segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O tempo em que Santo Antônio viu o sol nascer quadrado

(escrito em 12/04/2009)

Colegas de todas as crenças.

Para aqueles que acham que Queimadas é um bando de mulheres que brincaram com fogo, segue uma pequena ressalva. Queimadas, com "Q" maiúsculo, é uma cidade do sertão baiano, distante cerca de 300 km de Salvador.

Eis que chega ao conhecimento deste pobre caeté que, no início do século XIX, D. Isabel Maria Guedes de Brito era proprietária, por herança, de imensa área de terras às margens do rio Itapicuru. Por conta de um milagre envolvendo sucessivos desaparecimentos de uma imagem de Santo Antônio e o seu reaparecimento ao pé de uma determinada árvore, D. Isabel mandou construir, no lugar onde se situava a tal árvore, uma capela consagrada ao santo milagreiro, consagração esta ocorrida em 13 de junho de 1815. O povoado passou a chamar-se então Santo Antônio das Queimadas. Extremamente devotada, além de construir a igreja, D. Isabel legou grande parte dos seus bens ao santo, tais como terras, gado e escravos.

Em uma ocasião qualquer, ocorreu o assassinato de um homem nas imediações da igreja e as "investigações" apontaram como assassino um escravo, cujo paradeiro não era conhecido. Acontece que as leis do período colonial diziam que, no caso de um crime ter sido cometido por um escravo e o mesmo não fosse apresentado à justiça, o seu proprietário responderia pelo delito. Como Santo Antônio era, legalmente, o proprietário do tal escravo, o coitado do Santo recebeu voz de prisão e foi levado amarrado no lombo de um burro, numa viagem de cerca de 160 km para a sede da Comarca, numa localidade conhecida como Água Fria, ficando preso no quarto da forca enquanto aguardava o desenrolar do processo.

Durante o processo, que durou anos, foram constituídos defensores, ouvidas testemunhas e realizadas audiências nas quais o Santinho teve que sentar no banco dos réus. Finalmente anunciado o veredito, o acusado foi considerado culpado e, proferida a sentença, o Santo teve apreendidos todos os seus bens que foram a leilão, tendo sido arrematados pelo Coronel Francisco de Paula Araújo Brito, de Inhambupe, cidade situada a cerca de 200 km de Santo Antônio das Queimadas.

De volta a sua igreja, pobre, sem possuir um palmo sequer de terra, o Santinho resolveu se vingar dos anos de xilindró. Em 1911 o rio Itapicuru botou uma cheia tão grande que simplesmente arrasou a vila. Calcula-se que a população da época estimada em 2.500 viventes, foi reduzida a menos de 1.000 habitantes.

O tempo passa, o tempo voa e mais uma vez alguém resolveu cutucar os calos do Santo. Em 1915 a então Vila Bela de Santo Antônio das Queimadas passou a categoria de cidade e foi rebatizada, sendo excluindo o nome do Santo, com o nome de Queimadas, nome que persiste até os dias de hoje. Mais uma vez o Santo mandou um recado. Em 22 de dezembro de 1929 o Capitão Lampião fez uma visitinha a este município. Rendeu os soldados da guarnição, soltou os presos da cadeia e prendeu os soldados no xadrez. Os cangaceiros saquearam a cidade, comeram a vontade e dançaram com as moças do lugar, mas, afora o natural constrangimento dos anfitriões, não desrespeitaram as famílias. Em compensação, perpetraram contra os soldados uma das piores chacinas da história do cangaço. Lampião executou todos os 7 soldados a golpes de punhal. Os cangaceiros abriam a grade da cadeia, pegavam um soldado que era conduzido até a calçada do prédio, colocado de joelhos e em seguida executado. Só escapou o sargento comandante da guarnição, porque houveram muitos pedidos da população em seu favor. Mas a história do sargento Evaristo Carlos da Costa é assunto para outra história.

Pois bem colegas, e é para as bandas de Feira de Santana, no estado da Bahia de Todos os Santos, inclusive Santo Antônio, que eu quero mandar um grande abraço, e os meus parabéns para a baiana e caeté honorária, Zeza Carmo, que com muita garra formou-se em Engenharia Ambiental. Parabéns Zeza, você é um exemplo de luta e merece a admiração de todos.

Nesta semana em que tive a honra de receber em terras caetés a visita da caeté honorária Penha Faber, mineira de nascimento, mas residente e apaixonada pela cidade maravilhosa, gostaria de desejar a todos uma ótima semana de trabalho, com muita garra para enfrentar os percalços da vida de todos nós.

Saúde e paz,

Virgílio Agra.

OBS: A história da prisão e julgamento de Santo Antônio pode ser conferida no livro do escritor baiano Oleone Coelho Fontes: O Treme-Terra, Moreira César, a República e Canudos.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Uns nascem para ser padre e outros para padecer

(escrito em 29/03/2009)

Colegas de todos os lugares

O rio Ipanema nasce no município de Pesqueira - PE e, descendo em direção ao rio São Francisco, corta o sertão de Alagoas de norte a sul, desembocando numa localidade conhecida como Barra do Ipanema. Foi no meio do percurso desse rio temporário, como são os rios sertanejos, à sua margem esquerda, no local onde o mesmo recebe as águas do riacho Camoxinga, que surgiu a cidade de Santana do Ipanema, cujo nome homenageia o rio e a sua padroeira Senhora Sant'Ana.

O Ipanema é largo e quando botava uma cheia só podia ser atravessado com canoas, mas quando passava a enchente e o rio secava, pelas suas areias brancas passava gente, animal e carro de bois. O Camoxinga por sua vez é apenas um riacho estreito, o que permitiu desde os tempos mais remotos a construção de obras de travessia. Perto da sua foz, primeiro foi erguida uma pinguela que de vez em quando era levada pelas cheias do riacho, posteriormente foi feita uma ponte de madeira até que, finalmente, foi construída uma ponte de concreto que está lá até os dias de hoje e é conhecida como a Ponte do Padre.

O nome da ponte surge como uma homenagem ao Padre Bulhões que foi pároco da cidade na primeira metade do século passado e morava exatamente do outro lado do Camoxinga de modo que, quem atravessava a ponte passava exatamente na frente da casa do velho patriarca. Natural de Entremontes, localidade situada às margens do canyon do Velho Chico, o Padre Bulhões foi durante meio século uma das maiores autoridades do sertão alagoano. Atuando junto ao povo de toda aquela região era respeitado e admirado por todos, pois ele foi muito mais do que um simples sacerdote, era como se fosse um pai daquelas gentes. Quando a matutada vinha para a feira em Santana, que acontecia na praça em frente à Igreja Matriz, a casa do padre era uma parada obrigatória, na qual todos vinham para pedir a benção e comer numa mesa grande e farta, na qual todos que chegavam podiam comer sem que nunca tivesse faltado comida para ninguém. Ao mesmo tempo em que era bondoso, como um verdadeiro pai também era também rigoroso, não admitindo desvios de comportamento de Seu Ninguém.

Conta-se que o Padre Bulhões tinha uma propriedade lá pras bandas da Barra do Ipanema, onde criava bodes. Naquele tempo a parte mais lucrativa da criação era o couro e não propriamente a carne. Um belo dia, um compadre contou-lhe que o vaqueiro da propriedade estava matando os bodes e faturando as peles por fora. Zangado e acima de tudo muito contrariado o padre sabia que tinha que tomar uma providência. Naquele tempo no sertão, o cabra que era pego roubando sabia que estava condenado à morte, mas esta solução contrariava os princípios éticos daquele santo homem. Após pensar sobre o caso mandou chamar o vaqueiro para uma "conversinha".

Quando o homem chegou, o Padre foi direto ao assunto. Se o patrão fosse outra pessoa talvez o cabra tentasse desmentir a informação, mas mentir para um padre, e ainda mais o Padre Bulhões, era adicionar um pecado grave à lista dos já cometidos. Percebendo que havia sido descoberto o vaqueiro confessou os furtos.

Aí o Padre gritou:

- Major!

A pessoa a quem o Padre chamara não se tratava de nenhuma autoridade policial ou algum remanescente da Guarda Nacional, tratava-se do seu sacristão que era conhecido por esta alcunha.

- Major! Vá agora mesmo chamar a polícia pra levar esse cabra pra cadeia.

Major prontamente atravessou a pinguela do Camoxinga e partiu em direção a cidade. O Padre voltando-se para o infeliz vaqueiro disse:

- Você vai levar uma pisa daquelas de largar o couro. Compreendeu? Compreendeu?

- Sim "Sinhô Seu Pade".

Apesar de saber o que o esperava o cabra não largava o pé do lugar. O medo da polícia era grande, mas o medo de uma maldição do Padre Bulhões era muito maior.

- Quantos filhos você tem?

- Oito "Seu Pade".

- Pois vão “tudo” morrer de fome, porque você vai morrer da pisa que vai levar. Compreendeu? Compreendeu?

- Sim "Sinhô Seu Pade".

Enquanto fustigava o vaqueiro com as suas reprimendas, o Padre olhava pela janela da sala de onde podia ver a pinguela e o caminho que levava à Praça da Matriz. Em determinado momento, ao dar a sua olhada pela janela, o Padre avistou Major fazendo o caminho de volta acompanhado de uma parelha de meganhas. Nesse momento, enfiou rapidamente a mão no bolso da batina, retirou uma nota de vinte mil réis, colocou na mão do vaqueiro e apontando para a porta dos fundos da casa disse:

- Corra desgraçado, porque se a polícia te pegar... Mata mesmo.

Imediatamente, o coitado, saindo pela porta dos fundos, atravessou o quintal do Padre que na época era um grande sítio e, passando sebo nas canelas, meteu-se de caatinga adentro.

Num instantinho os policiais chegaram à casa do Padre que apontando para a direção oposta da fuga gritou:

- Corram por ali que o cabra acabou de atravessar o "Panema".

Imediatamente os policiais saíram na maior carreira para prender aquele que havia ofendido o tão querido Padre Bulhões. Perseguidores para um lado... Perseguido para o outro.

Esse acontecido é um clássico da história da minha terra natal, mas, há uns dias atrás, tive a oportunidade de ouvi-la do filho do Padre Bulhões que ao contrário do que alguns possam estar pensando neste momento, não é filho de uma mula-sem-cabeça.
Silvio Bulhões é filho legítimo do cangaceiro Corisco e da cangaceira Dadá. Devido à vida errante os cangaceiros não podiam criar seus filhos, por isso mandava-os para que pessoas de bem os criassem. O Padre Bulhões criou Silvio, batizando-o com o seu sobrenome. O garoto cresceu, estudou, tornou-se professor e hoje é um avô aposentado que vive em Maceió.

Uma irmã de Silvio, Celeste, foi criada por meu bisavô, o Coronel Sebastião Medeiros. Mas aí... É outra história, de um tempo que virou história.

Desejo a todos uma boa semana de trabalho, estudo ou vida mansa.

Saúde e paz,

Virgílio Agra.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Nem colher nem serra elétrica


(Escrito em 22/03/2009)

Colegas de todas as taras.

Acho que todo mundo já deve ter ouvido falar no provérbio que diz: Em assunto de marido e mulher não se mete a colher. Sem querer entrar na seara do “politicamente correto”, gostaria de fazer uma simples pergunta: E serra elétrica? Pode?

Pois bem! Talvez por desconhecer o antigo brocardo latino "lends picantis in ânus outrem refrigerantum est", um jovem casal, lá pras bandas da terra do Tio Sam, resolveu, literalmente, "apimentar a relação". Acostumado a utilizar um vibrador durante as relações sexuais, o casal do estado yankee de Maryland, tentando aumentar a potência do brinquedinho sexual, teve a "brilhante" idéia de acoplá-lo a uma serra elétrica. Tudo correu bem até que chegou a hora de "um usá-lo no outrem". Não deu em outra, a serra atravessou a parede do vibrador atingindo em cheio a área de lazer. A mulher foi socorrida no hospital Prince George sendo liberada no dia seguinte. O homem teve que prestar esclarecimentos à polícia, mas foi liberado porque o ato, melhor dizer a besteira, foi consensual, não se constituindo em crime segundo a legislação norte-americana e lei, todos sabem muito bem, pode ser dura, mas "sed Lex".

Pois bem colegas, enquanto isso, na ilha onde tremula a "Union Jack", o britânico Gary Bates, de 38 anos, resolveu publicar um anúncio oferecendo sua mulher à venda com os seguintes termos: "Esposa reclamona. Sem taxas, sem inspeção. Manutenção muito elevada".

Esquecendo-se de dois princípios básicos, primeiro: "A propaganda é a alma do negócio"; segundo: "Tem gosto para tudo neste mundo"; o dublê de anta e súdito de sua majestade declarou-se chocado pelo fato de ter recebido cerca de dez ligações de indivíduos interessados no anúncio, fazendo ofertas pelo produto e até perguntando: "Será que ela ainda está disponível?"

Se a moda pega, talvez o mercado de esposas venha a ser uma alternativa no combate a recessão econômica.

Enquanto as antas vivem entre tapas, beijos e serras elétricas, a aeromoça tcheca Edita Schidlerova resolveu atuar como atriz pornô nas suas horas vagas. Segundo a companhia aérea, e eu concordo, o que ela faz antes ou depois do trabalho é problema dela. Porém, depois que uma repórter norte-americana em noticiário ao vivo, sobre o cardápio da companhia aérea Northeast Airlines, confundiu amendoins (peanuts) com pênis e considerando-se que muitos europeus não têm o hábito de lavar as mãos, eu estou profundamente preocupado com o rango servido a bordo dos aviões. Imaginem que uma aeromoça te oferece um alimento cujo nome parece "pênis" e ainda por cima você não sabe em que ela estava segurando antes de embarcar? É bom ficar atento e, para aqueles que vão viajar para a Europa, Edita Schindlerova tem 22 aninhos e trabalha na companhia irlandesa Ryanair.

Colegas, não os saudei à semana passada porque, devido a realização de eleições suplementares em algumas cidades alagoanas, este pobre caeté estava trabalhando para edificar a democracia deste país, por isso, gostaria de desejar em dobro uma ótima semana, com muito sucesso no trabalho e muita harmonia em casa, a vocês e todas as suas famílias.

Saúde e paz,

Virgílio Agra.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Cardápio erótico


(Escrito em 01/03/2009)

Colegas de todos os paladares

Imaginem que vocês estejam voando para realizar aquelas férias dos sonhos, para fechar aquele negócio tão importante, ou mesmo em lua-de-mel e, de repente, a aeromoça ou aero moço chega até você e te oferece "pênis".

Imaginou?

Pois bem. Tal hipótese não aconteceu numa aeronave em pleno ar, mas num programa jornalístico da CNN que foi ao ar, lá pras bandas da terra do Tio Sam. A apresentadora Zain Verjee deu o maior vexame ao noticiar ao vivo o fato da Northwest Airlines ter voltado a servir amendoins aos seus passageiros. A gororoba servida pela companhia aérea foi motivo de reportagem em cadeia nacional pelo fato de incluir a distribuição de amendoins, alimento ao qual algumas pessoas apresentam alergia. Mas a reportagem saiu do campo da saúde pública para o campo do erotismo porque o termo "amendoins", que em inglês escreve-se "peanuts", tem uma pronúncia muito parecida com outro do idioma de Shakespeare que é a palavra "penis", cuja tradução para o português é a mesma coisa com um circunflexo a mais. O problema é que a anta, digo a repórter, simplesmente não percebeu a cacofonia e chegou a pronunciar duas vezes a tão simbólica palavra.

Fico só imaginando o frisson causado nos lares yankees, onde muitos puritanos devem ter desligado a televisão e colocado as crianças para dormir mais cedo, mas, segundo uma fonte fidedigna, eu soube que durante dois dias a companhia aérea recebeu vários telefonemas de pessoas querendo fazer reserva nos vôos que ofereciam tão inusitado produto.

Em tempo, gostaria de informar que:

- Cerca de 3 milhões de americanos são alérgicos a amendoins (peanuts) ou nozes;

- Cerca de 7 milhões de americanos são alérgicos a frutos do mar;

- Alergias a alimentos provocam cerca de 150 mortes por ano na terra do Tio Sam;

- Pedólogo é aquele que estuda os solos;

- Podólogo é aquele especialista em doenças dos pés;

- Pedófilo é um grande f.d.p.

- e Peidólogo é, segundo o caeté honorário Ivan Varella, aquele especialista em tudo aquilo que não cheira bem.

Falando em coisas que não cheiram bem, gostaria de deixar observado que a recente decisão da Justiça Eleitoral de cassar o mandato do Governador da Paraíba fez justiça eleitoral, mas criou um problema para o pacto federativo, visto que agora quem governa a Paraíba... é Maranhão.

Considerando-se o aniversário da Cidade Maravilhosa, gostaria de transmitir, com a licença do Cristo Redentor, saudações cariocas a todos e uma boa semana de trabalho.

Saúde e paz,

Virgílio Agra.

Nota: José Targino Maranhão, nascido na cidade de Araruna, governou a Paraíba por três vezes.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Qualquer semelhança dá cadeia

Canyon do Talhado. Foto Geyzon Robson

(Escrito em 16/02/2009)

Colegas de todas as profissões.

Lembro-me que certo dia, assistindo uma palestra de Ariano Suassuna, o mesmo dizia que no tempo dele as universidades davam três opções àqueles que nelas ingressavam: Direito, Engenharia e Medicina. Como ele não tinha estômago para ficar fuçando entranhas de lagartixas nem cabeça para viver fazendo contas, formou-se em Direito por simples falta de opção. Nos tempos de hoje a quantidade de opções são tantas que às vezes fica até difícil aos candidatos a uma vaga na Academia escolher uma delas.

Há alguns anos conheci um rapaz chamado Nonato. Natural do sertão alagoano, filho de uma família simples, Nonato estudou, entrou na universidade e formou-se em Agronomia. Na continuidade da sua carreira profissional o mesmo tornou-se professor da Universidade Federal de Alagoas e especialista em estudo dos solos.

Certo dia ele me levou para conhecer uma propriedade que possuía na região do canyon do Rio São Francisco, onde, posteriormente, tive oportunidade de acampar, pois além do local nos deleitar com uma paisagem belíssima, ainda proporcionava ótimos banhos nas águas serenas do Velho Chico, represadas pela barragem de Xingó.

Nonato contou-me que certa ocasião encontrou um amigo que há muitos anos não via. O tal amigo, ciente do seu sucesso profissional, contente com aquele encontro casual, não teve nenhuma cerimônia em expressar sua alegria. Bastante efusivo nos cumprimentos ao amigo, no entusiasmo do encontro, resolveu apresentá-lo a um grupo de pessoas que o acompanhava. O cara estava simplesmente eufórico, a trajetória profissional de Nonato, aliada a sua condição de professor universitário tornava-o uma figura ilustre aos olhos daquele velho amigo. O entusiasmo foi tanto que ele, voltando-se para aqueles que o acompanhavam, gritou:

- Pessoal! Queria apresentar para vocês o maior "pedófilo" do estado de Alagoas.

Não precisa dizer que naquele momento todas as atenções do mundo voltou-se para o coitado do Nonato, uns horrorizados, outros atônitos sem entender o que estava acontecendo enquanto ele, no meio de todos, tentava explicar que aquela designação não passava de um equívoco do seu entusiasmado amigo, da onça diga-se de passagem. Acontece que a ciência que estuda os solos é a PEDOLOGIA, logo ele era sim um PEDÓLOGO e não um PEDÓFILO, como afirmara o seu atrapalhado amigo.

Pois, pois, caros colegas. Desejo a todos uma ótima semana e muita prudência no uso das palavras, elas podem provocar muito mais do que um simples vexame.

Saúde, paz e um grande abraço a todos.
Virgílio Agra

domingo, 4 de dezembro de 2011

Fogão a gás


(Escrito em 09/02/2009)

Colegas de todos os níveis tecnológicos.

Imaginem vocês, se um dia aparecesse alguém anunciando que inventou um sistema no qual, o produto resultante da queima da gasolina nos motores dos automóveis poderia ser armazenado e usado novamente para abastecer outros veículos. Como poderia a gasolina queimar e depois queimar de novo? Qual seria a sua reação?

Imaginem agora como era a vida no sertão nordestino nos meados do século passado, numa época em que as viagens eram feitas a pé ou a cavalo, as cargas eram transportadas em carros de bois ou em tropas de burros e conduzidas por almocreves (tropeiros) por estradas que hoje seriam classificadas, nada mais nada menos, como simples trilhas. Nas poucas linhas férreas existentes, o transporte cabia às Marias-Fumaça alimentadas a lenha e água. Os produtos que chegavam de fora desse mundo à parte limitavam-se àqueles que não podiam ser produzidos na região, como tecidos finos, querosene, sal e alguns poucos mais. As pessoas viviam com aquilo que a terra podia produzir e na mesa das gentes da caatinga costumava-se dizer:

- A única coisa comprada na minha mesa é o sal.

Pois o feijão, a farinha e o milho; o leite, o queijo, a coalhada e a manteiga; a carne e os ovos; a macaxeira, a batata e o inhame; o café e a rapadura para adoçar eram todos produzidos no lugar. As famílias mais pobres cozinhavam num fogão de "trempe", onde três pedras grandes apoiavam uma panela de barro, deixando um espaço para colocar a lenha por baixo. Nas casas das famílias mais abastadas, onde, além das panelas de barro, havia as panelas de ferro ou de cobre, havia um fogão feito de barro onde, da lenha queimada, só sobravam cinzas e brasas.

Cozinhar num fogão de lenha pode ser muito romântico, mas não é nada fácil. A lenha precisa ser rachada para caber nas bocas dos fogões, na época do inverno a umidade e o frio tornam difícil a sua queima e, para completar, produzem muita fumaça que arde nos olhos e torna a cozinha um lugar bastante insalubre.

Manter o fogo acesso naquela época era um trabalho sem fim. Uma caixa de fósforos era artigo de luxo. Caso o fogo apagasse, alguém precisaria ir à casa de um vizinho para buscar brasas, às vezes caminhando longas distâncias. O mensageiro tinha que ir e voltar rápido, para que a comida pudesse ser preparada. Não é a toa que, até hoje, costuma-se dizer que um visitante que entrou e saiu rapidamente "veio buscar fogo".

Foi num cenário como este que por volta dos anos 50, talvez 60, lá para aquelas bandas, chegaram uns homens do governo dizendo que iriam ensinar ao povo um jeito de como a lenha poderia render mais, ocupar menos espaço e produzir menos fumaça. Eles estavam tratando da produção do carvão vegetal. Tratava-se então de um grande avanço tecnológico para a época e o lugar. Porém, quando explicaram que para produzir o carvão, a lenha deveria ser colocada em um forno onde em seguida seria ateado fogo, a descrença foi geral. A grande pergunta era:

- Como pode a lenha queimar e depois queimar de novo?

A experiência deu certo e, sob certos aspectos, houve uma melhora na qualidade de vida do homem do campo.

À semana passada, conversando com um colega de trabalho e também conterrâneo meu, o mesmo contou que um seu tio mora numa fazenda em pleno sertão alagoano usufruindo de energia elétrica, TV, telefonia celular e internet. Com certeza grandes conquistas tecnológicas do nosso tempo e todas acessíveis naquele lugar.

Naquela conversa com o colega veio à memória a imagem da minha avó. Vovó Lindalva nasceu no início do século passado. Apesar de ter tido os olhos ardidos na fumaça do fogão de lenha, pôde viver o bastante para ver televisão e conhecer uma série de avanços tecnológicos do final do século passado. Apesar dela afirmar com muita segurança que o mundo não alcançaria o ano 2000, pôde assistir a passagem do século e só partiu para outra dimensão três anos depois. Lembrei-me do tempo em que ela fazia uns bolinhos de milho fritos no óleo e depois polvilhados com açúcar e canela que a gente adorava e chamava de “Bololó”. Ela sempre reclamava dizendo que o nome certo não era aquele, mas ninguém levava a sério e todo mundo acabava comendo e rindo. Quando Vovô Gaspar era vivo e eles moravam na Fazenda Esperança, nos tempos de fartura do leite, eles faziam coalhada e juntavam nata para fazer manteiga batida à mão. Pronta a coalhada a mesma era cozida no fogão de carvão e em seguida mexida num tacho com a manteiga, produzindo então o chamado Queijo de Manteiga ou Queijo de Fogo, do qual eu tenho ótimas lembranças.

Certo dia, conversando com Vovó, falávamos sobre os avanços da medicina e as maravilhas da tecnologia humana como a televisão e o telefone; sobre as grandes obras de engenharia e até da chegada do homem à lua quando, de repente, ela disse com aquele jeito de avó, um jeito manso e sábio:

- É meu filho, Deus deu muita inteligência ao homem, mas para mim a coisa mais importante que o homem já inventou foi o fogão a gás.

É colegas, como já dizia o grande Einstein: "Tudo é relativo". Para quem vive na era do cyber espaço, notebook e vídeo conferência, o comentário de Vovó Lindalva pode soar como um absurdo, mas se nos colocarmos no seu lugar... Pensem bem! A coisa até que faz sentido.

Desejo a todos uma ótima semana, na qual possamos refletir sobre o valor de todas as dádivas que recebemos a cada dia, como a vida, a saúde, a família, os amigos, o trabalho... Aproveitando a oportunidade gostaria de repassar a toda a família caeté um abraço enviado por Nathalie Gazaneo, apesar dela ter dito que minhas histórias são de pescador... Sei não... Sei não...

Saúde e paz,

Virgílio Agra

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Gatos, gatas e gatunos



(Escrito em 02/02/2009)

Colegas amantes de todos os animais.

Os países ricos costumam se vangloriar do seu poder econômico, militar ou científico, no entanto se esquivam de comentar a pirataria biológica ou a cooptação de cientistas de países pobres que são levados para os seus centros de pesquisa para produzir os conhecimentos que lhes proporcionam este tão decantado poder. Não satisfeitos com a compra de mentes e com o tráfico de plantas e animais para suas pesquisas, de vez em quando aparece um engraçadinho que resolve roubar (a palavra certa é roubar) conceitos e marcas tradicionais de povos de países pobres, como o nosso por exemplo.

Há uns tempos atrás um sujeitinho resolveu patentear a palavra "cachaça", outro patenteou a palavra "rapadura" e teve outro moleque que resolveu patentear a palavra "cupuaçu". Não satisfeitos com tantos roubos de idéias, os japoneses resolveram “entrar na onda” e copiar uma antiga idéia brasileira, anunciando como "novidade" o lançamento dos "cat cafés".

Deixe-me explicar:

Trata-se de um estabelecimento onde, ao custo de aproximadamente R$23,00, os clientes da casa podem desfrutar da companhia de gatos, podendo acariciá-los e até tirar fotos com seus bichanos favoritos. Segundo a BBC, o Ja La La Café (o nome de La La, deve ser para ressaltar que o lugar é lá... lá... bem longe daqui) tem a disposição da sua clientela cerca de 12 gatos. Ainda segundo a BBC a maioria dos frequentadores da casa são homens solteiros. Faltou a BBC publicar que no Brasil, há muito tempo, os homens solteiros frequentam casas onde desfrutam da companhia de "gatas", podendo acariciá-las e até tirar fotos com suas "gatas" favoritas (algumas dessas fotos vão até parar na internet). Os japoneses se orgulham tanto da sua criatividade, mas estão longe de se comparar a criatividade brasileira que além dos estabelecimentos especializados em "gatas" também oferecem a opção da companhia com "piranhas" ou "galinhas", de acordo com o gosto do freguês. O brasileiro é tão imaginativo quando o assunto é o convívio com animais que o jogador Ronaldo, enjoado do convívio dos bichos, resolveu variar procurando "bichas". Imaginem o tamanho da "imaginação"...

Eu sei que muitos me acham exagerado. Minha sobrinha do coração Nathalie Gazaneo, caeté de nascimento, veio me dizer que: "Quem conta um conto, aumenta um ponto". Não quero contestá-la, mas, para aqueles que duvidam da falta de imaginação dos filhos da terra do sol nascente, segue agora outra notícia.

Segundo o portal G1, o fabricante japonês Sega Toys, aproveitando a idéia do personal trainer, inventou um fone de ouvido denominado de "Love Trainer". Segundo o fabricante, o aparelho que funciona com uma pilha, monitora os batimentos cardíacos do usuário, pode ser adaptado a um iPod, reproduz sons e músicas cientificamente testados, dá orientações sobre o ritmo a ser seguido na hora do "I love you" e sugere frases para serem ditas para criar o clima... Entende?

Imaginem só? Tá lá o japa, aceso que só o sol nascente, fone nos ouvidos, ligado no iPod, com a espada do samurai em punho, chega para a japinha e diz:

- Aí pode?

A namorada se vira e simplesmente diz:

- Não pode.

É numa hora dessas que bate o vento leste e o kamikaze fica só no "quase-come".

Imaginativo igual ao brasileiro não existe. Eis que lá pras bandas do Mato Grosso do Sul "Billy da Silva Rosa", um gato da família dos felinos que residia em Antônio João, um dos municípios mais pobres do estado, estava cadastrado no Programa Bolsa Família pelo seu próprio "pai", recebendo o auxílio de R$20,00 durante 7 meses. A imaginação do seu "pai" foi tamanha que, além de cadastrá-lo no Programa, baseando-se no princípio de que um gato tem 7 vidas, ainda conseguiu continuar recebendo o benefício após a sua morte. O consolo que nos fica é saber que o "pai gatuno" foi exonerado a bem do serviço público e irá responder processo judicial.

Caros colegas, ao mesmo tempo em que desejo a todos uma ótima de semana de trabalho, com muito bom humor, desejo também vida longa, para que no futuro possamos contar aos nossos netos a lenda de "Billy The Kid", lá da terra do Tio Sam, e a lenda de "Billy The Cat" e outras personagens da terra do Pantanal.

Saúde e paz,

Virgílio Agra.
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