sábado, 15 de setembro de 2012

Água de juá


Juá, o fruto

(Escrito em 10/01/2010)

Colegas de todos os goles

Qual a sua cerveja favorita? No mundo globalizado onde existem várias opções deste produto, tanto nacionais como importadas, não deixa de ser pertinente uma pergunta como essa, mas em tempos passados, em vários pontos do interior deste grande país, cerveja era uma bebida tão exótica quanto o amazônico açaí, que atualmente está em moda nas grandes cidades e ainda é desconhecido nas cidades do interior.

Em dezembro fui a Paulo Afonso, passar o natal com meus pais e beber um pouco da água do Velho Chico. Casualmente, encontrei com Petrúcio, um velho amigo que trabalhou muitos anos na Companhia Hidro Elétrica do São Francisco e hoje goza da sua bem merecida aposentadoria.

Petrúcio é natural de Água Branca, cidade situada numa região de serras que compõe a parte oeste do estado de Alagoas, e está a 570 metros acima do nível do mar. Por conta da altitude toda a região serrana tem um clima diferenciado em relação ao sertão que a circunda, de modo que lá existe uma boa produção de frutas e cana-de-açúcar o que proporcionou, em tempos passados, o surgimento de muitos engenhos para a produção de rapadura.

Apesar do micro-clima das regiões de serras proporcionar condições para a produção de espécies cujo cultivo seria simplesmente impossível nas terras mais baixas e secas, não existem grandes diferenças na flora predominante em ambas as regiões. A vegetação do sertão é assim, composta de cactáceas como mandacaru, facheiro, xique-xique e coroa de frade, árvores para produção de madeira e lenha como catingueira, mulungu, caraibeira, baraúna, aroeira e pau d’arco, além de fruteiras nativas como umbuzeiro, quixabeira e juazeiro.

O juazeiro é uma árvore que, independentemente da intensidade da seca, mantém uma copa firme e suas folhas sempre estão verdes. Seus frutos são redondos, pequenos e produzidos fartamente. Normalmente são doces, mas sempre produzem na boca um leve amargor. O sabor amargo devesse ao fato do juazeiro ser rico em saponinas, uma substância de efeito detergente, antifúngica e antiinflamatória, com eficácia comprovada na higiene bucal. Atualmente as indústrias farmacêuticas e de cosméticos utilizam os seus princípios ativos na composição de diversos produtos. O sertanejo que secularmente já conhecia as propriedades terapêuticas da árvore, na falta dos cremes dentais, usava o pó da casca da árvore para escovar os dentes ou fazia infusão para bochechos ou gargarejos contra afecções da boca e garganta.

No encontro que tive com o amigo, após as tradicionais perguntas sobre como vai a família e coisa e tal, relembramos uma história que ele havia me contado há alguns anos atrás e não pudemos deixar de dar algumas risadas.

Contou-me Petrúcio que, quando ainda era rapaz, morava num sítio na zona rural de Água Branca. Certo dia, ele foi a um casamento na redondeza. Um casamento no sertão era festa boa. Mesmo não sendo rica, a família da noiva esmerava-se por receber bem os convidados. Receber bem significava uma mesa farta, com aquilo que o sertanejo tinha de melhor a oferecer: carne a vontade, galinha de capoeira gorda, um carneiro, buchada, feijão de corda, arroz e pirão. Para animar: um sanfoneiro, um salão para dança e uma rodada de cachaça para "esquentar a titela" (esquentar o peito). Após a cerimônia religiosa a festa começou até que, em dado momento, um dos padrinhos convidou a todos para conhecer uma novidade que ele trouxera da cidade para os convidados da festa. Uma vez dita a palavra NOVIDADE, todos se interessaram em acompanhar o homem que se dirigiu a um depósito que fazia parte das instalações da propriedade e encontrava-se fechado até então. Ao abrir a porta do tal depósito o homem caminhou na direção de uma estranha caixa de madeira cheia de garrafas que estava colocada num canto do salão. Tomando uma das garrafas na mão o homem explicou a todos que aquilo era uma bebida chamada CERVEJA e diante da admiração de todos tirou do bolso um abridor de garrafas e abriu a primeira delas. Considerando-se a temperatura em que se encontrava a bebida o resultado não pode ser outro, a cerveja espumou e começou a subir pelo gargalo da garrafa. Imediatamente o homem começou a colocar o líquido espumoso nos copos dos convidados. Aqueles que vertiam os copos imediatamente só bebiam espuma e aqueles que esperavam a espuma se desfazer descobriam que o líquido resumia-se a apenas alguns milímetros no fundo do copo. Decidido a impressionar a matutada em redor e mostrando ser um "profundo" conhecedor de cerveja, o portador daquela novidade começou então a balançar as garrafas antes abri-las. A partir de então, quando retirava as tampinhas, a garrafa dava um pequeno estouro, a espuma então subia com mais pressão e todos davam gritos de alegria e colocavam os copos para mais uma rodada de espuma. Petrúcio, no meio daquele povo todo, provou da bebida e com aquele jeito de quem tenta estabelecer uma comparação com um sabor já conhecido disse:

 - Oxente! Parece com água de juá.

Por incrível que pareça, eu que já tive oportunidade de me escovar com a raspa da casca do juazeiro posso confirmar, seu gosto amargo realmente lembra o sabor da cerveja.

Pois bem caros colegas, enquanto desejo a todos uma ótima semana de trabalho, espero que, entre as atribulações de cada um, possa sobrar um tempinho para tomar uma cervejinha gelada, da marca que melhor apetecer e com um pequeno colarinho para não perder a elegância. Mas atenção, se for dirigir não beba e se for beber me chame.

Saúde, luz e paz.

Virgílio Agra


Juazeiro, a árvore



O juazeiro é uma árvore tão marcante na cultura sertaneja que cidades importantes foram batizadas com o seu nome. Além disso, esta árvore também já foi inspiração para músicas como "Juazeiro" de Luiz Gonzaga.

Fruto dessa sinergia entre árvore, cidades e música surge um verdadeiro clássico da música nordestina, "Juazeiro Petrolina", composta em 1978 por Jorge de Altinho, gravada inicialmente pelo Trio Nordestino, e aqui interpretada por Elba Ramalho, natural de Conceição - PB e Geraldo Azevedo, da própria Petrolina.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Paradinha no réveillon



escrito em 03/01/2010)

Colegas de todos os lugares.

Após um pequeno recesso pré e pós-natalino, estou eu aqui novamente, ajudando a entupir as suas caixas postais, enviando as saudações deste simples caeté.

Vocês podem até não acreditar, mas trabalhei bastante nos últimos dias do ano que terminou. Porém, pude usufruir de um natal maravilhoso, lá no sertão de Paulo Afonso, junto com minha esposa e filhas, meus pais, irmãs, cunhados, tia e sobrinhos, uma benção da qual não deixo de me orgulhar.

Espero que todos tenham tido um ótimo natal e um bom réveillon também. Eu, particularmente, não tenho do que me queixar. Na virada do ano a natureza foi mais uma vez generosa com a terra dos caetés, proporcionando uma noite de céu limpo, onde a luz da lua cheia pode refletir nas águas calmas da praia de Jatiúca, proporcionando um espetáculo contínuo e belo na última noite de 2009.

Após ter sido agraciado com uma noite maravilhosa à beira mar, junto a amigos e parentes, comemorando o fim de mais um ano e o início de outro, não posso deixar de lamentar os fatos que aconteceram no litoral fluminense e paulista por conta das fortes chuvas que lá ocorreram.

A bem da verdade, a noite de réveillon na capital caeté não foi livre de incidentes. Mas um deles, o mais pitoresco, foi a realização da primeira queima de fogos com "paradinha" do mundo. Quando a Prefeitura anunciou que "Na Ponta Verde vai haver uma queima de fogos com 15 minutos", eu logo me animei e pensei:

 - Vai ser arretado. Pé na areia, brisa do mar, lua cheia, champanhe e 15 minutos de fogos de artifício. Tudo estará perfeito.

O que eu não poderia imaginar é que, ao elaborarem o anúncio dos fogos, os marqueteiros apagaram a parte final da oração que originalmente foi assim elaborada:

 "Na Ponta Verde vai haver uma queima de fogos com 15 minutos, de atraso”.

Eu já ouvi falar de fuso horário e horário de verão, mas parece que desta vez conseguiram unir os dois e criaram o "horário confusão".

Através de um telão montado por um barraqueiro, do qual alugamos cadeiras de praia, assistimos a contagem regressiva da Rede Globo. Todo mundo abriu suas garrafas de espumante, o Hotel Jatiúca, próximo do local onde nos encontrávamos, iniciou sua queima de fogos para o nosso deleite e, graças aos recortes do litoral norte de Alagoas, podíamos assistir ao longe a queima de fogos dos hotéis situados na praia de Ipioca. Mas, ao olharmos na direção da praia de Ponta Verde, só víamos o piscar ritmado do simpático farol da Marinha do Brasil. Após terminado todos os fogos, esvaziadas todas as garrafas de Sidra e quando muitos já estavam deixando as areias e voltando para o calçadão, eis que de repente, como uma fênix que renasce das cinzas, a barcaça ancorada no ponto mais chic do litoral da capital alagoana começou a jogar para os céus luzes e estrelas coloridas. Finalmente, a barcaça dos fogos resolveu funcionar.

Muita gente saiu falando e reclamando, mas eu mesmo achei foi bom, pois pela primeira vez pude assistir a duas queimas de fogos no mesmo réveillon.

Eu não sei exatamente o que aconteceu. Vocês sabem que eu não gosto de fofoca, mas uma pessoa me falou que o fogueteiro se abufelou com uma turista italiana e, enquanto parlava d'amore e dava um nhoque na gringa, o fogo que ele acendeu não servia para queimar o pavio dos fogos. Se foi ou se não foi eu não sei, mas, com certeza, muitas outras versões existem para explicar o fato.

Colegas de norte a sul, um grande abraço a todos. Quero desta vez não apenas desejar uma ótima semana, mas um ano inteiro de muito sucesso para todos.

Um ano com muita saúde, luz e paz.

Virgílio Agra

domingo, 2 de setembro de 2012

Mirinda, Mirindão e refrigerante



(escrito em 08/12/2009)

Colegas de todos os paladares.

Quando em 1973 fui estudar no Recife, não passava de um menino matuto e besta, que saia das bancas do Instituto Sagrada Família, escola que tinha no máximo duzentos alunos, em Santana do Ipanema, interior de Alagoas, para estudar no Colégio Nóbrega, uma escola que tinha milhares de alunos desde o Jardim da Infância até o antigo Segundo Grau, hoje ensino médio. Após sete anos estudando neste histórico colégio completei o ensino médio em 1979, de modo que, no último final de semana, fui a capital pernambucana me encontrar com velhos colegas de colégio e comemorar os trinta anos de conclusão daquele período escolar.

Santana do Ipanema tinha àquela época em torno de 30.000 habitantes, enquanto que Recife já abrigava milhões de almas, prédios altos, multidões nas ruas, tráfego intenso, semáforos e televisão (em preto e branco, diga-se de passagem), cuja programação começava no início das tardes. À noite, as luzes dos anúncios luminosos refletiam nas águas do Capibaribe formando imagens dignas de um caleidoscópio gigante. Chegando a cidade, cruzando o Distrito Industrial do Curado, as indústrias ali instaladas anunciavam o peso econômico da cidade e algumas indústrias me chamavam particularmente a atenção como a indústrias de pilhas Ray-O-Vac, as amarelinhas, e a fábrica de sorvetes da Maguary. A primeira por ter uma pilha enorme bem na frente da fábrica e a segunda pela lembrança do sabor dos seus deliciosos sorvetes.

Espalhadas por vários pontos da cidade havia outro tipo de indústria que atraia muito a minha atenção, eram as fábricas de refrigerantes. No Recife existiam várias delas como a Coca-Cola, Crush, Clipper, Fratelli Vita e Mirinda. A Coca-Cola tinha uma fábrica na Jaqueira onde uma grande vidraça permitia que os transeuntes pudessem ver a máquina onde as garrafas passavam para receber o refrigerante e suas respectivas tampinhas. Uma outra, acho que era a Clipper, tinha a fábrica de frente para a Avenida Cruz Cabugá, onde o espetáculo da linha de produção também podia se apreciado por todos. Quando fui morar na capital das terras mamelucas já conhecia todas aquelas marcas de refrigerantes, exceto uma, a Mirinda.

De lá para cá muita coisa mudou. A fábrica de sovertes Maguary foi incorporada pela Kibon que por sua vez foi incorporada pela multinacional Unilever enquanto que a indústria de refrigerantes passou por profundas modificações. As pequenas fábricas de refrigerantes foram compradas pelas multinacionais, as garrafas de vidro foram substituídas pelas latas e pelos vasilhames de plástico e, como que simbolizando o crescimento dessas indústrias, surgiram as garrafas de tamanho família, 1 litro, 2 litros, litrão, litraço e outras coisas mais. No entanto, lá na distante Santana do Ipanema, já havia, há muitos anos, uma Mirindão, só que não era uma bebida e sim uma mulher.

Mirindão era louca e mendigava pelas ruas de Santana e, infelizmente, vivia sendo atormentada pelos moleques que insistiam em apelidá-la. Nunca soube qual o seu verdadeiro nome, mas, segundo uns velhos amigos do bairro da Maniçoba, ela detestava a alcunha de Mirindão. Todos os dias, na ida, ou na vinda da escola, quando a molecada avistava a pobre coitada começava o jogo de gritar o seu apelido.

 - Mirindão - gritava um.

 - Mirindão - gritava outro.

A coitada se aperreava, gritava um monte de palavrões, atirava pedras e nada fazia os meninos pararem. Finalmente, como último recurso contra os gritos da molecada, posicionava-se bem de frente para os meninos e levantando a saia com as duas mãos; gritava:

 - Olhe aqui o mirindão.

Era o que os meninos queriam. Após apreciarem o "click" paravam a gritaria e saiam sorrindo e satisfeitos para os seus destinos.

A fábrica da Mirinda fechou antes que eu tivesse oportunidade de provar o seu produto, logo, eu nunca provei Mirinda. Também nunca conheci pessoalmente Mirindão, mas, a bem da verdade, desde que provei a fruta pela primeira vez nunca mais deixei de gostar de refrigerante.

No último sábado, após um passeio com minha filha Janaína no Parque da Jaqueira, perto da antiga fábrica da Coca-Cola, paramos num mirante às margens do Rio Capibaribe para apreciar a vegetação de mangue que agora delineia todo o percurso do velho rio. Falei para ela das modificações da paisagem urbana da cidade e disse-lhe que, quando fui morar naquela cidade, os mangues eram indesejados porque, entre outras coisas, impediam que as pessoas vissem o reflexo das luzes nas águas do rio. Nos novos tempos o conceito de beleza urbana mudou e o verde das plantas é extremamente valorizado.

À noite, durante o encontro em que comemorávamos os trinta anos da conclusão do nosso período colegial, curiosamente, comentávamos sobre nossos filhos que estão nos dias de hoje completando esta fase das suas formações. O tempo passou e um novo ciclo se formou, mas, apesar do efeito que o tempo provocou sobre a cor, ou a quantidade dos nossos cabelos, o prazer de viver cultivando boas amizades é cada vez melhor, como uma fruta que amadurece no pé.

Colegas, aproveitando a oportunidade para desejar a todos uma ótima semana, gostaria de felicitar Janaína que hoje está completando mais um aniversário e também minha filha Juliana que ao concluir o seu ensino médio completa um ciclo que um dia comecei e também concluí.

Saúde, luz e paz.

Virgílio Agra.

PS: Dentre as marcas e nomes que marcaram os meus tempos de Recife, um deles foi o das Casas José Araújo, "onde quem manda é o freguês". Só a título de lembrete, vai aqui uma antiga propaganda dessa loja que transformou-se num grande sucesso carnavalesco, uma colaboração do meu compadre Evaldo, grande folião do incomparável carnaval de Olinda.


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