiniciou-se a operação de caça ao inseto até que, após alguns minutos, ocorreu a captura de um novo grilo que foi expulso sumariamente do ambiente.

E assim correu a noite toda. O motorista se acomodava, com o silêncio e a escuridão os grilos cantavam, a luz interna do veículo era acesa, o carro era revirado e um novo grilo era despejado. Nesta noite, com certeza, o rapaz não conseguir sequer pregar o olho, mas na manhã seguinte todo mundo da usina estava rindo por causa de mais uma das astúcias de Reginaldo.

Lembrando que na década de 70, na gíria, "grilo" era uma palavra que significava problemas, gostaria de desejar a todos os meus amigos uma vida sem "grilos", porém me permitam desejar que em cada um de vocês pouse um grilo, pois na tradição chinesa um evento desses significa boa sorte.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra.

(Escrito em 29/03/2011)

PS: Para aqueles que não assistiram “O último imperador”, de Bernardo Bertolucci, segue aqui um pequeno flash dessa magnífica obra do cinema. Para aqueles que tiveram o prazer de assisti-lo, segue uma palhinha só para recordar.


domingo, 28 de abril de 2013

Sucesso


Luís Pedro e Neném

Colegas de todos os tipos de sucessos

Quando eu era menino, pensava que sucesso era algo que a gente conseguia quando fumava uma marca de cigarros, pois nas mercearias da minha cidade natal tinha uns cartazes onde se lia:

 "Vá com "roliúdi" ao sucesso"

Para minha sorte, e azar do meu avô, descobri rapidamente que sucesso era sinônimo de câncer de pulmão e decidi que esse tipo de sucesso não servia para mim.

Em tempos mais distantes, antes de inventarem a palavra globalização, lá no sertão nordestino, sucesso tinha um significado bem diferente. Era o termo usado para denominar tiro acidental e foi com um tiro acidental que aconteceu uma história que foi, mais ou menos, assim:

No final do ano de 1926, ou início de 1927, na fazenda do Coronel Ângelo da Gia, uns cangaceiros jogavam baralho quando um deles, chamado Luiz Pedro, manobrou seu rifle que, acidentalmente, disparou e matou Antônio Ferreira, o irmão mais velho de Lampião. Diante do acontecido uns foram avisar o Capitão, que estava num local distante, enquanto outros colegas aconselharam:

 - Luiz Pedro, corra que Lampião vai "lhe" matar.

Consciente de que o tiro não fora intencional, Luiz Pedro decidiu, corajosamente enfrentar o julgamento de Lampião.

Quando o chefe dos cangaceiros chegou, confirmou a morte do irmão e ouviu aqueles que aconselhavam matar sumariamente Luiz Pedro, enquanto outros o defendiam alegando que fora um sucesso. O Capitão então, voltando-se para Luiz teria dito:

 - Se você tivesse fugido eu ia "lhe" matar mas, como você ficou e eu já conheço você de muito tempo, vou deixar você viver.

Agradecido pelo voto de confiança do líder Luiz Pedro falou:

 - Seu Capitão... O senhor poupou minha vida. Eu juro acompanhá-lo até o fim. No dia em que o senhor morrer, eu morro também.

Os anos se passaram, até que, no amanhecer do dia 28 de julho de 1938, na fazenda Angico, no estado de Sergipe, uma volante alagoana emboscou o bando de Lampião.  Foi tiro para todo lado. Enquanto tentavam fugir entre as pedras e a caatinga fechada os cangaceiros respondiam ao fogo, mas nessa altura dos acontecimentos Lampião já estava morto e Maria Bonita, com uma bala na perna, não conseguia escapar. Luiz Pedro foi um daqueles que conseguiu romper o cerco quando ouviu o grito de Dona Maria.

- Compadre Luiz Pedro. Lembra da sua promessa a Lampião?

Quando ouviu o grito Luiz parou. Dá para imaginar quanta coisa passou na mente do cangaceiro? Ele tinha um compromisso e romper com a palavra dada era uma atitude inaceitável no código de honra do cangaço. A vida de bandido era dura, a morte podia chegar a qualquer momento, mas para aquele homem era melhor enfrentar a morte do que levar uma vida de vergonha. Numa tentativa de iniciar um contra-ataque, chamou alguns companheiros, lembrou que Lampião trazia no seu corpo uma espécie de bolsa com muito dinheiro, era o "papo de ema", mas ninguém aceitou voltar. Um deles até disse:

 - Luiz Pedro a coisa lá tá feia, se entrar é morte certa.

Nesse momento, ele disse aquelas que seriam suas últimas palavras:

 - Um pernambucano morre, mas não quebra um trato.

Tudo isso ocorreu de maneira muito rápida e foi rapidamente que ele teve que tomar a sua decisão. Decidiu voltar. Voltou e morreu vítima do último tiro disparado naquele combate.

Hoje, no tempo da internet e da globalização, do outro lado do mundo, na terra do sol nascente, diante de um grave acidente nuclear, 180 homens aceitaram trabalhar voluntariamente para tentar conter um grande vazamento de radiação. Nós sabemos, e eles também devem saber, que o futuro lhes é extremamente incerto, é por isso que aproveito a oportunidade para desejar a todos eles o mais completo sucesso.

A história esta repleta de eventos em que uma única pessoa, ou um pequeno número delas, aceita sacrificar a própria vida em prol de uma causa. Os valores em jogo podem até sofrer variações, mas em todos esses eventos o que me admira é a capacidade que essas pessoas têm de abrir mão do bem mais precioso que se tem, a própria vida, para salvar a vida de outros ou até mesmo sua própria honra. Não importa se a história contada seja de 300 soldados de Esparta, um cangaceiro do sertão nordestino ou 180 samurais dos tempos modernos, as atitudes de coragem de todos eles merecem o meu mais profundo respeito.

Aos meus amigos desejo uma ótima semana e que a vida reserve a todos o melhor significado da palavra sucesso.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

OBS: Luiz Pedro é um personagem bem conhecido da história do cangaço. Para redigir esta crônica usei informações obtidas em algumas obras do maior historiador do cangaço, o Dr. Antônio Amaury Corrêa de Araújo.

(Escrito em 21/03/2011)


Em setembro de 2012, num passeio à cidade de São Paulo, tive a oportunidade de fazer uma visita ao Dr. Antônio Amaury Corrêa de Araujo. Fica aqui o registro da ocasião e uma homenagem a este grande homem e pesquisador.




Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...