domingo, 11 de março de 2012

Fazendo a feira

Santana do Ipanema - Pátio da feira em 1948

(escrito em 10/05/2009)


Colegas de todas as feiras livres

Por que será que a gente diz que foi "fazer a feira"? Ninguém faz uma feira... pelo menos não, sozinho. O que cada um de nós é capaz de fazer, no máximo, é compras na feira. As feiras surgem com naturalidade e sobrevivem com tamanha persistência que desafiam o tempo e as legislações. Na cidade de Paulo Afonso, no sertão baiano, onde morei por quase 20 anos, em certa época a prefeitura abriu um conjunto de novas ruas com um largo para abrigar a feira da cidade, a intenção era remover a feira do local onde era realizada, em ruas estreitas, para um local mais amplo. O máximo que conseguiu, foi criar uma nova feira que passou a ser denominada de Feira Grande e a antiga feira, que existe até os dias de hoje, passou a ser denominada de Feirinha.

Hoje, morando na capital das terras caetés, costumo "fazer feira" na Feirinha da Jatiúca. Como o próprio nome já diz, trata-se de uma feira pequena, uma feira de bairro, e todas as vezes que para lá me dirijo não consigo deixar de me lembrar da minha época de criança, na minha cidade natal, quando ia com minha mãe "fazer a feira". Em Santana do Ipanema a feira acontecia, como até hoje, nos dias de sábado. Porém, como os feirantes já começavam a instalar suas toldas às sextas-feiras, o moradores da cidade, se antecipavam e "faziam a feira" nas sextas à noite, enquanto os moradores da zona rural lotavam as ruas centrais da cidade aos sábados.

Lembro-me que minha mãe me levava todas as sextas, não para passear, mas para carregar as compras, esta era uma das minhas atribuições na divisão dos afazeres domésticos. Meu pai nos levava de carro, e lá chegando, entrávamos naquele burburinho de bancas, gente e mercadorias. A primeira parada era no açougue. Considerando-se as atuais exigências dos órgãos de saúde pública, eu fico a me perguntar como eu, e toda a minha geração, conseguiu sobreviver consumindo a carne que era transportada e comercializada naquele lugar. Naquela época, toda pessoa que ia "fazer a feira", obrigatoriamente, levava cestas e sacolas para ir colocando os produtos comprados. Dentre esses equipamentos obrigatórios, lembro-me que levávamos sempre um pequeno balde de plástico que era usado exclusivamente para colocar a carne. Lembro-me que algumas pessoas usavam aqueles carrinhos com rodinhas próprios para transportar as compras, mas mamãe preferia usar umas cestas de palha de ouricuri e umas sacolas de cipó muito usadas naquela época. Será que essa preferência tinha alguma coisa a ver pelo fato de que quem carregava as sacolas era eu?

Em frente ao açougue havia um galpão coberto, usado para o comércio de farinha e cereais, era o Mercado da Farinha. Convém lembrar que no Nordeste Brasileiro quando alguém fala em farinha subentende-se estar se referindo àquela feita de mandioca, caso a pessoa queira referir-se a outro tipo qualquer, de trigo, por exemplo, tem que falar expressamente, senão poderá ser mal entendido. Interessante é observar que o gosto pelo produto varia muito de um lugar para outro. Enquanto lá na região norte os amazônicos gostam de uma farinha grossa e um pouco amarelada, lá no sertão de Alagoas ela tinha que ser alva e bem fininha, sendo que, independentemente de onde fosse produzida, era chamada de Farinha de Sergipe. Visando garantir a boa qualidade da farinha que consumíamos, meus pais preferiam comprar o produto através de encomendas feitas a pessoas que a produziam ou comercializavam na região, de modo que não me lembro de um dia ter feito compras no Mercado da Farinha.

Saindo do açougue começava uma longa romaria, primeiro na Feira das Verduras, que ocorria numa área mais plana no entorno do mercado, em seguida começava um sobe e desce pela rua onde se instalava a Feira das Frutas. É de se frisar o aspecto do subir e descer, porque a cidade foi construída nas encostas das serras que formavam o Vale do Rio Ipanema e as ladeiras de Santana são umas das características da cidade.

Minha mãe, sempre zelosa, procurava as frutas e verduras melhores e com o menor preço, então ia e vinha, subia e descia, pesquisando, escolhendo e pechinchando. O problema é que eu tinha que acompanhá-la e, conforme as compras iam se efetivando, as cestas, de palha, cipó ou nylon, iam ficando cada vez mais pesadas e eu ia fazendo, semanalmente, um misto de musculação com exercícios aeróbicos.

Terminadas as compras, algumas vezes retornávamos para casa de carro com papai, mas outras vezes minha mãe mandava que eu fosse logo para casa levando uma parte das compras e então eu partia, fazendo algumas paradas para descansar e trocar as sacolas de uma mão para a outra até chegar em casa. Com o tempo eu comecei a criar um desafio para mim mesmo, quanto tempo eu aguentaria sem parar, nem trocar as cestas de mão. Quando finalmente consegui cumprir todo o percurso, sem parada nenhuma, passei a admirar as marcas das alças que ficaram impressas nos meus dedos.

Hoje, "fazendo a feira" na Feirinha da Jatiúca, observo quantas diferenças existem entre aqueles tempos e o de hoje. Nos dias de pouco movimento alguns clientes param os carros em frente às bancas e são atendidos num verdadeiro "drive thru". As barracas são equipadas com balanças eletrônicas, máquinas de calcular e ainda disponibilizam "carrinhos de supermercado" para os clientes levarem suas compras até os seus automóveis. Já existem feirantes que prestam o atendimento "delivery", recebendo os pedidos dos clientes por telefone, fazendo as entregas através de "motoboys" e aceitando até ligação a cobrar. O coco seco é quebrado e raspado na hora, e se o cliente quiser, já leva a macaxeira descascada para casa. Até agora só não vi o pagamento com cartão de crédito, mas com certeza é apenas uma questão de tempo.

As feiras de hoje são práticas, cheias de comodidades e estrangeirismos, onde encontram-se frutas que as vezes são importadas, as vezes têm nomes esquisitos como kiwi e manga tommy athikins mas, apesar da praticidade, tenho saudades da feira de Santana do Ipanema, das frutas que vinham da Serra do Poço: manga rosa e manga espada, bananas maçã, prata, anã e pão, laranjas de vários tipos, caju e jaca.

Após tantos anos, sinto o quanto foi importante para mim ter subido e descido as ladeiras da Feira das Frutas acompanhando minha mãe, carregando as cestas e sacolas que marcavam o couro das mãos. É engraçado lembrar que as marcas nas mãos desapareciam em poucos minutos, mas as lições que ela me passou estão comigo até hoje. Hoje, minha mãe "faz a feira" na Feira Grande de Paulo Afonso enquanto eu "faço a feira" na Feirinha da Jatiúca. Agora eu acompanho outra mãe, a mãe das minhas filhas, mas hoje, os tempos são outros.

Espero que todos tenham uma ótima semana.

Desejo que todos possam gozar de boa saúde, muita paz e um carinho de mãe,

Virgílio Agra.

PS - 1: Para o conhecimento de todos, informo que atualmente os cartões de crédito já são aceitos na Feirinha da Jatiúca.


PS - 2: Já que o assunto é a feira-livre nordestina, que tal ouvir a versão dessa história em forma de musica, composta por Sivuca e Glorinha Gadelha, na interpretação com sotaque nordestino do Clã Brasil.


segunda-feira, 5 de março de 2012

Aos amigos, o bom exemplo da lei

Euclides Ribeiro
(escrito em 05/05/2009)

Colegas dos matos, de todos os diâmetros.

“Aos amigos a lei, aos inimigos os rigores da lei”. Qual dos filhos desta pátria mãe gentil nunca ouviu esta frase forjada na nossa crônica política?

Eis que no final de semana que passou, viajei às terras baianas de Paulo Afonso, a capital da energia. Resolvi aproveitar o feriadão do dia do trabalhador e comemorar, antecipadamente, o dia das mães. Entre uma conversa e outra, e ao sabor daquela comida gostosa que só as mães sabem fazer, lembrei-me de um velho amigo, melhor seria dizer... um irmão, Euclides Ribeiro, um sujeito cuja história é um exemplo para os amigos e até mesmo para os inimigos.

Nascido na Paraíba em 1920, sendo, portanto, paraibano e não “paraíba”, Euclides é uma das pessoas mais íntegras que tive a oportunidade de conhecer. Devido a sua extrema retidão colecionou muitos admiradores declarados e muitos desafetos enrustidos, daqueles que ruminam calado o seu descontentamento, porque sabem que nunca faltará alguém disposto a defender um homem digno.

Filho de família humilde Euclides teve que sair de casa cedo e, através das suas andanças, terminou ingressando para os quadros da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, empresa em que trabalhou com méritos até o dia da sua aposentadoria. Em 1988 foi nomeado Secretário Municipal da Prefeitura de Paulo Afonso, cargo que exerceu por 12 anos. Durante sua gestão à frente da Secretaria de Serviços Urbanos notabilizou-se por tomar atitudes firmes e acima de tudo honestas. Dentre as suas atribuições coube a implantação do Código de Postura Municipal que regulamentava, dentre outras coisas, a atividade de transporte em veículos de tração animal, bem como a criação na zona urbana dos animais usados naquela atividade.

Como é comum em inúmeras cidades deste grande país, lá em Paulo Afonso muitas famílias sobrevivem da atividade de transporte de pequenas cargas em carroças puxadas a cavalos ou burros. Infelizmente, muitos desses carroceiros não dão aos seus animais um tratamento adequado. Após o dia de serviço, alguns proprietários, ao invés de servir aos seus animais uma boa ração, simplesmente os solta para que os bichinhos saiam catando durante a noite alguma coisa para comer, contando com a própria sorte. Além de ser desumana, esta atitude submete os animais ao risco de atropelamentos. Além do que eles, na ânsia por alimentar-se, muitas vezes danificam parques e jardins. É óbvio que o estabelecimento de uma norma que visasse conciliar a sobrevivência de várias famílias, o bom trato aos animais e a preservação do patrimônio, tanto público como o privado, permitia vislumbrar a gestão de muitos conflitos. Ciente disto, Euclides Ribeiro primeiro certificou-se do Prefeito se de fato pretendia fazer com que fosse cumprida a lei. Diante da resposta afirmativa iniciou um programa de fiscalização que conseqüentemente envolvia a apreensão dos animais encontrados à solta. Nestas circunstâncias, eles eram conduzidos para um cercado de propriedade da prefeitura onde passavam a receber um tratamento mais adequado, sendo devolvidos aos respectivos donos mediante o pagamento da devida multa pela infração cometida. Logo nos primeiros dias, começou a chegar ao seu gabinete uma série de pessoas, cujos animais haviam sido apreendidos, portando "bilhetinhos" assinados por vereadores, correligionários políticos e similares. Ao ler os tais "bilhetinhos" Euclides calmamente escrevia no verso uma mensagem destinada ao emitente nos seguintes termos:

"Senhor "Fulano" queira por gentileza enviar quantia "tal" que a guia de liberação será emitida."

Curiosamente nenhum daqueles que escreveu os tais bilhetinhos foi capaz de fazer caridade com os recursos do seu próprio bolso.

Um belo dia, estava Euclides Ribeiro no seu local de trabalho quando entrou um rapaz para falar com ele. Tratava-se de um funcionário graduado de uma importante instituição sediada em Paulo Afonso. O assunto que o trazia... vocês bem podem imaginar. O cidadão que o procurava tinha, digamos assim, a melhor das intenções. O proprietário de um burro apreendido pela prefeitura resolveu apadrinhar-se dele para reaver seu animal livrando-se da tal multa. Sensibilizado com a situação do carroceiro, que realmente dependia do animal para garantir o seu sustento, o rapaz fora à Prefeitura para tentar a sua liberação. O Secretário conhecia-o muito bem e sabia que ele estava lá por uma razão meramente humanitária, não tendo nenhuma pretensão de usufruir de alguma vantagem política. Acontece que a liberação do animal sem o devido recolhimento da multa aos cofres públicos abriria um grave precedente. Diante desta situação, Euclides Ribeiro pensou rápido e encontrou uma solução que com certeza conciliaria o desejo de atender ao pedido de um amigo com o devido cumprimento da lei. Então disse:

- Pois não meu amigo, não posso lhe negar um pedido

Meteu a mão no bolso, pagou a taxa e entregou na mão do jovem atônito a respectiva Guia de Liberação, mostrando que amizade e legalidade podem harmonizar-se muito bem.

Eu poderia ter usado este espaço para contar a vida de mais um garoto pobre, que com 47 anos não tinha sequer o curso primário completo e que conseguiu um Diploma do Curso Superior de Administração, mas, mais importante que as lições escolares que ele aprendeu, é a lição de vida e de honradez que ele nos dá.

Lamentavelmente, enquanto eu estava no sertão baiano a chuva caia forte na capital caeté. Parece que desta vez, Maceió, também conhecida como o Paraíso das Águas, teve que mudar para a classificação de purgatório. Mas, felizmente, meu bairro não sofreu com as chuvas e o sol voltou a brilhar na cidade toda.

Desejo a todos uma ótima semana de trabalho.

Saúde e paz,

Virgílio Agra

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Dinheiro da Besta-Fera


(escrito em 26/04/2009)

Colegas... das ruas ou da mídia.

Esta semana me lembrei de um homem que conheci há muitos anos atrás. Trata-se de João Craíba. Não sei se este era seu nome de batismo ou alguma alcunha adquirida na vida, mas era assim, com esse nome, que o conheci.

João fora empregado do meu avô Virgílio. Naquele tempo, a relação entre patrão e empregado era muito diferente do que se vê hoje em dia. A relação entre as partes era de compadrio e era normal o empregado sentar à mesa com o patrão, compartilhando o mesmo alimento.

Além da confiança que tinha do meu avô, João também tinha muito afeto pelo meu pai, como se fora seu próprio filho. No sítio onde eles moravam não havia escola, de modo que quando chegou o tempo de meu pai estudar, ele teve que ir para a cidade e, nessa ocasião, era João Craíba quem o levava na garupa do animal, numa viagem de aproximadamente 20 quilômetros. Papai ficava na cidade a semana inteira e só voltava para casa nos finais de semana.

Os anos se passaram, Papai fixou residência na cidade enquanto João Craíba continuava morando lá no Sítio Caboré. Na década de 60 o governo criou o FUNRURAL, o programa que pretendia estender ao trabalhador rural o benefício da aposentadoria. Na época formavam-se mutirões para cadastrar os trabalhadores e trabalhadoras para o usufruto do benefício e meu pai participava desta ação como uma espécie de agente público. Lembro-me que aos domingos meu pai, juntamente com outras pessoas, ia aos povoados para realizar cadastros e eu, garoto à época, o acompanhava. Nesses lugarejos eu fazia amizade com os meninos do lugar e passávamos o dia brincando e subindo em árvores, mas o que eu mais gostava, era a viagem de ida e volta de carro.

Meu pai cadastrou muitas pessoas no exercício daquela missão. Um dia, lembrou-se de João Craíba. Foi procurá-lo. Queria que ele, agora já velho, tivesse alguma renda, pequena que fosse, para mantê-lo até o fim dos seus dias. Quando tratou-lhe o assunto a resposta foi surpreendente.

- Quero não! Quero não que isso é dinheiro da Besta-Fera.

Papai ficou assustado e pediu que ele explicasse.

- "Num" quero não. Pois eu sempre ouvi dizer que, quando a Besta-Fera viesse, ia sair por aí, distribuindo dinheiro "pr'o" povo. Um "home" tem que receber um dinheiro que ele ganhou com o seu suor. Como é que eu vou receber dinheiro sem ter "trabaiado"? Prá dar "dinheiro de graça", só sendo a Besta-Fera.

Após algumas explicações João finalmente foi convencido. Fez o seu cadastro e recebeu, até o fim dos seus dias, a justa aposentadoria.

Nos dias de hoje, num país onde parlamentares, parentes e aderentes exercem o direito de ir e vir, de avião, com o dinheiro do contribuinte, é em pessoas simples como João Craíba, um sertanejo, agricultor e analfabeto que eu encontro os exemplos que eu preciso de comportamento moral e ético.

Dirigindo-me a vocês como colegas e não como capangas, gostaria de desejar a todos uma boa semana de trabalho honesto.

Saúde, paz e vergonha para todos.

Virgílio Agra.


OBS: Como amostra do raciocínio dos bons sertanejos como João Craíba, segue agora a emblemática música composta pelo médico e compositor pernambucano Zé Dantas, na voz do imortal Rei do Baião, Luiz Gonzaga

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O som da broca do dentista faz o homem gemer sem sentir dor

(escrito em 19/04/2009)

Colegas de todas as dores.

Duvido ter um macho que tenha ousadia de dizer que não tem medo de broca de dentista. Se aparecer um homem ou mulher capaz de dizer uma coisa dessas, eu duvido que alguém acredite.

Eis que este pobre caeté encontra-se realizando tratamento dentário e, na semana que passou, teve o desprazer de ouvir o som que incomoda a 100% de todos aqueles que sentam na cadeira do dentista. Eu juro a vocês que passei mal, só por ouvir aquele som miserável. Antes de a dentista começar a encostar aquele aparelho de tortura nos meus dentes, o meu estômago contraiu-se de tal forma que quase desapareceu e eu me perguntei:

- Como é possível um aparelho me causar tamanho incômodo sem ao menos me tocar?

Vocês podem até discordar de mim, mas antes que terminasse a "sessão desconforto" eu cheguei à conclusão que existe uma relação direta entre a broca do dentista e a mulher. Ambas fazem um homem gemer sem sentir dor.

Aqueles que tiveram o prazer de viver os anos 80, com certeza, lembram-se quando Amelinha lançou a música "Mulher nova bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor". Foi um sucesso. E foi nessa época que uma amiga minha, moça, pura e donzela, durante a aula e perante toda a turma perguntou:

- Professor! Como é possível uma mulher fazer um homem gemer sem sentir dor?

Dá para imaginar a cena?... A turma inteira caiu na risada. O professor não respondeu a pergunta da aluna, mas, caso tivesse se lembrado da broca do dentista, talvez tivesse dado uma resposta que dispersaria, pelo menos momentaneamente, a sua dúvida e ainda estimularia os demais pupilos a perceberem, que na análise do binômio causa x efeito, o mesmo efeito pode ter origem em mais de uma causa.

Hoje, casada e mãe de família, minha amiga Lurdinha não tem mais essa dúvida, mas mantém um coração puro, presente em todos aqueles que não cansam nunca de fazer o bem ao próximo.

Desejo a todos uma ótima semana e uma boa saúde bucal.

Saúde e paz,

Virgílio Agra.


PS: "Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor", de Zé Ramalho e Otacílio Batista, foi um grande sucesso de audiência na voz de Amelinha. Aqui vai a interpretação dessa bela música na voz marcante de Zé Ramalho.
 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O tempo em que Santo Antônio viu o sol nascer quadrado

(escrito em 12/04/2009)

Colegas de todas as crenças.

Para aqueles que acham que Queimadas é um bando de mulheres que brincaram com fogo, segue uma pequena ressalva. Queimadas, com "Q" maiúsculo, é uma cidade do sertão baiano, distante cerca de 300 km de Salvador.

Eis que chega ao conhecimento deste pobre caeté que, no início do século XIX, D. Isabel Maria Guedes de Brito era proprietária, por herança, de imensa área de terras às margens do rio Itapicuru. Por conta de um milagre envolvendo sucessivos desaparecimentos de uma imagem de Santo Antônio e o seu reaparecimento ao pé de uma determinada árvore, D. Isabel mandou construir, no lugar onde se situava a tal árvore, uma capela consagrada ao santo milagreiro, consagração esta ocorrida em 13 de junho de 1815. O povoado passou a chamar-se então Santo Antônio das Queimadas. Extremamente devotada, além de construir a igreja, D. Isabel legou grande parte dos seus bens ao santo, tais como terras, gado e escravos.

Em uma ocasião qualquer, ocorreu o assassinato de um homem nas imediações da igreja e as "investigações" apontaram como assassino um escravo, cujo paradeiro não era conhecido. Acontece que as leis do período colonial diziam que, no caso de um crime ter sido cometido por um escravo e o mesmo não fosse apresentado à justiça, o seu proprietário responderia pelo delito. Como Santo Antônio era, legalmente, o proprietário do tal escravo, o coitado do Santo recebeu voz de prisão e foi levado amarrado no lombo de um burro, numa viagem de cerca de 160 km para a sede da Comarca, numa localidade conhecida como Água Fria, ficando preso no quarto da forca enquanto aguardava o desenrolar do processo.

Durante o processo, que durou anos, foram constituídos defensores, ouvidas testemunhas e realizadas audiências nas quais o Santinho teve que sentar no banco dos réus. Finalmente anunciado o veredito, o acusado foi considerado culpado e, proferida a sentença, o Santo teve apreendidos todos os seus bens que foram a leilão, tendo sido arrematados pelo Coronel Francisco de Paula Araújo Brito, de Inhambupe, cidade situada a cerca de 200 km de Santo Antônio das Queimadas.

De volta a sua igreja, pobre, sem possuir um palmo sequer de terra, o Santinho resolveu se vingar dos anos de xilindró. Em 1911 o rio Itapicuru botou uma cheia tão grande que simplesmente arrasou a vila. Calcula-se que a população da época estimada em 2.500 viventes, foi reduzida a menos de 1.000 habitantes.

O tempo passa, o tempo voa e mais uma vez alguém resolveu cutucar os calos do Santo. Em 1915 a então Vila Bela de Santo Antônio das Queimadas passou a categoria de cidade e foi rebatizada, sendo excluindo o nome do Santo, com o nome de Queimadas, nome que persiste até os dias de hoje. Mais uma vez o Santo mandou um recado. Em 22 de dezembro de 1929 o Capitão Lampião fez uma visitinha a este município. Rendeu os soldados da guarnição, soltou os presos da cadeia e prendeu os soldados no xadrez. Os cangaceiros saquearam a cidade, comeram a vontade e dançaram com as moças do lugar, mas, afora o natural constrangimento dos anfitriões, não desrespeitaram as famílias. Em compensação, perpetraram contra os soldados uma das piores chacinas da história do cangaço. Lampião executou todos os 7 soldados a golpes de punhal. Os cangaceiros abriam a grade da cadeia, pegavam um soldado que era conduzido até a calçada do prédio, colocado de joelhos e em seguida executado. Só escapou o sargento comandante da guarnição, porque houveram muitos pedidos da população em seu favor. Mas a história do sargento Evaristo Carlos da Costa é assunto para outra história.

Pois bem colegas, e é para as bandas de Feira de Santana, no estado da Bahia de Todos os Santos, inclusive Santo Antônio, que eu quero mandar um grande abraço, e os meus parabéns para a baiana e caeté honorária, Zeza Carmo, que com muita garra formou-se em Engenharia Ambiental. Parabéns Zeza, você é um exemplo de luta e merece a admiração de todos.

Nesta semana em que tive a honra de receber em terras caetés a visita da caeté honorária Penha Faber, mineira de nascimento, mas residente e apaixonada pela cidade maravilhosa, gostaria de desejar a todos uma ótima semana de trabalho, com muita garra para enfrentar os percalços da vida de todos nós.

Saúde e paz,

Virgílio Agra.

OBS: A história da prisão e julgamento de Santo Antônio pode ser conferida no livro do escritor baiano Oleone Coelho Fontes: O Treme-Terra, Moreira César, a República e Canudos.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Uns nascem para ser padre e outros para padecer

(escrito em 29/03/2009)

Colegas de todos os lugares

O rio Ipanema nasce no município de Pesqueira - PE e, descendo em direção ao rio São Francisco, corta o sertão de Alagoas de norte a sul, desembocando numa localidade conhecida como Barra do Ipanema. Foi no meio do percurso desse rio temporário, como são os rios sertanejos, à sua margem esquerda, no local onde o mesmo recebe as águas do riacho Camoxinga, que surgiu a cidade de Santana do Ipanema, cujo nome homenageia o rio e a sua padroeira Senhora Sant'Ana.

O Ipanema é largo e quando botava uma cheia só podia ser atravessado com canoas, mas quando passava a enchente e o rio secava, pelas suas areias brancas passava gente, animal e carro de bois. O Camoxinga por sua vez é apenas um riacho estreito, o que permitiu desde os tempos mais remotos a construção de obras de travessia. Perto da sua foz, primeiro foi erguida uma pinguela que de vez em quando era levada pelas cheias do riacho, posteriormente foi feita uma ponte de madeira até que, finalmente, foi construída uma ponte de concreto que está lá até os dias de hoje e é conhecida como a Ponte do Padre.

O nome da ponte surge como uma homenagem ao Padre Bulhões que foi pároco da cidade na primeira metade do século passado e morava exatamente do outro lado do Camoxinga de modo que, quem atravessava a ponte passava exatamente na frente da casa do velho patriarca. Natural de Entremontes, localidade situada às margens do canyon do Velho Chico, o Padre Bulhões foi durante meio século uma das maiores autoridades do sertão alagoano. Atuando junto ao povo de toda aquela região era respeitado e admirado por todos, pois ele foi muito mais do que um simples sacerdote, era como se fosse um pai daquelas gentes. Quando a matutada vinha para a feira em Santana, que acontecia na praça em frente à Igreja Matriz, a casa do padre era uma parada obrigatória, na qual todos vinham para pedir a benção e comer numa mesa grande e farta, na qual todos que chegavam podiam comer sem que nunca tivesse faltado comida para ninguém. Ao mesmo tempo em que era bondoso, como um verdadeiro pai também era também rigoroso, não admitindo desvios de comportamento de Seu Ninguém.

Conta-se que o Padre Bulhões tinha uma propriedade lá pras bandas da Barra do Ipanema, onde criava bodes. Naquele tempo a parte mais lucrativa da criação era o couro e não propriamente a carne. Um belo dia, um compadre contou-lhe que o vaqueiro da propriedade estava matando os bodes e faturando as peles por fora. Zangado e acima de tudo muito contrariado o padre sabia que tinha que tomar uma providência. Naquele tempo no sertão, o cabra que era pego roubando sabia que estava condenado à morte, mas esta solução contrariava os princípios éticos daquele santo homem. Após pensar sobre o caso mandou chamar o vaqueiro para uma "conversinha".

Quando o homem chegou, o Padre foi direto ao assunto. Se o patrão fosse outra pessoa talvez o cabra tentasse desmentir a informação, mas mentir para um padre, e ainda mais o Padre Bulhões, era adicionar um pecado grave à lista dos já cometidos. Percebendo que havia sido descoberto o vaqueiro confessou os furtos.

Aí o Padre gritou:

- Major!

A pessoa a quem o Padre chamara não se tratava de nenhuma autoridade policial ou algum remanescente da Guarda Nacional, tratava-se do seu sacristão que era conhecido por esta alcunha.

- Major! Vá agora mesmo chamar a polícia pra levar esse cabra pra cadeia.

Major prontamente atravessou a pinguela do Camoxinga e partiu em direção a cidade. O Padre voltando-se para o infeliz vaqueiro disse:

- Você vai levar uma pisa daquelas de largar o couro. Compreendeu? Compreendeu?

- Sim "Sinhô Seu Pade".

Apesar de saber o que o esperava o cabra não largava o pé do lugar. O medo da polícia era grande, mas o medo de uma maldição do Padre Bulhões era muito maior.

- Quantos filhos você tem?

- Oito "Seu Pade".

- Pois vão “tudo” morrer de fome, porque você vai morrer da pisa que vai levar. Compreendeu? Compreendeu?

- Sim "Sinhô Seu Pade".

Enquanto fustigava o vaqueiro com as suas reprimendas, o Padre olhava pela janela da sala de onde podia ver a pinguela e o caminho que levava à Praça da Matriz. Em determinado momento, ao dar a sua olhada pela janela, o Padre avistou Major fazendo o caminho de volta acompanhado de uma parelha de meganhas. Nesse momento, enfiou rapidamente a mão no bolso da batina, retirou uma nota de vinte mil réis, colocou na mão do vaqueiro e apontando para a porta dos fundos da casa disse:

- Corra desgraçado, porque se a polícia te pegar... Mata mesmo.

Imediatamente, o coitado, saindo pela porta dos fundos, atravessou o quintal do Padre que na época era um grande sítio e, passando sebo nas canelas, meteu-se de caatinga adentro.

Num instantinho os policiais chegaram à casa do Padre que apontando para a direção oposta da fuga gritou:

- Corram por ali que o cabra acabou de atravessar o "Panema".

Imediatamente os policiais saíram na maior carreira para prender aquele que havia ofendido o tão querido Padre Bulhões. Perseguidores para um lado... Perseguido para o outro.

Esse acontecido é um clássico da história da minha terra natal, mas, há uns dias atrás, tive a oportunidade de ouvi-la do filho do Padre Bulhões que ao contrário do que alguns possam estar pensando neste momento, não é filho de uma mula-sem-cabeça.
Silvio Bulhões é filho legítimo do cangaceiro Corisco e da cangaceira Dadá. Devido à vida errante os cangaceiros não podiam criar seus filhos, por isso mandava-os para que pessoas de bem os criassem. O Padre Bulhões criou Silvio, batizando-o com o seu sobrenome. O garoto cresceu, estudou, tornou-se professor e hoje é um avô aposentado que vive em Maceió.

Uma irmã de Silvio, Celeste, foi criada por meu bisavô, o Coronel Sebastião Medeiros. Mas aí... É outra história, de um tempo que virou história.

Desejo a todos uma boa semana de trabalho, estudo ou vida mansa.

Saúde e paz,

Virgílio Agra.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Nem colher nem serra elétrica


(Escrito em 22/03/2009)

Colegas de todas as taras.

Acho que todo mundo já deve ter ouvido falar no provérbio que diz: Em assunto de marido e mulher não se mete a colher. Sem querer entrar na seara do “politicamente correto”, gostaria de fazer uma simples pergunta: E serra elétrica? Pode?

Pois bem! Talvez por desconhecer o antigo brocardo latino "lends picantis in ânus outrem refrigerantum est", um jovem casal, lá pras bandas da terra do Tio Sam, resolveu, literalmente, "apimentar a relação". Acostumado a utilizar um vibrador durante as relações sexuais, o casal do estado yankee de Maryland, tentando aumentar a potência do brinquedinho sexual, teve a "brilhante" idéia de acoplá-lo a uma serra elétrica. Tudo correu bem até que chegou a hora de "um usá-lo no outrem". Não deu em outra, a serra atravessou a parede do vibrador atingindo em cheio a área de lazer. A mulher foi socorrida no hospital Prince George sendo liberada no dia seguinte. O homem teve que prestar esclarecimentos à polícia, mas foi liberado porque o ato, melhor dizer a besteira, foi consensual, não se constituindo em crime segundo a legislação norte-americana e lei, todos sabem muito bem, pode ser dura, mas "sed Lex".

Pois bem colegas, enquanto isso, na ilha onde tremula a "Union Jack", o britânico Gary Bates, de 38 anos, resolveu publicar um anúncio oferecendo sua mulher à venda com os seguintes termos: "Esposa reclamona. Sem taxas, sem inspeção. Manutenção muito elevada".

Esquecendo-se de dois princípios básicos, primeiro: "A propaganda é a alma do negócio"; segundo: "Tem gosto para tudo neste mundo"; o dublê de anta e súdito de sua majestade declarou-se chocado pelo fato de ter recebido cerca de dez ligações de indivíduos interessados no anúncio, fazendo ofertas pelo produto e até perguntando: "Será que ela ainda está disponível?"

Se a moda pega, talvez o mercado de esposas venha a ser uma alternativa no combate a recessão econômica.

Enquanto as antas vivem entre tapas, beijos e serras elétricas, a aeromoça tcheca Edita Schidlerova resolveu atuar como atriz pornô nas suas horas vagas. Segundo a companhia aérea, e eu concordo, o que ela faz antes ou depois do trabalho é problema dela. Porém, depois que uma repórter norte-americana em noticiário ao vivo, sobre o cardápio da companhia aérea Northeast Airlines, confundiu amendoins (peanuts) com pênis e considerando-se que muitos europeus não têm o hábito de lavar as mãos, eu estou profundamente preocupado com o rango servido a bordo dos aviões. Imaginem que uma aeromoça te oferece um alimento cujo nome parece "pênis" e ainda por cima você não sabe em que ela estava segurando antes de embarcar? É bom ficar atento e, para aqueles que vão viajar para a Europa, Edita Schindlerova tem 22 aninhos e trabalha na companhia irlandesa Ryanair.

Colegas, não os saudei à semana passada porque, devido a realização de eleições suplementares em algumas cidades alagoanas, este pobre caeté estava trabalhando para edificar a democracia deste país, por isso, gostaria de desejar em dobro uma ótima semana, com muito sucesso no trabalho e muita harmonia em casa, a vocês e todas as suas famílias.

Saúde e paz,

Virgílio Agra.
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