segunda-feira, 8 de abril de 2013

Pontes, molas, corações e emoções



Colegas de todos os estados e de todos os estados de saúde.

Sabem aqueles dias em que parece que a bruxa está solta? Pois foi o que aconteceu lá em casa nas últimas semanas. Desde a última edição das Saudações Caetés, enquanto minha esposa fazia um cateterismo e em seguida uma angioplastia com a colocação de dois stents no coração, eu tive a experiência de conviver com uma pneumonia que me deixou quebrado que nem arroz de terceira. De imediato, quero deixar claro que estamos bem e eu já retornei ao meu trabalho normalmente.

Nos dias em que Eliane estava internada veio à minha memória um personagem que conheci há uns anos atrás em situação semelhante. Meu cunhado, seguindo uma tradição familiar, foi submetido a uma cirurgia de ponte de safena e nós o acompanhamos tentando prestar alguma assistência. Durante sua convalescença dividiu o quarto com um senhor, também com problemas cardíacos. Naquelas circunstâncias fomos puxando conversa uns com os outros e eu soube que o cidadão morava na cidade de Delmiro Gouveia, lá no sertão alagoano. Quando perguntei seu nome tive uma surpresa, pois eu já tinha ouvido falar dele por intermédio dos meus pais e Eliane já tinha trabalhado com um filho dele. Disse-lhe de quem eu era filho e ele imediatamente lembrou-se de meu pai, perguntou por ele e, a partir daí, a conversa passou a rolar solta.

Encontros como este são muito raros nas grandes cidades e, para algumas pessoas, isso é coisa de "província", empregando este termo para desqualificar os lugares onde isso acontece como se fosse um palavrão. No entanto, eu gosto muito desses encontros casuais. Naquela circunstância achei muito bom saber que tínhamos que compartilhar o espaço com pessoas que já eram conhecidas.

Seu Cantuária estava internado porque estava com a pressão arterial muito alta, se não me falha a memória sua pressão era 23 por 16. Eram valores tão altos que assombrava a todos nós, menos a ele próprio que não dava a mínima para o que estava acontecendo. Conversa vai, conversa vem, ele olhou para meu cunhado, disse que já tinha feito cirurgia semelhante e de forma muito despreocupada começou a contar como tinha sido a sua recuperação:

 - Eu já fiz essa mesma cirurgia que ele fez. Num se preocupe não que é besteira. Quando eu recebi alta do hospital o médico disse que eu não poderia dirigir e um filho meu foi me levar de carro até Delmiro, mas quando a gente chegou em Arapiraca eu peguei uma briga com ele, tomei a direção do carro e fui dirigindo eu mesmo. Com uma semana, mais ou menos, após minha chegada encontrei um primo meu, o "Urêia".

"Urêia" era serralheiro na cidade de Delmiro Gouveia e, nos tempos em que eu morava nas terras paulafonsinas o conheci como cliente da loja de meu pai, onde ele ia comprar materiais para a sua serralharia. Quando eu falei que conhecia o seu primo, Seu Cantuária se animou mais ainda com a conversa e então continuou:

 - Eu ia passando de moto quando "Urêia" me chamou.

 - Eita Cantuária! Domingo eu vou fazer uma buchada lá em casa e queria lhe convidar, mas você tá desse jeito... num vai poder ir.

 - O que? Num vou poder? Fique sabendo que eu vou sim e tem mais, vou comer da buchada sim sinhô. Eu sou homem pra perder uma buchada?

Apesar da preocupação com meu cunhado que estava com o peito todo costurado de um lado, eu não consegui deixar de rir com o relato desdenhoso de Seu Cantuária. Continuando sua história ele disse:

 - Com uns quinze dias que eu voltei a Delmiro eu tava era trabalhando que num sou homem de ficar parado.

 - O que o senhor faz? Perguntei.

 - Eu conserto caminhão.

Lá para as tantas eu perguntei por que ele estava internado novamente. Na minha pobre inocência, pensei que poderia levá-lo a refletir sobre a forma como conduzia sua própria vida.

 - Tô aqui por que meus filhos me trouxeram. Minha pressão tava alta, aí eu fui no médico e ele examinou. Perguntou um bocado de coisa, aí eu disse pra ele que deve ter sido porque eu tomei rum... Eu gosto mesmo é de tomar cachaça, mas, um dia desses, eu tomei rum e acho que foi isso me fez mal. Aí o médico perguntou se eu tinha tomado uma dose, aí eu disse pra ele que nada, eu tomei a garrafa quase toda, só sobrou tantinho assim.

Concluiu a narrativa gesticulando com a mão e, mostrando o polegar e o indicador, sugeriu o volume de bebida que ficara no fundo da garrafa.

De lá para cá meu cunhado recebeu alta e voltou às suas atividades normais. Quanto a Seu Cantuária, nunca mais tive notícias dele, mas de uma coisa eu tenho certeza, onde quer que ele esteja seu espontâneo será sempre sua marca registrada.

Caros colegas, por entender que pontes e molas são coisas boas somente na área da engenharia, desejo que todos reservem seus corações apenas para as boas emoções. Uma boa semana para todos.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra.


(Escrito em 23/02/2011)

domingo, 17 de março de 2013

Nem só poluição e notícia ruim são capazes de cruzar fronteiras


Playing For Change

Colegas de todos os sentimentos

Esta última semana foi, acredito que para todos nós, um tanto quanto pesada. Parecia uma semana qualquer, daquelas onde temos que cumprir os compromissos habituais como trabalhar, comprar mantimentos no supermercado e ficar aguardando o final de semana para um merecido repouso. Mas, infelizmente, o desenrolar da história não foi exatamente assim. Ao longo da semana as montanhas desmoronaram e as notícias que chegaram das terras fluminenses não foram nada agradáveis.

Lembro-me que, há um ano, o país assistia estarrecido o resultado funesto das chuvas que caíram no estado do Rio de Janeiro provocando, entre outros eventos, desmoronamentos em Angra dos Reis e Morro do Bumba em Niterói, resultando em centenas de mortos em todo o estado. Há seis, meses foi a vez dos estados de Alagoas e Pernambuco ocuparem a atenção da imprensa nacional, quando as enchentes provocadas por alguns rios dos dois estados arrasaram várias cidades. Por sorte o número de mortos não foi tão grande, pois a tragédia ocorreu durante o dia, o que permitiu aos moradores das regiões ribeirinhas fugirem diante do perigo.

Em outras épocas a televisão mostrou tsunamis na Indonésia, mineiros soterrados no Chile, ondas de calor na Europa e mais recentemente inundações na Austrália, lá do outro lado do mundo. Porque será que esses eventos mexem tanto comigo? Talvez seja porque estou ficando velho (e besta naturalmente), talvez porque tenho parentes e amigos em terras d'além mar. Não sei o motivo, mas eu sei que todas as pessoas atingidas pelas forças da natureza têm uma história, têm amigos, têm sentimentos, sonhos para o futuro, alguém esperando em algum lugar. É triste pensar em eventos que, de uma vez só, tiram a vida de muitas pessoas e até de famílias inteiras.

Normalmente, me dirijo a vocês através das Saudações Caetés com histórias pitorescas e às vezes até engraçadas, tentando influenciar positivamente o humor de cada um, pois é isso que me cabe na condição de colega, de companheiro. Mas, desde os últimos dias da última semana, não consigo parar de pensar nos amigos que deixei nas terras fluminenses, pois alguns moram em cidades que foram atingidas pelos desmoronamentos ou têm parentes que lá residem. Lembro-me que, quando as enchentes ocorreram nas terras caetés, recebi vários e-mails e telefonemas de amigos preocupados comigo e meus familiares. É bom saber que tenho pessoas que se preocupam comigo e agradeço a Deus por ter também com quem me preocupar. Mas confesso que a frequência com que esses eventos estão acontecendo me deixam triste, porque a distância ou o tempo que nos separam eu sei administrar, mas o medo de perdê-los não, e, exatamente por causa do carinho que tenho a todos vocês, eu gostaria de puxar a conversa para uma nuance menos funesta do assunto do momento da grande imprensa nacional, afinal de contas, além de poluição e notícia ruim, existe um monte de outras coisas que, felizmente, cruza fronteiras.

Um dia fui presenteado pelo meu compadre Evaldo com um link para um clipe do "iutube", onde tocava uma música composta pelo americano Ben E King. Uma equipe de técnicos de vídeo e áudio gravou diversos artistas de rua de várias línguas, raças e culturas, em dez países diferentes, cantando essa música composta no inicio dos anos 60. Em seguida todas as gravações foram reunidas num único arranjo que encanta não apenas pela beleza da melodia, mas também pelo fato de mostrar que a arte, a beleza e a emoção são capazes de sobrepujar não apenas a barreira do tempo, mas também a da distância, da política, do preconceito e da discriminação. Ademais, a música aborda um tema bastante pertinente às circunstâncias do momento, a força que obtemos uns dos outros. Eu, como profundo apreciador da cultura popular, fiquei encantado, por isso encaminho para vocês logo abaixo, o maravilhoso clipe do Grupo Playing for Change com a bela tradução de Brunno Belesa.

Aproveitando a oportunidade para registrar um forte abraço à minha esposa Eliane e minha irmã Mônica, desejo uma semana com boas notícias para todos.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 16/01/2011)


segunda-feira, 4 de março de 2013

Picolé, frio, gelado e doce



Santana do Ipanema - 1966


Colegas de todas as sobremesas

O que significa para cada um de vocês a palavra Maringá? Se eu perguntasse para alguém com idade de ser meu pai, muito provavelmente, ouviria citações à música do médico mineiro, natural de Uberaba, Joubert de Carvalho, composta em 1932. Se eu perguntasse a Carlos Weigert, engenheiro paranaense hoje morando em terras caetés, ou a Rommel Vanderley, engenheiro caeté hoje morando em terras paranaenses, com certeza ouviria que Maringá é uma cidade do noroeste do Paraná. Quantas alternativas são possíveis para esta pergunta eu não sei, mas podem ficar certos todos vocês, Maringá, para mim, é o nome de uma sorveteria que havia em Santana do Ipanema nos tempos que eu era menino.

Diante das sorveterias que temos atualmente, acredito que eu teria certa dificuldade em explicar para alguém, com menos de 30 anos de idade, como funcionava um desses estabelecimentos nos idos da década de 60 e 70. Se o exemplo tomado vier lá das bandas do sertão, aí então a dificuldade passa a ser dobrada. Hoje em dia a gente chega numa sorveteria "selfi sérvice", escolhe se vai usar copinho ou casquinha, empunha aquela colher especial, abre os freezers e tem tanta opção de sabor de sorvete para escolher que às vezes dá até agonia. Atualmente, uma boa sorveteria da capital alagoana ostenta com orgulho um cardápio com mais de 70 sabores, um verdadeiro tormento para os indecisos. Depois de montado o sorvete, o indivíduo passa por uma bateria de opções de coberturas que vai desde farelo de biscoito até chocolate quente. Para completar o trajeto, uma parada obrigatória na estação balança que quantifica na hora o dano feito tanto no orçamento quanto na dieta.

No tempo em que eu usava calças curtas e tinha a cabeça raspada sobrando apenas um tufo de cabelo na testa o negócio era bem diferente. No centro de Santana do Ipanema, bem de frente à praça, havia um prédio com um salão grande. No alto da sua fachada, pintado na parede estava escrito: SORVETERIA MARINGÁ. Porém, o produto mais vendido da casa era mesmo o picolé. Quando eu pegava um trocado entrava na Maringá, me dirigia a um balcão mais alto do que eu e fazia a tradicional pergunta:

 - Tem picolé de que?

O atendente dizia de cor todas as opções daquele dia, ficando bem claro que este número dificilmente ultrapassava a cifra de meia dúzia de sabores. Considerando-se que coco, morango e chocolate nunca saiam do cardápio verbal as demais opções não se constituíam em qualquer empecilho ao processo decisório. O picolé era um produto muito barato e custava apenas alguns centavos. Já o sorvete, além de ser um pouco mais caro, o seu consumo, para mim, era um pouco mais complicado, pois papai nos proibia de comer a casquinha, alegando que aquilo era sujo. Sujo para se comer, mas não era sujo para conter o sorvete que se comia. Dá para entender? Conhecendo a qualidade das casquinhas de hoje faz vergonha admitir que eu comia as similares daquela época, pois além de não terem gosto de nada a consistência era bem parecida com papel, mas não importava, quando o dinheiro dava e eu podia comer escondido...

Apesar da Sorveteria Maringá ser muito bem localizada, acredito que a maior parte das vendas se dava através de meninos que vendiam os picolés, subindo e descendo as ladeiras de Santana gritando todos, prestem bem atenção, todos gritando a mesma coisa:

 - "ÓÓÓÓi o picolé fri, gelado e doce e gostoso e saboroso que dá gosto na ponta da língua. Olha aêêêê. Picoléééé da Maringáááá olha aêêêê."

Gente, os anos se passavam e os vendedores mirins não mudavam o grito do picolé em uma vírgula sequer. A única inovação que tive oportunidade de presenciar no mercado foi quando surgiu uma nova sorveteria.

Jonas Guedes já era comerciante na cidade, era um cara brincalhão e gostava de tirar onda com todo mundo. Certo dia, não sei porque, resolveu abrir uma outra sorveteria também no centro da cidade. Comprou maquinário, conseguiu um ponto e no dia em que foi abrir o letreiro com o nome do estabelecimento eu estava passando pela rua e fiquei parado admirando o trabalho do letrista. O sujeito começou a riscar as letras e surgiu a palavra SORVETERIA. Em seguida o "artista" sacou do pincel e preencheu as letras, deu todo o acabamento e tornou bem visível a primeira palavra que identificava o produto oferecido pela casa. Ou seja, picolé. Em seguida começou a abrir as outras letras e no início surgiu a letra "A", em seguida a letra "L", continuando o trabalho surgiu os contornos da letra "P". Aí então o "artista" parou, quando percebeu que a parede estava no fim e que, se ele continuasse o trabalho, iria pintar a parede do vizinho. Ou o sujeito errou os cálculos ou não sabia calcular, o certo é que a maior parte do serviço já estava pronto e não tinha como remendar. A cagada foi tão grande que, qualquer que fosse a solução, seria necessário refazer todo o trabalho com sérios prejuízos tanto para Jota Guedes como para o pintor. Apesar de ter tido a honra de ser testemunha ocular desse "fato histórico" eu, apenas uma criança, não tive acesso aos termos do acordo entre Jonas e o pintor. Só sei que o coitado subiu novamente na escada e com muito jeito conseguiu abrir uma letra "I" bem no canto da parede sem invadir o espaço aéreo do vizinho. O nome que deveria estar escrito era "SORVETERIA ALPES", mas, desse dia em diante, quando passava um menino vendendo picolé com uma caixa de isopor pendurada no ombro, gritando, às vezes o script era assim:

 - "ÓÓÓÓi o picolé fri, gelado e doce e gostoso e saboroso que dá gosto na ponta da língua. Olha aêêêê. Picoléééé da Alpíííí olha aêêêê."

E assim colegas, desejo a todos um a boa semana e espero que no próximo final de semana aproveitem para tomar um bom sorvete, com calda, cobertura e uma boa companhia.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(escrito em 10/01/2011)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Sorvete para enrolar a língua



Colegas de todas as datas

Há exatamente um ano, quando estávamos nesse momento de transição ano novo versus ano velho, tive o prazer de receber em minha casa uma jovem mexicana que visitava este grande país graças a um programa de intercâmbio cultural para jovens estudantes.

Andrea Rioseco Sanjuan, natural da cidade de Mazatlan, na beira do Oceano Pacífico, estava hospedada na casa de minha irmã Márcia, lá na capital pernambucana, enquanto uma sobrinha minha visitava as terras do Tio Sam. Durante o período de natal e réveillon, aproveitando as férias escolares, a garota nos agraciou com sua presença na nossa casa numa experiência que foi, sem dúvida nenhuma, enriquecedora e bastante agradável.

Durante sua estada em terras caetés tivemos oportunidade de conversar bastante sobre os mais variados temas como comidas, vestimentas, família, estudo, etcetera e coisa e tal. Nessa época do ano, lá no hemisfério norte é inverno, e é com frio e neve que se comemora o natal e a festa de ano novo. A influência do ambiente sobre a cultura de um povo é tal, que Andrea revelou nunca imaginar que as pessoas comemorassem o natal e o ano novo sem que houvesse neve. No réveillon de 2010, ela teve a experiência de participar pela primeira vez de uma festa de passagem de ano vestida de branco e vendo os fogos de artifício com os pés na areia de uma praia de águas mornas, no nosso jeito tropical de saudar o ano que se inicia.

No período em que a jovem mexicana esteve em nossa casa, tive oportunidade de conversar com seus pais através da grande rede e, arranhando meu "portunhol", disse que Andrea, ao sair da nossa casa, deixaria saudade. Qual não foi minha surpresa quando ela teve que explicar aos seus pais o significado de palavra tão significativa para nós: SAUDADE. Neste dia, soube que esta palavrinha só existia no português e que não havia substantivo equivalente nos demais idiomas. Fugindo a esta regra, descobri posteriormente que a palavra saudade também é encontrada no galego, um dialeto usado na região da Galícia, na Espanha, exatamente na fronteira norte do país de Camões.

Hoje, Andrea está de volta ao seu país de origem e na comemoração do seu natal, apesar do clima frio devido ao inverno, tem sua boca aquecida pela comida apimentada, enquanto sua presença aquece o coração da sua família. Enquanto isso, cá no hemisfério sul, uma família caeté passou os festejos de fim de ano dividida, pois chegou nossa vez de ter uma filha realizando intercâmbio em terras estrangeiras. Morando desde julho nos Países Baixos, Janaína, nossa filha mais velha, usufrui hoje não apenas da oportunidade de conhecer as quatro estações do ano, comer queijos fabricados com técnicas seculares e visitar moinhos de vento, mas, acima de tudo, tem se enriquecido graças ao contato com outras culturas bem como com o convívio com uma simpática família holandesa. Da mesma maneira, acredito que esteja proporcionando às pessoas com quem interage uma percepção positiva sobre o seu caráter como também sobre o seu país.

No mês de dezembro, enquanto passávamos o natal nas terras paulafonsinas com os demais membros da nossa família, Janaína cantava "Jingle Bells" nas frias terras de Van Gogh. Não satisfeita com o frio batavo, resolveu, juntamente com outras colegas brasileiras, passar o réveillon na cidade de Praga na república Tcheca e, enquanto em terras caetés estávamos vendo os fogos de artifício, vestidos de branco, com os pés na areia da praia e os termômetros marcando 25º C, na terra de São João Nepomuceno os termômetros marcavam -20º C.

Como diríamos no sertão: "Eiiiita frio da gota serena!"

A temperatura era tão baixa que o batom de uma das garotas congelou dentro da bolsa e faltou bem pouquinho para que as meninas também virassem picolé. Falando nisso, vocês sabem como se escreve a palavra "sorvete" em tcheco? Ganha um sorvete de duas bolas quem adivinhar. Em tcheco a sobremesa mais popular do mundo se escreve ZMRZLINA.  Dá para acreditar? A pronúncia é tão complicada que eu fico sem saber o que é mais difícil: dizer essa palavra ou aguentar o frio de lá. Porém, do jeito que a pronúncia é complicada, eu tenho a impressão que lá para aquelas bandas o sujeito que tem menos de dez anos de idade não sabe pedir esse produto.

Colegas de longas e de todas as datas, gostaria de desejar a todos vocês que, no ano que temos pela frente, tenham saúde para enfrentar com vigor os obstáculos da vida que surgem a cada dia, a luz da sabedoria para poder distinguir o bem do mal e, finalmente, o prazer da paz de espírito. A Janaína desejo um inverno com neve e frio ameno, campos floridos, uma praia no verão, paisagens de tirar o fôlego no outono e um maçarico para poder tomar ZMRZLINA. Para mim só peço forças para aguentar o peso da palavra saudade.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra.

(escrito em 06/01/2011)


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

E fui pro Recife, para ser tão somente sertão



Colegas de todas as origens

No início deste mês de dezembro, fiz uma breve incursão à capital pernambucana, cidade onde vivi dos dez aos vinte anos de idade. Fui encontrar os antigos colegas do Colégio Nóbrega, escola onde estudei durante sete anos. A visita às terras do Leão do Norte é sempre uma oportunidade de interagir tanto com as pessoas, amigos que lá deixei, quanto com a própria cidade. É uma oportunidade de observar e desfrutar das transformações pelas quais passamos, nós e a cidade, sem nunca perder, felizmente, as nossas identidades.

Já tive oportunidade de falar aqui nas Saudações Caetés sobre as impressões que tive quando cheguei ao Recife, ainda menino. Naquela época, uma das coisas que mais chamava a minha atenção eram os letreiros de neon instalados nas fachadas dos prédios. À noite, no centro da cidade, os prédios localizados na beira do Rio Capibaribe lançavam suas luzes coloridas sobre suas águas, multiplicando as cores e marcando minha memória até os dias de hoje. Com o passar dos anos tive ótimas oportunidades de conhecer a Veneza Brasileira tanto pela terra quanto pela água. Como timoneiro da equipe de remo do Sport Clube do Recife, naveguei não apenas pelo eixo principal do Capibaribe, do qual conhecia as curvas e bancos de areia, como também tive oportunidade de conhecer afluentes, mangues e canais. Naquele estuário, formado por vários rios, algumas vezes chegávamos ao ponto de nos conduzirmos de um rio para outro através de um emaranhado de canais, navegáveis apenas com a maré cheia. Ao longo do tempo em que lá vivi, tive a oportunidade de ver as obras de dragagem e retificação do leito do Capibaribe que contribuíram para livrar Recife das suas frequentes enchentes. Vi pontes serem demolidas, outras sendo construídas.

Hoje, como um simples visitante, falar das alterações pelas quais passou Recife ao longo dos anos é uma tarefa extensa e até cansativa, mas uma transformação que não apenas me impressiona como também me encanta naquela cidade é a recuperação da parte antiga da cidade, na área do cais do porto. No meu tempo, o bairro do Recife Velho era conhecido pelos seus prostíbulos. Ao atravessarmos a ponte Maurício de Nassau, o prédio que abrigava o "Chantecler" impressionava pelas suas características arquitetônicas enquanto que, mais adiante, o "Black Tie" chamava a atenção pelo seu grande letreiro. Hoje a coisa mudou, os prostíbulos foram fechados, lá na beira do cais a Praça do Marco Zero virou ponto turístico, a Rua do Bom Jesus deixou de ser endereço de pensões baratas e tornou-se um ponto de encontro agradável muito bem frequentado. As mudanças foram tantas que até o bairro deixou de ser Velho para receber o título de Antigo.

Foi nessa cidade de cultura efervescente onde comecei a sentir a força das minhas raízes culturais do sertão nordestino. Lembro-me de uma noite, quando já cursava a universidade, saímos, eu e meu primo Alberto, para nos encontramos com uns colegas no Bar Canal, lá na Avenida Agamenon Magalhães. Uma noitada repleta de muita conversa jogada fora e cerveja de goela a dentro que poderia ser uma entre tantas se não fosse o fato de sermos todos do interior de diversas cidades do sertão. Lembro-me bem que estávamos à mesma mesa estudantes de Alagoas, de Pernambuco e da Paraíba. A conversa rolava solta com cada um de nós contando causos e usando sem a menor cerimônia um linguajar que era comum a todos. Mas o que me chamou a atenção naquela ocasião não foi apenas o falar, mas sim todos os referenciais culturais daqueles rapazes que, apesar de serem de diversos estados, mantinham uma unidade bem clara nos seus valores.

Hoje, visitar as terras mamelucas do Leão do Norte, percorrer suas ruas e pontes e reencontrar velhos amigos do tempo do colégio é uma tarefa que me dá um profundo e irrecusável prazer. É gostoso apreciar a cidade fazendo uma gostosa comparação entre o passado e o presente, andar à noite pelo Marco Zero, pela Rua do Bom Jesus e chegar até a antiga Alfândega. A cidade, como se fosse um ser vivo mudou, como uma lagarta que se transforma em borboleta. Da mesma maneira, nós também passamos por transformações, uns quilos aqui, uma cor de cabelo ali... Sobre os aspectos físicos é melhor não comentar, porque o prazer é sentir que apesar das mudanças que fisicamente experimentamos, tanto pessoas como cidades, trazemos uma essência que permanece, pois é inerente à cultura de cada um e isso é o que une as pessoas entre si e estas às cidades.

No mesmo dia em que, às margens do Capibaribe, eu confraternizava com os velhos amigos de colégio, lá na beira da Cachoeira de Paulo Afonso, estava se formando a primeira turma do curso de Direito do Campus VIII da Universidade do Estado da Bahia. Como só soube da notícia duas semanas depois, só agora posso cumprimentar os meus ex-colegas de curso. Enquanto isso, deslizando mansamente, o Capibaribe continua se encontrando com o Beberibe, para juntos formarem o mar.

A todos os meus amigos uma boa semana e um bom natal.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 21/12/2010)

Falando sobre os lugares de Recife, lembro sempre de Alceu Valença, grande artista que exalta sua terra e encanta multidões. Uma de suas músicas por mim preferidas é, coincidentemente, "Pelas ruas que andei" aqui interpretada por músicos que representam uma nova geração da música popular brasileira, Nós4.


sábado, 19 de janeiro de 2013

E haja bolacha!


Da esquerda para a direita:
Bolacha mimosa, bolacha sete-capas doce, biscoito da frança e tareco.

Colegas de todos os lugares

Que a grande rede é apenas um meio de manter contato com todos vocês, isso é óbvio. Que as Saudações Caetés é uma desculpa para contar causos e lembranças dos tempos passados, isso não é nenhum segredo. Que receber notícias de todos é um prazer enorme, isso é fácil de deduzir. Mas perceber que minhas lembranças fazem meus amigos remexerem os fundos dos seus próprios baús, isso é, para mim, recompensador, estimulante, etc. etc. etc.

Quando da última edição das Saudações, quando falei sobre as bolachas, um troço tão besta que em todo canto se acha, fui agradavelmente surpreendido com vários comentários recebidos que, de tão interessantes, não pude tirar da minha cabeça a idéia de dividi-los com vocês.

Lá das bandas da Cidade Maravilhosa, o meu irmão e caeté honorário Ivan Varella, como um bom carioca, primeiro tirou uma onda com minha cara quando disse:

 - Fiquei encantado com o relato das bolachas e imaginando você pela primeira vez na feira de São Cristóvão e como se diz por aqui devia ser "um pinto no lixo".

Mas, como os velhos tempos falaram mais alto, continuou:

 - Quanto às latas coloridas lembro bem, pois estas ficavam em exposição nas mercearias e depois nos supermercados, esta é uma das lembranças da minha infância, pois levávamos a quantidade que queríamos e hoje somos obrigados a comprar até mais do que iremos consumir.

Também das plagas cariocas, com os devidos pintos no lixo, mas com raízes mineiras, recebi um comentário da minha amiga do coração, Penha Faber que contou:

 - Lá nas Minas Gerais, quando eu era menina pequena não de Barbacena, mas de Leopoldina rsrs, também ficava alucinada pra ir à casa de minha tia "Bilanda" (Yolanda), porque ao chegar lá meu tio Tatá pegava sua bicicleta maravilhosa (era considerada a rival da minha tia rsrsrs) e ia toda tarde buscar os meus casadinhos e pães com creme em cima.
   Quantas vezes meu pai chegou em casa com aquelas latas quadradas de 20 quilos, cheinha de biscoitos, talvez por isso eu fiquei igual pinto no lixo, quando entro hoje nas seções de biscoitos.
   Acho que bem lá no fundinho resolvi optar por fazer pães, bolos etc. etc. para suprir, quem sabe? Toda aquela vontade de menina rsrsrs.


E também saído das terras mineiras, lá das bandas de Almenara, na beira do Rio Jequitinhonha, o meu compadre e caeté honorário Natanael Almeida, hoje residente na capital cearense, se banhando nas águas onde se banhou Iracema, comentou:

 - Moço, você me fez recordar de uma parte da minha infância, onde a meninada adorava Q-suco com bolacha, mesmo que as mães lamentassem: "Isso não alimenta direito."
   Estávamos mais preocupados com a "farra".
   Às favas o tal poder alimentício.


E é da beira do mar, lá das terras caiçaras de Peruíbe-SP, que minha prima Camila Fuzikawa, apaixonada por gatos, filha do grande santanense F. Nepomuceno e Elza, uma menina filha da terra do sol nascente, mandou um comentário que dizia mais ou menos assim:

 - Nesse seu relato, lembrei-me de uma casa do norte que tinha aqui no bairro da Estação, que vendia os tais mata-fome, que nunca tive o prazer (ou não) de experimentar. Minha mãe costumava brincar, dizendo que o mata-fome era capaz de matar até quem o comia... eu achava que era devido ao tamanho da bolacha, ou da limpeza do ambiente... no caso a falta dela.
   E, apesar de meu pai ser nordestino, ele não morria de saudades das comidinhas típicas vendidas nessas casas, então eu nem conhecia as iguarias lá vendidas.
   Mas os sete-capas vim a conhecer no ano passado, quando uma colega de trabalho passou a comprar de vez em quando nos nossos cafés da manhã, pois lembrava de sua infância. Ô treco ruim! Ninguém gostava, mas todo mundo acabava comendo "de raiva" como diziam, e acabamos pondo o apelido de hóstia quadrada, que sacrilégio.
   Tem coisas que nos remetem à infância, e nem são tão gostosos assim. Vale o valor sentimental das bolachinhas de R$ 1,00.

Pois bem queridos colegas, todas as histórias que um dia aqui contei, foram frutos de relatos que ouvi no passado. O que estamos vendo hoje, é que os leitores das Saudações começam a ser os protagonistas dos novos causos. Usar a escrita da grande rede é apenas uma forma de preencher a lacuna criada pela distância física que tenho de vocês. Saber que as Saudações Caetés mexem com as suas lembranças é a prova de que os nossos sentimentos de fraternidade são capazes de romper a barreira do tempo e do espaço. Muitos causos ainda estão para ser contados.

Caros colegas, lembrando a Camila que bolacha sete-capas de um real só pode ser muito ruim, desejo a todos uma ótima semana. Despeço-me com a frase da minha amiga Penha: Deus é pai e é maior, o bem vencerá, tenho fé que vai melhorar muito mais.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

(Escrito em 12/12/2010)

PS: Muito mais do que um alimento popular, as bolachas representam realmente uma parte importante da culinária e cultura nordestina. Além das influências no falar, as bolachas inspiram poetas e estão presentes até na música regional. Um grande exemplo desta influência é a música “Tareco e mariola”, composta em 1993 por Petrúcio Amorim um cabra bom lá das bandas de Caruaru. Evocando nomes de plantas nativas do sertão nordestino como o “velame” e a “macambira” e comidas como o “mugunzá” e o “tareco”, Petrúcio elaborou uma música que exalta altivez do seu povo.
A propósito, “tareco” para quem não sabe, é um biscoito doce, feito em padaria e muito bom para acompanhar uma boa xícara de café quente.


domingo, 6 de janeiro de 2013

Que nem bolacha, em todo canto se acha



Colegas de todos os paladares

A semana que terminou, começou como uma semana qualquer, com aqueles ares de normalidade. No início da noite de terça-feira minha esposa foi me buscar no meu trabalho e, enquanto retornávamos para casa, aproveitamos para passar numa padaria para comprar uns pães, uma dessas atividades corriqueiras na vida dos pobres mortais. Tomamos o caminho do bairro da Pajuçara e fomos direto à Padaria Alteza, onde compramos os tais pães e uma preciosidade somente lá encontrada e em muitos lugares imitada, as Bolachas Mimosas. Sabe aqueles produtos que têm a capacidade de nos fazer lembrar de alguém? Pois bem, essas bolachas sempre me lembram meu pai. Como sou do interior, lembro-me que, sempre que papai vinha à capital comprava um saco dessas bolachas às quais muito apreciávamos.

A bolacha faz parte do hábito alimentar do nordestino desde épocas bem remotas. Quando Sua Majestade Imperial, o Imperador Dom Pedro II visitou o sertão nordestino, subindo o Rio São Francisco para conhecer a Cachoeira de Paulo Afonso, o mesmo escreveu no seu diário que, durante a ceia ocorrida em uma das fazendas onde ele pernoitou, comeu apenas bolachas porque não havia pães. Como estes últimos se estragavam com mais facilidade as bolachas tinham a preferência da população dos rincões mais distantes do país.

Tia Albertina conta que nos idos de 1930 ela foi morar no Sítio Caboré, na casa da minha bisavó Maria Rodrigues Gaia, Vovó "Dindinha". Naquela época, Tio "Badé" era solteiro, morava com os pais e cabia a ele a missão de ir semanalmente à feira em Olho D'Água das Flores. Quando Tio "Badé" partia, ela ficava ansiosa pela sua chegada.

 - “Porque ele trazia cocada e bolachão. Essas coisas que menino gosta”.

Quando eu era menino, o grande sucesso eram as Bolachas Sete Capas, mas eu também comi muitas vezes um bolachão que a gente chamava de "Mata Fome". O tal biscoito tinha um cheiro que a meninada dizia ser cheiro de xixi que era provocado pelo uso de amoníaco na sua fabricação. Mas, com cheiro ou sem cheiro, o produto era barato e por isso muito comercializado. Quando os biscoitos industrializados começaram a chegar ao sertão, vinham inicialmente embalados em latas coloridas, muito bonitas e, posteriormente, em embalagem de um papelão especial. Vinham do Recife e eram fabricados na Confeitaria Confiança, que eu ainda cheguei a conhecer na Rua da Imperatriz. Mas, foi o surgimento dos biscoitos Cream Cracker, Maria e Maizena que colocaram na defensiva a produção local das padarias. O proprietário de uma panificadora próxima à minha casa falou com saudosismo do tempo em que ele só vendia as bolachas que ele mesmo produzia. Convém ressaltar que a autêntica bolacha ficava exposta à venda num balaio, a granel, e o cliente pedia a quantidade desejada que era então pesada na hora. Neste ponto, vale o elogio à Padaria Alteza, lá da Pajuçara, que se mantém original, tanto no que diz respeito à qualidade do produto como na forma de comercialização.

Num período mais recente da minha vida, quando vivi quase um ano em terras cariocas, pude perceber a importância que tem a bolacha como elemento marcante da cultura nordestina. Na maior parte do Brasil o produto é chamado de biscoito, mas no nordeste é bolacha. Em terras gauchas, onde também se adota idêntica nomenclatura para o produto, a pronúncia usada é BOLACHA, assim com a letra "O" com som aberto. No nordeste nós dizemos "BULACHA", pronunciando a letra "O" com o som ultra-fechado, de modo que a 4ª vogal adota o som da vogal seguinte, ou seja, o som da letra "U".

No nordeste existe até um ditado que diz: "Aquilo é como bolacha, em todo canto se acha". Durante o meu exílio na cidade maravilhosa, quando eu ia às padarias do bairro onde morava, além dos pães, é lógico, e de bolos muito bem feitos, eu achava uma variedade tão grande de torradas que eu ficava admirado com a imaginação do padeiro. Porém, uma bolachinha sequer, lá não se achava. Digo, haviam aqueles biscoitos industrializados, com sal, sem sal, light, diet, com fibras, com sabor de cebola, queijo, alho, etc. etc. O produto vinha naquelas embalagens de plástico nas mais variadas cores e com aquela fitinha com a indicação de "puxe para abrir" que mais parece uma carteira de cigarros. Mas, BOLACHAS, dessas feitas nas padarias, só achei quando visitei o enclave nordestino da feira de São Cristóvão.

E foi nesta semana, que começou com este simples caeté comprando bolachas para comer com uma xícara de café, que terminou com uma histórica operação policial. Lá pras bandas das terras cariocas, a tropa de elite da vida real entrou na Vila Cruzeiro e Complexo do Alemão, para dar umas boas e merecidas "bolachas" no crime organizado.

Meus caros amigos, espero sinceramente que os acontecimentos recentes no Rio de Janeiro não se limitem a uma operação policial. Espero que a ação tenha continuidade com a prestação aos cidadãos dos serviços necessários ao usufruto de uma vida digna a todos. Mas, diante das imagens divulgadas pela grande imprensa, não posso deixar de me preocupar com a segurança de todos os amigos que deixei naquela bela cidade. Espero que a semana que se inicia seja para todos de volta a mais perfeita normalidade.

Saúde, luz e paz... Muita paz

Virgílio Agra

PS: Há uns dias atrás fui a Padaria Alteza para comprar as Bolachas Mimosas e encontrei um novo estabelecimento, todo reformado com um “desaine” moderno. Procurei as bolachas e não vi o seu balaio, só as encontrei previamente embaladas em sacos plásticos, com aquela etiqueta colante com um código de barras. Para não dar a viagem perdida comprei um pacotinho, provei e pude constatar que o seu sabor não passou por qualquer reforma, mas o seu encanto, infelizmente, perdeu-se com a modernidade.

(Escrito em 29/11/2010)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...